terça-feira, 8 de maio de 2018

Com Manuel António Pina... (I)


"A beleza é o rosto mais jubiloso da verdade. Não da própria verdade, mas do seu rosto". (1)

Os dias são muitas vezes tão sucessivamente rápidos que muitas memórias nos escapam. O tempo torna-se reduzido para inscrever no íntimo tantas vozes que tentaram connosco dar aos dias uma cor própria, um sentido vivido de consistência e beleza. Manuel António Pina desapareceu fisicamente a dezanove de outubro de dois mil e doze. É uma voz que vale a pena recuperar. Pela poesia, pelas crónicas, que nele eram uma arte de desmontar o essencial e pela prosa. Aqui deixaremos neste mês algumas lembranças e memórias.

Manuel António Pina foi um homem que buscou nas palavras uma tentativa de fazer compreender a nossa natureza efémera. Foi daqueles que vindo das terras do Mondego, dos contrafortes da Estrela se fez e se encontrou na cidade do Porto. Aqui encontrou formas de desenhar na natureza e na paisagem o seu caminho de combustão de sonhos, no veludo das encostas de granito.

Manuel António Pina tinha uma paixão pelo Winnie the Pooh. Olhava para a literatura infantil como a possibilidade de reencontrar o olhar inicial, o que está pronto para a linguagem do mundo, ainda sem o conhecer. Revelou uma curiosidade para traçar pela poesia as grandes questões filosóficas de sempre inerentes à natureza humana e descobriu na solidão a possibilidade de erguer sonhos.

Refletiu sobre a sociedade em que viveu com liberdade, com inteligência e com criatividade. Deu-nos no JN um conjunto de crónicas sobre esse real que se sonha e, que não se compreende pela ausência de uma real cidadania. Desse real, em que instituições e media, precariamente percebem o significado do velho ideal grego, "Libertas, Humanitas, Felicitas". 

Foi um cronista que ousou utilizar as palavras para discutir "as verdades" que o establishent político gosta de enumerar como os pilares do universo, por onde interesses privados se alimentam da destruição mais básica dos valores de dignidade de tantos. Manuel António Pina foi um prosador e com as palavras procurou exercer a liberdade que nos falta, a que tem uma dimensão moral.

E foi um poeta. Um poeta que nos descreveu como nos orientamos com os mitos, como respiramos o real, entre os lugares e as suas sombras, por onde tentamos reconhecer os gestos. Nunca nos recompomos da partida dos poetas, pois o timbre da voz é irrecuperável, mesmo que a memória e as palavras queiram colaborar nessa luta à partida perdida, de guardar o sorriso no templo desse "dragão feroz" (2) que é o próprio tempo.

(1) Entrevista a António Manuel Pina, in Jornal i, 18/02/21012 
(2) Ana Maria MatuteParaíso Inabitado 


sexta-feira, 4 de maio de 2018

O livro e o leitor (VIII)

                Um leitor por dia - celebrar os momentos íntimos da leitura!
"Ao longo do tempo, a nossa memória vai formando uma biblioteca díspar, feita de livros, ou de páginas, cuja leitura foi uma felicidade para nós e gostaríamos de partilhar. (…) Que outros se gabem dos livros que lhes foi dado escrever; eu gabo-me daqueles que me foi dado ler, disse eu uma vez. Não sei se sou um bom escritor.Penso ser um excelente leitor ou, em todo o caso, um sensível e agradecido leitor. Desejo que esta biblioteca seja tão diversa como a não saciada curiosidade que me induziu, e continua a induzir-me, à exploração de tantas linguagens e de tantas literaturas. É com eles, com os textos que percorreremos as galerias e os palácios da memória, como escreveu Santo Agostinho".

Jorge Luís Borges. (2016). Biblioteca Pessoal. Lisboa: Quetzal.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Uma obra de arte por semana (VIII)

                  Uma obra de arte por dia - Interpretar o real, reconstruir o mundo!
Carl Vinnen foi um pintor das últimas décadas do século XIX e primeiros anos do século XX. Em 1900 a norte de Bremen, em Worpswede formou-se uma comunidade artística que juntou diversos artistas que se dedicaram à representação da paisagem. 

Rilke participou nessa comunidade refletindo sobre o papel da paisagem como representação do enigma que se apresenta o Homem, na sua vivência entre o tempo e o natural. Esta comunidade procurou apreender os momentos da paisagem, a sua luz que a cada instante mudava. Procuraram integrar o humano na paisagem de modo a construir um todo, um modo de ver o Aberto, essa noção de que Rilke falava, como o enigma a compreender, entre o que se vê e a construção do silêncio, elemento fundamental para encontrar as palavras essenciais da nossa humanidade. Foi no regresso da Rússia e da sua viagem com Lou Andreas-Salomé que encontrou nas paisagens planas e pantanosas do norte da Alemanha os motivos para pensar o mistério das coisas. Os pintores de Worpswede dedicaram-se a uma expressão que abriria os campos da arte em emergência, o Simbolismo e a Arte Nova. Os quadros aí elaborados procuravam uma forma de verosimilhança das coisas e da sua representação. Carl Vinnen foi um dos artistas ligado a essa comunidade artística de Worpswede.

Fonte: Rainer Maria Rilke. (2016). Viagem singular a Worspede. Sintra: Feitoria dos Livros.
Imagem – Carl Vinnen, Caminho para o Pântano, 1900 

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Um poema por semana (VIII)

                  Um poema por dia - a imaginação para iluminar ou compreender o real!
Um poema por dia - a imaginação para iluminar ou compreender o real!:
O homem é uma realidade religiosa. O problema é que essa referência possa aparecer como objeto, como se Deus fosse manipulador ou manipulável. Uma espécie de ser mágico de que todas as coisas dependem. Outra coisa é ser algo de que o homem se serve para dominar. A maioria das religiões são máscaras dessa vontade de poder, de dominar os outros, de os subordinar, de os humilhar. Aquilo que é o seu impulso mais puro, libertador, transforma-se no seu contrário. O que o cristianismo trouxe foi que Deus não é poder. É o não-poder. Mas não foi assim que a coisa foi traduzida.
Eduardo Lourenço, Expresso, 23.12.2011
Imagem: copyright – Marco Tagliarino

terça-feira, 1 de maio de 2018

No mês de maio...

No mês de maio que é o mês da liberdade
no mês de maio que é o mês dos namorados


Amanhã não estaremos já neste lugar
amanhã a cidade já não terá o teu rosto
e a canção não virá cheia de ti
escrever em cada árvore o teu nome verde.

Amanhã outros passarão onde passámos
farão os mesmos gestos dirão as mesmas palavras
dirão um nome baixo um nome loucamente
como quem sobre a morte é por instantes eterno.

Amanhã a cidade terá outro rosto.
Nós não estaremos cá. Mas a cidade
já não será contra o amor amanhã quando
os amantes passarem na cidade livre.

Nós não estaremos cá. Voltaremos em Maio
quando a cidade se vestir de namorados
e a liberdade for o rosto da cidade nós
que também fomos jovens e por ela e por eles

amámos e lutámos e morremos
nós voltaremos meu amor nós voltaremos sempre
no mês de Maio que é o mês da liberdade
no mês de Maio que é o mês dos namorados. 

 Manuel Alegre, "Nós voltaremos sempre em Maio"
Imagem, in http://takaclip.tumblr.com/ 

quinta-feira, 26 de abril de 2018



BIBLIOTECA, DIA 26 DE ABRIL, 10:20
Comemoração do 25 de abril com
MARIA JOSE RIBEIRO

Nascida em Lisboa, em 1936, veio viver para o Porto com 18 anos.
Aqui cresceu como Mulher e Cidadã, trabalhou e estudou.
Aos 22 anos de idade, integrou a Comissão de Jovens de apoio à candidatura do General Humberto Delgado às eleições presidenciais de 1958.
Meses depois, com 23 anos, como consequência dessa intervenção, foi presa pela PIDE. Julgada em Tribunal Plenário foi absolvida e saiu em liberdade em 1960. Viria a ser presa por mais duas vezes, em 1962 e 1964.
Desenvolveu actividade, a nível do Movimento de Mulheres, Sindical e Autárquico.
É dirigente da URAP – União de Resistentes Antifascistas Portugueses, cujo Núcleo do Porto integra.




terça-feira, 24 de abril de 2018

O livro e o leitor (VII)

Jack Kerouac foi o escritor da Beat Generation. Pela estrada fora deu-nos as formas imperfeitas e contraditórias de um mundo que saía da nossa rua e que se alargava a todo o planeta. Kerouac descobriu-o em viagens sucessivas, nessa ideia antes de todas as revoluções de algibeira, o caminho do caminho. Refugiou-se nas montanhas e nelas viu organismos vivos como os humanos e nelas encontrou uma espécie de eternidade dourada.

Descobriu que o mundo é um filme de imagens residuais de quem nunca viu senão sombras, uma caverna presa em imagens mentais, dogmas sem substância viva. O mistério, a beleza do mais simples, o silêncio que se alarga sobre a ilusão do mundo, eis o que importa encontrar e desfrutar. Kerouac mostrou-nos o prazer proibido das sociedades contemporâneas, “o amor ao próximo”, que ele traduziu como a gentileza, no encontro do estudo com o budismo. 

A gentileza como uma revolução interior, “o céu” que cada um pode realizar na Terra. Kerouac descobriu-o perante a contradição de uma religião de dois mil anos, onde o individualismo fez uma guerra por essa qualquer coisa que poucos sabem explicitar. A generosidade como demonstração de inferioridade, ou a amabilidade como comportamento pouco natural elegeu uma sociedade de escravos, com pouca valorização das causas sociais e da humanidade de cada um. The Portable Jack Kerouac (um excerto abaixo) é uma introdução a uma visão de sociedade e de humanidade centrada na delicadeza. Palavras dos velhos anos sessenta, desse pretérito-quase-perfeito. Ler é também isto, a criação das imagens , o silêncio mo interior da ilusão do próprio mundo.

The world you see is just a movie in your mind.
Rocks dont see it.
Bless and sit down.
Forgive and forget.
Practice kindness all day to everybody
and you will realize you’re already
in heaven now.
That’s the story.
That’s the message.
Nobody understands it,
nobody listens, they’re
all running around like chickens with heads cut
off. I will try to teach it but it will
be in vain, s’why I’ll
end up in a shack
praying and being
cool and singing
by my woodstove
making pancakes.