quinta-feira, 7 de março de 2019

A palavra e o mundo - O enigma da chegada (II)

"Eu via uma floresta. Mas não era realmente uma floresta; era a penas o velho pomar nas traseiras do casarão em cuja propriedade se encontrava a minha casa. Aquilo que via, via-o muito claramente. Mas não sabia para que estava a olhar. Não tinha nada em que pudesse encaixar aquilo que via. Sentia-me ainda uma espécie de limbo." (1)

V. S. Naipul tem uma obra longa e premiada, com destaque para o Booker Prize de 1971 e o Prémio Nobel da Literatura em 2001. Natural de Trindade, nas Caraíbas descende de uma família de origem indiana, cujos antepassados vieram da Índia para as Antilhas no processo de globalização económica que foi o Império Inglês no século XIX. V. S. Naipul concilia uma ironia e uma observação britânica com um espírito de análise e um minimalismo de vida ligado ao hinduísmo e à sua memória.

Partiu jovem para Inglaterra para estudar Literatura em Oxford e a sua vida de escritor   mistura-se, a partir de certo momento com a do homem. Processo e descoberta difícil, enquanto o escritor não compreendia que homem o habitava, nessa relação de culturas que viveu de forma intensa. O enigma da chegada, livro de 2008 é um testemunho deslumbrante desse percurso de vida e do nascimento do escritor e dos temas que o fundiram com o homem, o adolescente e criança em Trindade e o adulto em Oxford.

O enigma da chegada descreve-nos a evolução de um escritor, os locais por onde viveu, com destaque para o lugar que o fez renascer. Justamente um vale perto de Stonehenge, onde habitou uma casa que integrava uma grande propriedade rural, o que nos permite conhecer uma região, a sua ocupação humana no tempo. Espaço pertencente à aristocracia rural, nela vemos desfilar as personagens que lá trabalhavam, as suas motivações e compreendemos a atmosfera que as envolvia, o seu trabalho, a sua visão do mundo, a sua intimidade com as coisas. A casa habitada pelo autor e as experiências vividas nessa propriedade deram-lhe a possibilidade de encontrar o sentido, o significado para a efemeridade da vida humana.

O enigma da chegada faz a descrição precisa da paisagem, como o autor a via nos seus passeios e permitiu-lhe abordar um microcosmo, a sua relação com a sociedade e como o tempo vai desfazendo sentidos antigos. O enigma da chegada é um livro que pertence a uma categoria muito restrita. Aquela que tem a capacidade de dialogar com o leitor, como se falasse com ele directamente. O enigma da chegada é uma longa e aprazível conversa, onde se revela uma grande sensibilidade na observação. Os passeios de V. S. Naipul dão-nos uma observação muito cuidada da Natureza, da sua evolução no tempo. "O jardim de Jack" e os trabalhadores da mansão dão oportunidades de reflexão ao autor sobre a vida, as escolhas que se fazem e delas extrai sentidos que parecendo particulares são absolutos sobre a própria existência.

O passado, os seus fragmentos sem memórias, os vestígios, relíquias de outras vidas, de outros sonhos procuram dar um significado para a ideia de ruína e degradação. Sendo um livro auto-biográfico é muito, uma obra literária sobre o Homem no Tempo. Uma geografia antes dos homens, o trabalho humano como uma declaração poética, um sentido vivo da vida ou só mais uma ruína, são questões colocadas. Como lidar com essa mutação da vida, dos seus objectos no tempo, como compreender a degradação contínua, a mudança constante em nós, no nosso tempo?

A experiência do que vivemos e a linguagem, como instrumentos de uma memória e de uma exaltação são tentativas para obter uma resposta. E ainda a consciência final de que sobre a melancolia e as nossas dores é importante compreender "que a vida, o ser humano, era o mistério, a verdadeira religião dos homens, a dor e a glória" (p.438). E compreendê-lo com assombro pela vida e pelos homens. E aceitar que a vida é sempre o recomeço de nós próprios. E verificar mais uma vez que a Literatura pode ser em alguns circunstâncias um instrumento de contextos, de significados poéticos para uma sobrevivência. A da memória .

(1) V. S. Naipul. (2013). O enigma da chegada. Lisboa: Quetzal.

A palavra e o mundo - O enigma da chegada (I)

Jack vivia no meio de ruínas, no meio de coisas que já não serviam para nada e tinham sido substituídas por outras. Porém, esta visão de Jack e do ambiente que o rodeava só me surgiu mais tarde, e impôs-se com mais força agora, à medida que vou escrevendo. Não foi a impressão com que fiquei da primeira vez que, num dos meus passeios, passei por lá.

Essa ideia de ruína e degradação, essa sensação de deslocamento, era algo que eu experimentava em mim mesmo, algo que transportava em mim: um homem de meia-idade, originário de um outro hemisfério, com um passado completamente diverso, procurava repouso numa casa de uma propriedade meio abandonada, uma propriedade cheia de recordações de um passado eduardiano, com escassas ligações ao presente. (...)

No entanto, quanto a Jack, eu via-o como um elemento mais na paisagem. A sua vida parecia-me autêntica, enraizada, adaptada: a vida de um homem que encaixava perfeitamente na paisagem. Via-o como um vestígio do passado (cuja desagregação era anunciada pela minha própria presença).

Quando dei aquele primeiro passeio e me limitei a ver a paisagem, tomando aquilo que via como simples elementos desse mesmo passeio, coisas que podíamos encontrar no campo em redor de Salisbury, coisas imemoriais, apropriadas, não me ocorreu que Jack viva no meio do lixo, no meio das ruínas que tinham quase um século; que o passado que envolvia a sua casa podia não ser o seu passado; que podia ter sido, num dado momento, um recém-chagado ao vale; que o seu estilo de vida podia ter sido uma opção, um ato consciente; que, do pequeno terreno que lhe coubera em sorte juntamente com a casinha de trabalhador ruaral, Jack criara uma casa especial para si mesmo, um jardim onde (embora rodeado de ruínas, recordações de vidas desaparecidas), ele se sentia mais do que feliz por levar a vida que levava e onde, como numa versão de um Livro de Horas, ele celebrava as estaçoes. (....)

E, no entanto, ainda demorei algum tempo, à medida que ia ganhando consciência das estações, a descobrir o jardim. Até então, o jardim estivera simplesmente ali, qualquer coisa no caminho, um ponto de referência, nada que merecesse grande atenção da minha parte. E, no entanto, eu amava aquela paisagem, as árvores, as flores, as nuvens, e era sensível às mudanças de luz e temperatura.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019


Neste nosso primeiro  Percurso pela Cidade, visitamos a Câmara Municipal do Porto. Fomos recebidos pela Dra. Lurdes Ribas, que nos falou de história , mas que também nos contou histórias  acerca do icónico  edifício.
Publicamos as imagens que estiveram na origem do seu discurso.



quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019


DIA DE S. VALENTIM


Segundo o estudo recentemente divulgado da investigadora Madalena Oliveira, da Universidade Fernando Pessoa, “Transmissão intergeracional da violência: o contexto familiar, as relações de intimidade e as crenças dos jovens”, com base num inquérito realizado nos anos letivos de 2008 a 2010 e que envolveu 1476 jovens com idades entre os 15 e os 20 anos de escolas de seis distritos do norte e centro do país, cerca de 25% dos jovens participantes, que mantinham àquela data um relacionamento íntimo, admitiu ter adotado um comportamento violento, pelo menos uma vez, com o seu parceiro/a, enquanto cerca de 22,5% admitiu ter sido vítima de agressão do parceiro/a.

Assim, no âmbito da comemoração do Dia de S. Valentim, a nossa biblioteca recebeu a visita de dois agentes da PSP, que vieram dinamizar uma ação subordinada ao tema  Quem te ama, não te agride!


Foram identificados comportamentos  incorretos, foram referidos os direitos das vítimas , assim como as diversas organizações às quais se pode recorrer em caso de necessidade. No entanto, a mensagem fundamental apelou à consciencialização da importância da denúncia e à desmistificação da reserva da vida privada no que a estes crimes diz respeito. 

De salientar a atenção e participação ordenada dos nossos alunos, o que permitiu concluir que o tema não só foi muito pertinente, como dele terão decorrido aprendizagens que, desejamos, surtam efeitos na desejável mudança de mentalidades. 




sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019



DIA DA LEITURA EM VOZ ALTA



Com o objetivo de implemetar o Referencial Aprender com a 

Biblioteca Escolar e promover a leitura expressiva,  

Professora Isabel Barbosa celebrou o Dia da Leitura em 

Voz Alta. 

Com base no livro O 10 magnífico, de Anna Cerasoli,  foi 

analisado e lido o primeiro capítulo sobre a história dos 

números naturais. 



segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

A palavra e o mundo - Carta ao futuro (II)


O que era o País e o mundo em 1957? À exceção de Sophia e de Jorge de Sena, o País era na década seguinte ao fim da 2ª Grande Guerra a manipulação cinzenta de uma fantasia de crianças. Ficaria a sê-lo por muitas outras ainda. O Mundo após o terror alemão conduzido pelos nazis emergia no que alguns consideravam o homem novo, os amanhãs que cantariam. Outros se encantariam por essa infantilidade de nenhuma substância.

Em fins da década de cinquenta o País e o mundo eram a mais profunda sonolência, uma anestesia de vontade por algo que significasse decência e humanidade. É desse ano que Vergílio Ferreira escreve um livro que devia figurar nas estantes de qualquer pessoa com intenções de compreender a vida e ter nela um papel substantivo. Justamente, Carta ao futuro.

Vergílio tornou-se mais conhecido. Um pouco mais. Não muito mais. Pois ainda é possível ouvir doutores da formalidade invocar a sabedoria de sebentas, onde palavras comuns desenham gramáticas de compreensão pouco empenhadas nesse sentido que  foi a sua escrita. A da justamente invocar a nossa verdade emotiva, aquela que nos faz apreender o mundo, por cima de códigos ideológicos, ou de confissões do nada. Vale a pena lê-lo. Ele foi um percursor da substância que mora em nós, um leitor da brevidade e da magia de estar vivo.

Muitas vezes desdobramos palavras de quem gostamos ou que nos dizem algo pela sua relevância curricular, pela sua ligação a um património cultural e civilizacional. Com Vergílio Ferreira arendemos palavras, ideias, formas de pensar a vida e a existência. Aprendemos formas de pensar possibilidades de criar no real a nossa própria forma de sermos humanos. Vergílio é um homem essencial não só da cultura portuguesa e europeia do século XX , mas de muitos mais.

Com Vergílio Ferreira aprendemos a difícil ética de sermos humanos, compreendemos a necessidade absoluta de olhar o mundo através de um sentimento estético, que apenas a arte nos permite obter. Com Vergílio percebemos que a leitura do mundo faz-se pela nossa emotividade, a quilo que nos faz ter sentido, "a verdade humana" que nos orienta. É no nosso diálogo com uma dimensão estética da vida que o mais essencial de nós se afirma. É uma grande lição dada quando muitos gritavam revoluções e impérios universais. Obrigado amigo!

A palavra e o mundo - Carta ao futuro (I)


O sentimento estético da vida não é exclusivo das obras de arte. Nós o sabemos das horas silenciosas em que a sua face se adivinha e não há ainda uma obra de arte a traduzi-la. a integrá-la numa manifestação. Assim nos não é possível imaginar um mundo sem arte, por mais que admitamos o esgotamento das formas que herdámos, por mais que admitamos que a arte terá de ser inventada de novo através de formas que mal ainda vislumbramos. 
Mas ainda que fosse possível imaginar um mundo sem arte, sem obras que o exprimissem, jamais seria imaginável um mundo estendido fora do sentimento estético, fora da qualidade emotiva que no-lo explica à nossa relação humana com ele.
Porque é dentro da emotividade que o mundo tem sentido, e a verdade humana, e a orientação fundamental de tudo o que nos orienta. Porque o sentimento estético é uma comunicação original com a essencialidade da vida - como esta que se abre na voz obscura da chuva que dura ainda.
Eu a ouço, eu a ouço, desde os confins da memória, balançando na rua a solidão dos espaços. Eu a escuto na vidraça como um apelo clandestino para um encontro de outrora. Que a água de pureza que te trespasse, e seja tu, rememore a água obscura do nosso horizonte - e a vida se continuará, una, indestrutível, igual e sem margens, como é igual na sua total presença, a vertigem da noite e a iluminação do dia.


Saúde, amigo.


 Vergílio Ferreira. (2010). Carta ao Futuro. Lisboa; Quetzal, pgs. 101 e 102