“A minha geração dos anos 60, com todos os seus grandes ideais,
destruiu o liberalismo devido aos nossos excessos”. (1)
Passam
cinquenta anos sobre o Maio de 68 e não sendo ainda um tempo muito longo, já é
possível ver esse movimento e a evolução que produziu na sociedade nos anos
seguintes. O Maio de 68 foi o maior movimento social do século passado, embora
tivesse em si impossibilidades maiores que os seus próprios ideais.
Herdeira de uma geração
reformista, a que saiu dos escombros da segunda grande guerra, os jovens dessa
década tinham conhecido um mundo melhor, quer em serviços de saúde, quer no
acesso ao ensino superior, quer nas possibilidades de mobilidade social. O
reformismo a seguir à guerra foi considerado ineficaz e toda a ação deveria
virar-se para uma expressão individual da liberdade de cada um.
A revolta iniciada pelos jovens e que
culminaria com a eleição dos elementos que mantinham o regime nas suas linhas
conservadoras, De Gaulle em França e Nixon nos Estados Unidos reduzia-se a
espaços urbanos. A televisão e a rádio difundiram uma iconografia que se
reproduzia na linguagem, no vestuário e nos comportamentos. No final da década
a distância dos jovens aos seus pais talvez fosse maior do que em qualquer
outro momento da sociedade contemporânea. Na geração anterior a correspondência
socialismo – trabalhadores e pobreza - Estado interventivo parecia ser
aceitável.
O que uniu a revolta de trabalhadores e estudantes nas ruas de Paris, ou nas avenidas de Washington era a tentativa para diminuir controlos que pareciam ser muito intrusivos na vida de cada um. A justiça social era uma afirmação individual de liberdade. No final dos anos sessenta não é o interesse geral que move a revolta, mas sim a liberdade individual, o desejo de autonomia de cada um na vida. E isso foi a curto prazo uma das divisas da esquerda. O que saiu dos anos sessenta foi o brilho de uma possibilidade, mas também um conjunto de “reivindicações individuais”. O que estas reivindicações iriam provocar foi a decadência de uma atitude partilhada de sociedade. O que significa que nasceu um individualismo que já não trabalhava sobre o interesse coletivo, nem sobre os valores da autoridade, como ela era vista em décadas anteriores.
A sociedade europeia no início
dos anos setenta vivia uma admiração pelos movimentos maoistas e lutava pelo
individualismo privado de cada um. Os anos seguintes provariam amargamente que
o marxismo era um ilusório território de união, onde os valores da esquerda
naufragaram e deixaram de ser comuns. Os protestos contra a guerra do Vietname
era mais uma expressão do desconforto individual, de uma doença de sociedade
industrial e não era a expressão de um sentir coletivo. A direita que emergiu
nas décadas seguintes já não nos falaria de como superar o que no sistema não
funcionava, mas sim proponha outro sistema. A indústria “de serviços
financeiros” criaria os novos santos, os banqueiros e a sua admiração pelo
poder político. Os fossos sociais cresceram, a especulação de negócios entre
público e privado deram origem a uma nova sociedade, aquela em que vivemos. O
seu sucesso deriva de uma amnésia de participação cívica, do esgotamento do
valor da cidadania por diferentes instituições que eram o seu suporte e nela encontramos a velha preocupação de Keynes, “os homens
práticos, que se acreditam livres de quaisquer influências intelectuais, são
geralmente escravos de algum economista defunto.”
O Maio de 68 tendo tido uma ideia de
libertação conduziu a alguns progressos no campo da emancipação da mulher e dos
direitos individuais, mas não teve no Portugal da época qualquer relevância.
Seria no após 25 de Abril que algumas das suas questões seriam levantadas. O
estado de felicidade do País é como facilmente se percebe a imitação de um modo
de sociedade, onde estão esquecidas as abordagens éticas ou a simples
consideração de objetivos sociais e culturais mais vivos. Isso diz muito de
como a revolta dos estudantes acabou por conduzir a uma sociedade de silêncio
nos seus valores sociais e de profunda desigualdade. A instável democracia é o
produto de uma divisão profunda das pessoas, separadas pelo dinheiro, pela
religião, pelo jogo social. A regressão como valor de Humanidade é evidente
todos os dias.
(1) Tony Judt. (2010). Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos. Lx:
Quetzal.