quinta-feira, 3 de maio de 2018

Uma obra de arte por semana (VIII)

                  Uma obra de arte por dia - Interpretar o real, reconstruir o mundo!
Carl Vinnen foi um pintor das últimas décadas do século XIX e primeiros anos do século XX. Em 1900 a norte de Bremen, em Worpswede formou-se uma comunidade artística que juntou diversos artistas que se dedicaram à representação da paisagem. 

Rilke participou nessa comunidade refletindo sobre o papel da paisagem como representação do enigma que se apresenta o Homem, na sua vivência entre o tempo e o natural. Esta comunidade procurou apreender os momentos da paisagem, a sua luz que a cada instante mudava. Procuraram integrar o humano na paisagem de modo a construir um todo, um modo de ver o Aberto, essa noção de que Rilke falava, como o enigma a compreender, entre o que se vê e a construção do silêncio, elemento fundamental para encontrar as palavras essenciais da nossa humanidade. Foi no regresso da Rússia e da sua viagem com Lou Andreas-Salomé que encontrou nas paisagens planas e pantanosas do norte da Alemanha os motivos para pensar o mistério das coisas. Os pintores de Worpswede dedicaram-se a uma expressão que abriria os campos da arte em emergência, o Simbolismo e a Arte Nova. Os quadros aí elaborados procuravam uma forma de verosimilhança das coisas e da sua representação. Carl Vinnen foi um dos artistas ligado a essa comunidade artística de Worpswede.

Fonte: Rainer Maria Rilke. (2016). Viagem singular a Worspede. Sintra: Feitoria dos Livros.
Imagem – Carl Vinnen, Caminho para o Pântano, 1900 

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Um poema por semana (VIII)

                  Um poema por dia - a imaginação para iluminar ou compreender o real!
Um poema por dia - a imaginação para iluminar ou compreender o real!:
O homem é uma realidade religiosa. O problema é que essa referência possa aparecer como objeto, como se Deus fosse manipulador ou manipulável. Uma espécie de ser mágico de que todas as coisas dependem. Outra coisa é ser algo de que o homem se serve para dominar. A maioria das religiões são máscaras dessa vontade de poder, de dominar os outros, de os subordinar, de os humilhar. Aquilo que é o seu impulso mais puro, libertador, transforma-se no seu contrário. O que o cristianismo trouxe foi que Deus não é poder. É o não-poder. Mas não foi assim que a coisa foi traduzida.
Eduardo Lourenço, Expresso, 23.12.2011
Imagem: copyright – Marco Tagliarino

terça-feira, 1 de maio de 2018

No mês de maio...

No mês de maio que é o mês da liberdade
no mês de maio que é o mês dos namorados


Amanhã não estaremos já neste lugar
amanhã a cidade já não terá o teu rosto
e a canção não virá cheia de ti
escrever em cada árvore o teu nome verde.

Amanhã outros passarão onde passámos
farão os mesmos gestos dirão as mesmas palavras
dirão um nome baixo um nome loucamente
como quem sobre a morte é por instantes eterno.

Amanhã a cidade terá outro rosto.
Nós não estaremos cá. Mas a cidade
já não será contra o amor amanhã quando
os amantes passarem na cidade livre.

Nós não estaremos cá. Voltaremos em Maio
quando a cidade se vestir de namorados
e a liberdade for o rosto da cidade nós
que também fomos jovens e por ela e por eles

amámos e lutámos e morremos
nós voltaremos meu amor nós voltaremos sempre
no mês de Maio que é o mês da liberdade
no mês de Maio que é o mês dos namorados. 

 Manuel Alegre, "Nós voltaremos sempre em Maio"
Imagem, in http://takaclip.tumblr.com/ 

quinta-feira, 26 de abril de 2018



BIBLIOTECA, DIA 26 DE ABRIL, 10:20
Comemoração do 25 de abril com
MARIA JOSE RIBEIRO

Nascida em Lisboa, em 1936, veio viver para o Porto com 18 anos.
Aqui cresceu como Mulher e Cidadã, trabalhou e estudou.
Aos 22 anos de idade, integrou a Comissão de Jovens de apoio à candidatura do General Humberto Delgado às eleições presidenciais de 1958.
Meses depois, com 23 anos, como consequência dessa intervenção, foi presa pela PIDE. Julgada em Tribunal Plenário foi absolvida e saiu em liberdade em 1960. Viria a ser presa por mais duas vezes, em 1962 e 1964.
Desenvolveu actividade, a nível do Movimento de Mulheres, Sindical e Autárquico.
É dirigente da URAP – União de Resistentes Antifascistas Portugueses, cujo Núcleo do Porto integra.




terça-feira, 24 de abril de 2018

O livro e o leitor (VII)

Jack Kerouac foi o escritor da Beat Generation. Pela estrada fora deu-nos as formas imperfeitas e contraditórias de um mundo que saía da nossa rua e que se alargava a todo o planeta. Kerouac descobriu-o em viagens sucessivas, nessa ideia antes de todas as revoluções de algibeira, o caminho do caminho. Refugiou-se nas montanhas e nelas viu organismos vivos como os humanos e nelas encontrou uma espécie de eternidade dourada.

Descobriu que o mundo é um filme de imagens residuais de quem nunca viu senão sombras, uma caverna presa em imagens mentais, dogmas sem substância viva. O mistério, a beleza do mais simples, o silêncio que se alarga sobre a ilusão do mundo, eis o que importa encontrar e desfrutar. Kerouac mostrou-nos o prazer proibido das sociedades contemporâneas, “o amor ao próximo”, que ele traduziu como a gentileza, no encontro do estudo com o budismo. 

A gentileza como uma revolução interior, “o céu” que cada um pode realizar na Terra. Kerouac descobriu-o perante a contradição de uma religião de dois mil anos, onde o individualismo fez uma guerra por essa qualquer coisa que poucos sabem explicitar. A generosidade como demonstração de inferioridade, ou a amabilidade como comportamento pouco natural elegeu uma sociedade de escravos, com pouca valorização das causas sociais e da humanidade de cada um. The Portable Jack Kerouac (um excerto abaixo) é uma introdução a uma visão de sociedade e de humanidade centrada na delicadeza. Palavras dos velhos anos sessenta, desse pretérito-quase-perfeito. Ler é também isto, a criação das imagens , o silêncio mo interior da ilusão do próprio mundo.

The world you see is just a movie in your mind.
Rocks dont see it.
Bless and sit down.
Forgive and forget.
Practice kindness all day to everybody
and you will realize you’re already
in heaven now.
That’s the story.
That’s the message.
Nobody understands it,
nobody listens, they’re
all running around like chickens with heads cut
off. I will try to teach it but it will
be in vain, s’why I’ll
end up in a shack
praying and being
cool and singing
by my woodstove
making pancakes.

Uma obra de arte por semana (VII)

Uma obra de arte por dia - Interpretar o real!


A Imagem Irradiante parece-nos um foco de luz que ele próprio descreveu em palavras, essa iluminação da alma oculta. Amadeo foi mais que um pintor, foi uma figura fascinante que importa conhecer melhor, pela correspondência que deixou e que aqui se deixa um exemplo:
"Ontem falei no espelho, o que me sugere
hoje a ideia de falar na imagem.
Mas não é a imagem reflectida que
eu quero acentuar, é a imagem
irradiante, aquela que poderei
comparar ao disco do sol que ilumina e aquece.
A imagem do espelho
é aparente, exterior nunca
por ela pode decifrar um
só traço daquilo
a que eu chamo a minha
alma oculta.
Ao passo que a imagem
irradiante é a que como
o sol se infunde
para nos iluminar a tal
alma oculta".

Amadeo de Souza-Cardoso (2008). Catálogo Raisonné. Lisboa: Assírio& Alvim, p. 37
Pintura – Guitarra, Cera s/ tela, 35 x 29cm, c.1916
Doação de D. Lúcia de Souza-Cardoso

Um poema por semana (VII)

          Um poema por dia - a imaginação para iluminar ou compreender o real!

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
Sophia de Mello Breyner Andresen, “25 de Abril”, in O Nome das Coisas. Lisboa: Caminho.


Imagem -  Copyright: http://urbansketchers-portugal.blogspot.pt