quinta-feira, 19 de julho de 2018
sexta-feira, 6 de julho de 2018
quarta-feira, 13 de junho de 2018
Memória de Pessoa
"Ainda assim sou
alguém. /Sou o Descobridor da Natureza (...)
Trago ao Universo um
novo Universo / Porque trago ao Universo ele-próprio."
(Alberto Caeiro,
"XLVI", Poesias - Heterónimos)
O apelido de Pessoa remete-nos para
o teatro grego, as máscaras com que cada um pode enfrentar as dificuldades, os
perigos, os desastres que envolvem a sociedade humana e que persistem acima de
nós. Pessoa transporta-nos para essa noção de diversidade, de multiplicidade do
individual. O poeta de que aqui falamos é uma figura marcante da cultura
europeia e mundial. Representa a procura para num mundo colectivo, exprimir a
voz do indivíduo, do seu olhar e das suas possibilidades. Pessoa foi
influenciado por um conjunto de circunstâncias, as suas, a do seu tempo, que
lhe criou um ambiente histórico onde já se determinavam as dificuldades do
Portugal Contemporâneo.
A saber, O Ultimatum inglês, a
decadência da monarquia, as dificuldades de afirmação da República, a
instabilidade política e social, os acontecimentos trágicos à volta de Sidónio
Pais. A confirmação de um regime onde a dignidade do ser não existia
assegurou-lhe um Portugal cinzento, sem visão, nem futuro. Pessoa soube criar
uma poética que respondia à multiplicidade individual, oferendo-nos a dimensão
moderna, universal do homem como medida de realização de um todo. Afinal o que
pode ser a vida? Neste caminho em contínua aprendizagem que dimensão nos pode
transportar para uma felicidade mais próxima da respiração de cada um? Um
trajecto baseado em sensações, nas percepções que por si nos dão a
materialidade do mundo, como em Alberto Caeiro, ou o modernismo tecnológico do
mundo de Álvaro Campos, ou os constantes valores culturais da memória de Ricardo
Reis?
Afinal não são os heterónimos
diferentes possibilidades de olhar para a afirmação do género humano nessa
aventura que é viver? Em todo este complexo modo de ser, Pessoa afirmou-nos que
é pela força das ideias que o País poderá ter a sua única possibilidade de se
afirmar no mundo desenvolvido. A Mensagem, mais do que um relato de feitos do
passado transporta-nos para essa ideia de um Quinto Império em que Portugal
para ser autónomo, diferente, melhor, só o pode concretizar se for autêntico,
se souber assumir a sua verdadeira dimensão. Pessoa afirmou-se modernista pela
sua tentativa de transformar o futuro do País pelas ideias, pela arte, pela
cultura, no sentido de cada indivíduo poder participar na construção de uma
comunidade. Quantos que governaram este País, inclusive no presente, se
esqueceram deste simples princípio?
Pessoa é um criador universal,
porque soube criar as diversas possibilidades do indivíduo, a sua
multiplicidade onde se encontram inscritos, os valores humanos. Afinal o que
poderemos ser em cada dia, reconstruindo o futuro quotidianamente, é uma das
suas grandes ideias. Partindo de uma experiência individual, as suas palavras
reforçam a nossa humanidade, como valor universal. Só os homens geniais
conseguem acima da espuma dos dias, verificar o movimento mais profundo e
compreender como poderemos ser mais dignos como País, nas palavras de Almada.
Existir é pouco para uma dimensão mais consciente da vida. A genialidade de
Pessoa é essa. A de revelar a necessidade de quebrar a incerteza que reina
nestas praias em sucessivas gerações. Mariano Deida afirmou há alguns anos, que
o poeta de autopsicografia inventou a própria literatura, no sentido não de ter
criado palavras novas, mas de nos revelar dimensões novas ao sentido humano.
sexta-feira, 1 de junho de 2018
Dia mundial da criança
Em louvor das crianças
Se há na terra um reino que nos seja
familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente
sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é
expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados - a
tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie mítica é habitada por
seres de uma tão grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e
foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o
Paraíso.
A sedução das crianças provém, antes
de mais, da sua proximidade com os animais . a sua relação com o mundo não é da
utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da
alma, que são, como disse Saint-Exupéry, o dinheiro e a vaidade. Estas frágeis
criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as
mais vulneráveis - elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão
sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta,
não diminui nem se extingue.
O sofrimento de uma criança é de uma
ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação
da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que
isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos. O simples facto de
consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam de fome, e reguem com as
suas lágrimas a terra onde terão de lutar um dia pela justiça e pela liberdade,
prova bem que não somos filhos de Deus.
Eugénio de Andrade, in Rosto
Precário
quarta-feira, 30 de maio de 2018
Bioética - os seus campos de decisão
A civilização moderna encontra-se
numa posição difícil, porque embora edificada para nós, não está ajustada à
nossa medida. A nossa ideia de homem ainda não encontrou o seu lugar estranho e
complexo, ela oscila entre a visão filosófica, que o erige no único sujeito num
mundo de objetos, e a visão científica que tende a ignorar o espírito humano.
Ainda não ajustámos a nossa visão do Homem ao Homem e do mundo ao mundo.
Recordamos aqui a célebre alegoria da
caverna. As sombras projetadas no fundo da caverna são o mundo natural, aquele
que percecionamos. Esses prisioneiros agrilhoados no seu lugar e aos quais uma
gargantilha impede de voltar a cabeça “é connosco que se assemelham”. A
fascinação que o jogo irrisório das silhuetas imprecisas exerce sobre esses
infelizes revela o nosso estado, sentimo-nos perdidos: o meio elaborado pelo
Homem não se ajusta à nossa estatura, nem à nossa natureza. Assim
poder-nos-emos questionar se o Prometeu revestido pelo poder, desagrilhoado, na
opinião de alguns, ou seja com o poder de intervir, de praticar o possível e
mesmo o impossível, não o vai voltar a agrilhoar, se ele não olhar ao
conveniente.
Vivemos num presente esmagado pelo peso do
futuro. A nossa relação com o tempo é, antes do mais, uma relação extremamente
dura e violenta com o futuro. Fala-se do futuro mas, paradoxalmente, nunca
fomos tão responsabilizados pelo futuro que devemos deixar às gerações
seguintes. Deveríamos, portanto, mudar radicalmente de atitude e romper com
todo o tipo de utopismo. Quer o aceitemos ou não, estamos investidos de uma
responsabilidade desconhecida, a de deixarmos às gerações futuras uma terra
habitável e um mundo sustentável. Sem isto, os nossos descendentes não serão
capazes de progredir, nem exercer as suas responsabilidades.
Necessitamos de uma reabilitação do ethos,
dos valores morais que fundamentam as atitudes humanas; precisamos da ética, de
teorias filosóficas sobre os valores e normas que devem nortear as nossas
decisões e comportamentos. A atual crise deve ser entendida como uma
oportunidade; importa encontrar uma resposta para os desafios do presente. Se o
futuro não está escrito, é múltiplo. Assim todas as possibilidades, mesmo o impossível,
são imagináveis. A questão da escolha é portanto essencial.
A Bioética, ética aplicada às ciências da
vida, surge na interseção de uma crise de valores e de normas coletivas com o
desenvolvimento do individualismo das pessoas e do pluralismo das sociedades.
Estimula o debate público sobre as escolhas para o nosso futuro, promovendo uma
alteração de consciência, incentivando a participação informada e responsável
dos cidadãos. Como ciência transdisciplinar, começa a ser reconhecida como a
componente indispensável da formação do cidadão empenhado na vida coletiva,
tornando-se numa ética do cidadão, numa ética cívica, enquanto reflexão sobre a
ação que se desencadeia, desenrola e se repercute na comunidade global. Tal
como defende Victoria Camps (1998), a participação cívica deve ser encarada
como a estrutura moral da democracia, onde a ética contribui de um modo
determinante para a formação de uma consciência de deveres inerente à formação
de direitos, o que faz com que funcione como um elemento de ponderação na
educação para a cidadania.
É justamente pela sua especificidade que a
Bioética, quando considerada sob o ponto de vista da educação para a
deliberação, constitui uma oportunidade excecional para o desenvolvimento de
competências reflexivas, críticas, de base plural e democrática. Ao mesmo
tempo, permite desenvolver a consciência da responsabilidade e da necessidade
da deliberação para a decisão, reconhecendo a posição do outro sem
(pré)-conceitos, pressuposto indispensável para um qualquer debate ético.
Ana Sofia Carvalho, "A Bioética
e a responsabilidade de deliberar para decidir", Observatório da Cultura,
nº 21, in http://www.snpcultura.org/
terça-feira, 29 de maio de 2018
O livro e o leitor (X)
Um
leitor por dia - celebrar os momentos íntimos da leitura!
Um livro,
o que pensa de nós, os leitores? Que emoção terá nesse processo que é uma suporte e
uma experiência contínuas?
Não é fácil ser um livro. (...)
Poderia dizer, com
toda a justificação, que somos uma espécie ameaçada - à beira da extinção, na
verdade. E, se tal acontecesse, seria uma perda incalculável porque não somos
uma espécie comum. A destruição de um qualquer género e, claro está lamentável,
mesmo que não passe de um raminho absolutamente irrelevante do tronco maciço da
evolução um qualquer beco sem saída. Mas quando uma das únicas formas de vida
inteligente que alguma vez pisaram este mundo se vê confrontada com o
desaparecimento, trata-se de uma verdadeira catástrofe evolutiva.
Ninguém com um
mínimo de inteligência pode negar que, além da humanidade, nós os livros, somos
os únicos seres inteligentes à face da terra. De facto, uma análise imparcial
concluiria certamente que, de uma maneira geral, a nossa reivindicação é a mais
correcta. Para começar, embora estejamos simbioticamente unidos aos humanos,
poderíamos, em última instância, viver sem eles. Para que é precisamos deles,
exactamente?
Para nos lerem?
Trata-se de uma atividade recreativa que os beneficia apenas a eles, não a nós,
de todo. Enquanto atividade física só nos causa danos - vários tipos de danos.
E poderiam eles
passar sem nós? Deus nos livre! Sem livros, qual seria a condição da raça
humana? Continuariam a arrastar-se no mesmo estado, primitivo e miserável, em
que os encontrámos quando aparecemos, há cinco mil anos: uma espécie conhecida
pela sua capacidade de esquecer mais rapidamente as coisas do que as memorizar.
Não estivéssemos nós à mão para oferecer a nossa abnegada ajuda na tarefa de
memorização, não tivéssemos nós memorizado em seu nome, estes pobres seres não
teriam qualquer história.
Teriam esquecido praticamente tudo. E
como poderia alguém apresentar-se como um indivíduo inteligente, se não
recordasse o seu próprio passado, incluindo o passado recente? Ao contrário dos
seres humanos, contudo, nunca esquecemos nada. Quando aprendemos algo, esse
algo permanece connosco para sempre, inexpugnável. (...) Então quem é superior?
O atirador de paus e pedras, talvez?
Mas isso não é tudo.
Os humanos não são apenas esquecidos, são também pessoas de breve e fraca
concentração. Em suma: as suas mentes dispersam-se. Na maior parte das
situações não pensam, de todo; quando o fazem, teria sido melhor se não o
houvessem feito. Para a maioria das pessoas, a vida passa sem que uma ideia
brilhante - ou mesmo inteligente - lhes atravesse a mente.
No caso dos raros indivíduos que são capazes de encarrilar, mais ou menos, as suas ideias, os seus preciosos pensamentos depressa ganhariam asas e voariam para longe, se não no-los confiassem para que os guardássemos.
No caso dos raros indivíduos que são capazes de encarrilar, mais ou menos, as suas ideias, os seus preciosos pensamentos depressa ganhariam asas e voariam para longe, se não no-los confiassem para que os guardássemos.
Somos, agora, o
repositório de que tudo o que o seu circo de cem mil milhões de palhaços - que
é mais ou menos o número que por aqui passou desde que desceram das árvores -
conseguiu alinhavar com grande custo, tanto em trabalho como em dor. Se alguma
vez decidíssemos negar-lhes acesso a esse armazém de conhecimento, teriam de
começar tudo do zero. (...) Torna-se, assim, claro que é do interesse das
pessoas não colocar os livros em perigo. Pelo contrário, deveriam cuidar de
nós; deveriam proteger-nos e defender-nos, pois nunca lhes fizemos outra coisa
a não ser o bem. Somos o seu parceiro simbiótico: damos prodigamente e quase
nada pedimos em troca.
Zoran Živković. (2016). O Livro.
Lisboa: Cavalo de Ferro.
Uma obra de arte por semana (X)
Uma obra de arte por dia -
Interpretar o real, reconstruir o mundo!
O enigma de um olhar, o
tempo suspenso e um instante em representação, algumas das vertentes com que a
História de Arte costuma designar o século de ouro da pintura holandesa. Dessa
iconografia do quotidiano, de um amor vivo nas tarefas diárias, de um espaço de
intimidade, chegamos também às figuras solitárias dessa pintura.
Nesta pintura as
figuras, as pessoas estão sós e definem-se pelas suas tarefas, pelas suas
atitudes nos espaços e apenas por si. Não existe necessidade de cada uma das
figuras se preencher num outro. Nesta pintura cada figura constrói-se
inteiramente pelo que realiza sozinha, com a sua postura física. Nela vemos as
emoções desvendadas em pequenos gestos, os cabelos em caracóis pendentes sobre
o peito, as linhas do vestuário envolvendo corpos, definindo atmosferas, ou a
guitarra que em precisos movimentos parece evidenciar um som. Como nos
surpreendemos, com a elegância das formas de um corpo que se expande num
espelho, ou os gestos de uma pequena boca semi-aberta, ou um sorriso que se
estende num cumprimento.
A pintura holandesa do
século XVII é feita da apresentação de figuras, de fisionomias que adivinham
formas de enredos familiares e sociais. A carta que se escreve, o olhar fixo
num sentimento, um pequeno drama que se apresenta, como uma saudade, ou uma
inquietação. E depois, sobretudo com Vermeer é a luz que nos
chama, que nos encanta, como forma de comunicação a uma representação.
Vermeer pintou um conjunto de quadros onde notamos nenhum artificialismo da
luz. Esta apresenta-se precisa e muito idêntica como a vemos na natureza, tal
"como um físico escrupuloso a poderia desejar" (1). Há uma
apresentação de raios de luz que se expandem de uma ponta à outra do quadro,
pois a luz parece emergir da própria pintura. O espetador surge neste olhar
como uma testemunha de um momento, de uma vontade e de um tempo
quotidiano.
(1) Theóphile Thoré Alias W. Bürger, "Van der Meer
Delft", in Gazette des Beaux Artes, XXI, 1866.
imagem - Detalhe de A
Carta, 1670, National Gallery of Ireland, Dublin.
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