O silêncio que vive
na rocha
Na parte interior de
cada folha
E no espaço azul
entre as pedras.
Temos como
civilização uma clara dificuldade em suspender o barulho, em permanecer em silêncio
num determinado espaço que habitamos. Pascal disse-o em primeiro lugar quando
enunciou no século XVII, uma verdade civilizacional, nessa expressão,
"todos os problemas da humanidade decorrem da incapacidade de o homem
ficar tranquilamente sozinho no seu quarto". A consequência desta
incapacidade é a construção de meios, objectivos, formas que captem a nossa
atenção. Isso desloca-nos para longe de nós, para o nosso exterior e é uma das
razões por que tantos temem esse espaço do sagrado, o silêncio. Não aquele que
nos rodeia, mas aquele em que estamos
fundados, o interior.
O silêncio pode ter
em si uma construção visível, algo tão substantivo, "como um oceano, ou
uma interminável extensão de neve", e essa "majestade", uma
companhia viva ou a atmosfera de um temor. É na sua companhia que podemos
aprender muito sobre nós próprios. Para o construir em nós o primeiro passo
passa por falar com um dos seus elementos primordiais, a natureza. Se há
espaços que melhor conduzem esta sinfonia de encanto primordial, ele pode
também manifestar-se nos espaços cívicos de cada um. Isso significa conduzir um
processo mental, uma escolha, a realização de actividades manuais, um regresso
a algo básico e fundador da essência da vida.
Estas escolhas e
estas experiências, como o regresso à natureza e a prática de actividades no
interior de uma procura conduz o cérebro a desenvolver um processo, implica um
esforço pela concretização de uma ideia, de uma experiência. O movimento no
interior dessas escolhas e desses espaços conduz a mente, implica um movimento
do corpo, constrói uma possibilidade de encontrar o silêncio em nós. Esse é o
silêncio tangível, criado por nós no interior das coisas. Essa construção
dar-nos-á não só uma atmosfera interior, como um espaço que nos acompanha.
Erling Kagge, homem
de grandes viagens aos espaços mais distantes e mais inabitados do planeta,
justamente os pólos faz parte de um tipo de aventureiros que viram no movimento
uma das formas de contornar a melancolia das sociedades. Em Silêncio na era do
ruído, Erling Kagge reflecte sobre o silêncio, o seu valor para cada um de nós,
o espaço de vitalidade que ele pode fornecer para essa dimensão de verdade que
cada um procura. No fundo na construção do silêncio somos nós os mestres desse
templo à beira de cada desafio colocado. Um pequeno livro. Um grande livro,
desses muito raros que falam com o leitor, como se em cada um de nós seja
possível chegar a um pólo de extremidade e nele renascer com um sentido
próprio, o do silêncio.
Silêncio na Era do Ruído: Erling Kagge;
tradu. Miguel de Castro Henriques. 1ª ed. – Lisboa: Quetzal, 2017. – 156, [3]
p. ; 20 cm. – ISBN 978-989-722-385-3

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