"A beleza é o rosto
mais jubiloso da verdade. Não da própria verdade, mas do seu rosto". (1)
Os dias são muitas vezes tão
sucessivamente rápidos que muitas memórias nos escapam. O tempo torna-se
reduzido para inscrever no íntimo tantas vozes que tentaram connosco dar aos
dias uma cor própria, um sentido vivido de consistência e beleza. Manuel António Pina desapareceu fisicamente a dezanove de outubro de dois mil e doze. É uma
voz que vale a pena recuperar. Pela poesia, pelas crónicas, que nele eram uma
arte de desmontar o essencial e pela prosa. Aqui deixaremos neste mês algumas lembranças e memórias.
Manuel António Pina foi um homem que
buscou nas palavras uma tentativa de fazer compreender a nossa natureza
efémera. Foi daqueles que vindo das terras do Mondego, dos contrafortes da
Estrela se fez e se encontrou na cidade do Porto. Aqui encontrou formas de desenhar na
natureza e na paisagem o seu caminho de combustão de sonhos, no veludo
das encostas de granito.
Manuel António Pina tinha
uma paixão pelo Winnie the Pooh. Olhava para a literatura infantil como a
possibilidade de reencontrar o olhar inicial, o que está pronto para a
linguagem do mundo, ainda sem o conhecer. Revelou uma curiosidade para
traçar pela poesia as grandes questões filosóficas de sempre inerentes
à natureza humana e descobriu na solidão a possibilidade de erguer sonhos.
Refletiu sobre a
sociedade em que viveu com liberdade, com inteligência e com criatividade.
Deu-nos no JN um conjunto de crónicas sobre esse real que se sonha e, que não se
compreende pela ausência de uma real cidadania. Desse real, em que instituições
e media, precariamente percebem o significado do velho ideal grego, "Libertas,
Humanitas, Felicitas".
Foi um
cronista que ousou utilizar as palavras para discutir "as
verdades" que o establishent político gosta de enumerar como os pilares do
universo, por onde interesses privados se alimentam da destruição mais
básica dos valores de dignidade de tantos. Manuel António Pina foi um
prosador e com as palavras procurou exercer a liberdade que nos falta, a que
tem uma dimensão moral.
E foi um poeta. Um poeta
que nos descreveu como nos orientamos com os mitos, como respiramos o real,
entre os lugares e as suas sombras, por onde tentamos reconhecer os gestos.
Nunca nos recompomos da partida dos poetas, pois o timbre da voz é
irrecuperável, mesmo que a memória e as palavras queiram colaborar nessa luta à
partida perdida, de guardar o sorriso no templo desse "dragão feroz"
(2) que é o próprio tempo.
(1) Entrevista
a António Manuel Pina, in Jornal i,
18/02/21012
(2) Ana
Maria Matute, Paraíso Inabitado