quinta-feira, 26 de abril de 2018



BIBLIOTECA, DIA 26 DE ABRIL, 10:20
Comemoração do 25 de abril com
MARIA JOSE RIBEIRO

Nascida em Lisboa, em 1936, veio viver para o Porto com 18 anos.
Aqui cresceu como Mulher e Cidadã, trabalhou e estudou.
Aos 22 anos de idade, integrou a Comissão de Jovens de apoio à candidatura do General Humberto Delgado às eleições presidenciais de 1958.
Meses depois, com 23 anos, como consequência dessa intervenção, foi presa pela PIDE. Julgada em Tribunal Plenário foi absolvida e saiu em liberdade em 1960. Viria a ser presa por mais duas vezes, em 1962 e 1964.
Desenvolveu actividade, a nível do Movimento de Mulheres, Sindical e Autárquico.
É dirigente da URAP – União de Resistentes Antifascistas Portugueses, cujo Núcleo do Porto integra.




terça-feira, 24 de abril de 2018

O livro e o leitor (VII)

Jack Kerouac foi o escritor da Beat Generation. Pela estrada fora deu-nos as formas imperfeitas e contraditórias de um mundo que saía da nossa rua e que se alargava a todo o planeta. Kerouac descobriu-o em viagens sucessivas, nessa ideia antes de todas as revoluções de algibeira, o caminho do caminho. Refugiou-se nas montanhas e nelas viu organismos vivos como os humanos e nelas encontrou uma espécie de eternidade dourada.

Descobriu que o mundo é um filme de imagens residuais de quem nunca viu senão sombras, uma caverna presa em imagens mentais, dogmas sem substância viva. O mistério, a beleza do mais simples, o silêncio que se alarga sobre a ilusão do mundo, eis o que importa encontrar e desfrutar. Kerouac mostrou-nos o prazer proibido das sociedades contemporâneas, “o amor ao próximo”, que ele traduziu como a gentileza, no encontro do estudo com o budismo. 

A gentileza como uma revolução interior, “o céu” que cada um pode realizar na Terra. Kerouac descobriu-o perante a contradição de uma religião de dois mil anos, onde o individualismo fez uma guerra por essa qualquer coisa que poucos sabem explicitar. A generosidade como demonstração de inferioridade, ou a amabilidade como comportamento pouco natural elegeu uma sociedade de escravos, com pouca valorização das causas sociais e da humanidade de cada um. The Portable Jack Kerouac (um excerto abaixo) é uma introdução a uma visão de sociedade e de humanidade centrada na delicadeza. Palavras dos velhos anos sessenta, desse pretérito-quase-perfeito. Ler é também isto, a criação das imagens , o silêncio mo interior da ilusão do próprio mundo.

The world you see is just a movie in your mind.
Rocks dont see it.
Bless and sit down.
Forgive and forget.
Practice kindness all day to everybody
and you will realize you’re already
in heaven now.
That’s the story.
That’s the message.
Nobody understands it,
nobody listens, they’re
all running around like chickens with heads cut
off. I will try to teach it but it will
be in vain, s’why I’ll
end up in a shack
praying and being
cool and singing
by my woodstove
making pancakes.

Uma obra de arte por semana (VII)

Uma obra de arte por dia - Interpretar o real!


A Imagem Irradiante parece-nos um foco de luz que ele próprio descreveu em palavras, essa iluminação da alma oculta. Amadeo foi mais que um pintor, foi uma figura fascinante que importa conhecer melhor, pela correspondência que deixou e que aqui se deixa um exemplo:
"Ontem falei no espelho, o que me sugere
hoje a ideia de falar na imagem.
Mas não é a imagem reflectida que
eu quero acentuar, é a imagem
irradiante, aquela que poderei
comparar ao disco do sol que ilumina e aquece.
A imagem do espelho
é aparente, exterior nunca
por ela pode decifrar um
só traço daquilo
a que eu chamo a minha
alma oculta.
Ao passo que a imagem
irradiante é a que como
o sol se infunde
para nos iluminar a tal
alma oculta".

Amadeo de Souza-Cardoso (2008). Catálogo Raisonné. Lisboa: Assírio& Alvim, p. 37
Pintura – Guitarra, Cera s/ tela, 35 x 29cm, c.1916
Doação de D. Lúcia de Souza-Cardoso

Um poema por semana (VII)

          Um poema por dia - a imaginação para iluminar ou compreender o real!

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
Sophia de Mello Breyner Andresen, “25 de Abril”, in O Nome das Coisas. Lisboa: Caminho.


Imagem -  Copyright: http://urbansketchers-portugal.blogspot.pt

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Dia mundial do livro


O livro é um objeto único, raro por aquilo que nos dá. Ele é o único suporte de leitura que se basta a si próprio, pelo que só depende do leitor, do seu tempo privado, ao contrário da televisão, ou do cinema. O livro chama-nos, carece do nosso entusiasmo. Ler é assim, acima de tudo, o momento de construção de imagens, “o levantar a cabeça” imaginado, essas imagens que a leitura trouxe.

A leitura, a sua essência repousa na construção dessa reflexão, nesse tempo individual. A leitura isola o leitor, permite a imobilidade, instala o silêncio e concede-nos um processo de contra - movimento contra a cidade, o grupo, o barulho, o movimento, os outros, libertando-nos do tempo. Os livros são um dos objetos primordiais do que podemos chamar uma civilização.  

Com os livros guardamos a memória e as inquietações anteriores a nós, mas também neles descobrimos que eles nos fazem pensar melhor, afinal que podemos evoluir como pessoas, como sociedade. É na leitura que nos descobrimos, que verificamos os valores que nos conduzem, as formas de encontro que conseguimos estabelecer com os outros.

Os livros que lemos dizem muito das pessoas que conseguimos ser, dos conhecimentos que multiplicamos nas ideias que apreendemos e da perceção que temos do mundo e de nós próprios. Os livros emergem com as palavras, ao nomeá-las, estamos a dar-lhes a substância de existirem, mesmo que se refiram ao que não temos, mesmo que sejam os sonhos antes dos sonhos, a respiração de ver o que se ama. Os livros e a leitura confirmam essa possibilidade maior de aceitarmos em partilha as vozes que nos chamam para o reconhecimento múltiplo da humanidade.  

Os livros são elementos de um ritual de silêncio e descoberta, instrumentos para a construção dum paraíso, essa divindade, de que tanto carecemos, as Bibliotecas. Com elas, e neles, vivemos momentos de recolhimento e reflexão. É dos livros e do seu silêncio ordenado que recebemos essa energia que nos permite descobrir em poucos anos universos inteiros. É pelos livros, pelas suas palavras, que damos peso, estrutura ao que somos.

É na respiração das palavras que anunciamos as formas como vemos o mundo, e somos muito “aquilo que as palavras ouvem” (António Manuel Pina) e é por isso que eles são a mais bela forma de registar o mundo e as suas cores. 

quarta-feira, 18 de abril de 2018

O livro e o leitor (VI)

                         O livro e a leitura - celebrar os momentos íntimos da leitura!

Na cultura medieval as representações da Anunciação eram pouco comuns. Foi durante o Renascimento, quando a sua representação já não era uma raridade que surgiu uma das mais emblemáticas. Trata-se da Anunciação pintada por Simone Martini, de 1333. 

A figura de Maria aparece numa imagem sobressaltada, quase a recusar o encontro com o anjo, aconchegando o manto ao peito e mantendo o livro aberto, no sítio onde a leitura tinha sido interrompida. Estamos perante um livro de Horas. 

Estes livros eram utilizados como objectos pessoais de devoção e também serviam para ensinar as crianças a ler. O quadro de Simone Martini é muito importante porque introduz algo novo - a ideia e o conceito que marcará o ambiente das mulheres culturas no fim da Idade Média.
Justamente, a leitura em silêncio, a procura de palavras que sirvam um estudo que é solitário, mas que permite construir ideias próprias. O sobressalto de Maria é o sobressalto de interrupção da leitura. Nesse sentido é um quadro sobre a leitura e sobre uma nova forma de construir momentos de intimidade e assim também pensamentos.

Simone Martini, A Anunciação (1333) - Uffizi - Florença -

Uma obra de arte por semana (VI)

Uma obra de arte por dia - Interpretar o real!

Edgar Degas é em certo sentido um dos representantes do movimento Impressionista. Desenvolveu a sua atividade na segunda metade do século XVIII e primeiros anos do século XIX. Com Monet, Cézanne e Renoir, Degas e outros pintores procuraram apresentar as suas obras a público nascendo uma forma de representação que marcaria a pintura no século XIX. 

Embora o Impressionismo tenha cultivado a arte de pintar ao ar livre, a vida real observada Degas procurou mais a ficção nas suas representações pictóricas e a sua pintura foge às características tradicionais do Impressionismo. Participou em exposições do grupo, mas as suas cores e temáticas fugiam um pouco ao que os restantes elementos faziam e procurou desenvolver um sentido de vanguarda. 

Na sua pintura as personagens desenvolvem-se em atmosferas muito expressivas, de um realismo notável e com uma capacidade de nos comunicar emoções de forma brilhante.

Edgar Degas, Bailarina no palco, 1878, Musée d'Orsay, Paris