quarta-feira, 14 de março de 2018




SEMANA DA LEITURA 

Na nossa escola, a Semana da Leitura, este ano subordinada ao mote Liberta o leitor que há em ti, pretendeu homenagear as mulheres com várias atividades. 

Ao longo da semana , foram dinamizadas Leituras Surpresa, em sala de aula, de poemas  e textos alusivos à condição feminina. Foram lidos e comentados poemas de António Gedeão, Cesário Verde, Florbela Espanca, Maria Velho da Costa, Lídia Falcon,  Sophia Andresen, Natalia Correia, Ana Luísa Amaral,entre outros. Também ao longo da semana, os alunos realizaram trabalhos sobre as  mulheres feministas portuguesas que viveram durante os primeiros vinte anos da República e que criaram as primeiras  organizações  partidárias  feministas e femininas.  
No dia 8, foi realizada uma exposição temática alusiva à condição feminina no Douro Litoral em meados do século passado, com base na incontornável obra de Maria Lamas, Mulheres do meu país. 
Finalmente, no dia 9, foi realizado um encontro com alunas de 8º e 9º anos, durante o qual foram lidos e discutidos extratos  do livro Sapiens, de Yuval Noah Harari, nos quais se questiona a origem da distinção ancestral entre homens e mulheres. 

Embora o tema seja sedutor pelo estímulo à expansão dos direitos e preocupações com justiça social, assim como pelo apelo às traumáticas repercussões de uma cultura que insiste em acreditar que a anatomia providencia a dicotomia sexual  que os estudos atuais demonstram que mais não são do que construções culturais,  a professora bibliotecária lamenta o desinteresse e fraca adesão da comunidade escolar às iniciativas propostas.

                                                                                                                     Fernanda Silva



segunda-feira, 12 de março de 2018

Na memória de Raul Brandão

A outra coisa que exerce uma verdadeira fascinação é o Pico - tão longe que a luz o trespassa, tão perto que quer entrar por todas as portas dentro. Na verdade, parece um efeito mágico de luz, um fantasma posto aí de propósito para nos iludir e mais nada.  Toma todas as cores: agora está violeta logo está rubro. Tarde, e a Lua enorme a nascer por trás daquele paredão imenso que chega ao céu. 
É majestoso e magnético. Está ali presente como um vagalhão que vai desabar sobre o Faial. Esta noite é um sonho: o cone muito nítido emerge de nuvens brancas que o rodeiam e parecem elevá-lo num triunfo ao céu. Às vezes, de Inverno, a neve brilha lá no alto com reflexos de jóias, outras são as nuvens que lhe dão formas extraordinárias. Se eu vivesse aqui, queria uma casa e uma cama onde só visse o Pico. Ele enchia-me de vida. 

O homem que teve a ideia de bordar as estradas com estas plantas [hortenses] devia ter uma estátua na ilha. Em nenhum outro lugar elas prosperam melhor: querem luz velada, humidade e calor - estão no seu meio. O seu azul é o azul esmaltado dos Açores nos dias límpidos. Nos dias turvos substituem a cor do céu: são o azul desta terra enevoada e uma das suas maiores belezas. Imaginem o cinzento que se derrete e alastra e torna o céu mais escuro, a atmosfera mais húmida, e sob isto ao azul cada vez mais azul, as molhadas de flores duma cor cada vez mais intensa e mais fresca. 

A volta na luz da tarde é um assombro. Vejo o Salão e Pedro Miguel, todos azuis de hidrângeas; sigo extasiado pela estrada azul, com o Pico ao fundo e S. Jorge à esquerda formando uma enorme baía. É o horizonte de Nápoles mais escuro, a esta hora iluminado por uma luz rica de efeitos. Em baixo colinas, sempre colinas - não como as montanhas solenes das Flores em picos aguçados pelo raio, mas arredondados e mansos. Borbotões de azul despenham-se por todos os lados. O faial adormece em azul sob o céu de cinzento e com o Pico todo violeta ao lado. 

À noite não posso dormir; estou encharcado de azul. Vou a pé pela estrada fora sob o luar derretido. Diante de mim abre-se o abismo do mar cheio de estrelas. Nasceu, subiu a Lua numa paz extraordinária, apagando o brilho dos diamantes, mas entre os últimos reflexos vibram os fios das vagas quebrando na costa e desaparecendo logo no boqueirão todo negro. Mais luar e o silêncio que espera de nós qualquer comunicação sobrenatural. Olho. todas as hortenses se puseram brancas, dum branco perfeito, todas as hortenses não desfitam  os olhos de mim, quietas e brancas, imóveis e brancas.1

Raul Brandão. (2011). As ilhas desconhecidas. Lisboa: Quetzal, páginas 81, 82, 83 e 90.
Imagens - Na estrada da Horta para Flamengos. Ilha da Horta. Açores; Copyright - Júlio Machado

sexta-feira, 9 de março de 2018

A palavra e o mundo - Cidade Aberta (II)

"Eu esperava ser tocado pela elegânica, não pela imortalidade. (...) É uma prova daquilo em que acredito; as pessoas podem viver juntas, mantendo intactos os seus próprios valores. Ver aqui esta quantidade  enorme de gente de vários países toca o meu lado humano, o meu lado intelectual."

A cidade como um território de conhecimento, o espaço físico, social e cultural onde cada um estabelece relações de proximidade e de quotidiano. A cidade como espaço individual, de conquista de sonhos, da ternura escondida nos olhos, na luz das estrelas que nos visitam entre a dança das nuvens.
A cidade como construção, entre a solidão dos passos conquistados ao tempo. Num território com tantos olhares, o que podemos concretizar de descoberta, de encontro em avenidas de luzes, onde cada solidão tenta respirar uma possibilidade. A cidade, os nossos passos no desejo de conhecimento e conquista dos sorrisos e abraços que nos envolvam nas esquinas que percorremos entre as luzes e a solidão.  

Cidade Aberta, no sentido de um espaço social e cultural que se deixa conhecer, onde uma multidão de pessoas de diferentes origens convivem, onde experimentam a vida, a sua continuidade entre os dias novos e os espaços da memória. Cidade Aberta reflecte sobre esse encontro, sobre a nossa presença no quotidiano, sobre o multiculturalismo e o que significa ser estrangeiro numa cultura, o que significa a individualidade numa sociedade de écrans. 
Cidade Aberta é sobre esse espaço cultural e humano intrigante que é Nova Iorque, como a poderíamos habitar, como a vemos, como a poderemos viver com a insegurança, o medo, a perda que significou ali estar após o onze de Setembro. Teju Cole, pela voz de um médico nigeriano, Julius tenta fazer esse caminho. Um caminho onde o sofrimento e a solidão se realiza entre as dúvidas e a esperança de descoberta em cada esquina, em cada rua. 

Cidade Aberta procura ver, mais que olhar e tentar encontrar-se na Big Apple com o outro, com a sua descoberta para a construção de uma identidade, embora saibamos que assim sendo cidade aberta não deveria ser esse território de solidão e tantas vezes abandono. A fragilidade de tantos indivíduos e o modo como num espaço de consumo material as diferenças podem ser questionados, dará à individualidade possibilidades de ser aceite? 
Pode a igualdade ser diluída num mar de ideias vazias para com a respiração de cada um? Um livro imenso sobre a cidade, e a incessante luta da liberdade para configurar as possibilidades humanas que uma solidão numa cidade pode esvaziar e limitar o discernimento para se encontrar com os outros. É neles, nos habitantes da cidade aberta que a sociedade como um cosmos se desenvolve e onde o valor individual se inscreve.

quinta-feira, 8 de março de 2018

O livro e o leitor (II)


O livro e a leitura - celebrar os momentos íntimos da leitura!

Através do livro, todos aprendemos a ler e a contar, a escrever e a pensar; através do livro, aprendemos a conhecer os grandes pensadores e os escritores clássicos; através do livro, aprendemos a conhecer os grandes textos sagrados; através do livro, aprendemos as lições da história e os avanços da ciência; através do livro, aprendemos os grandes valores que regem as sociedades modernas; através do livro, aprendemos a sonhar outros mundos e pensar utopias; através do livro, aprendemos a rir e a chorar, a rezar ou a amar; através do livro aprendemos descobrir o que nos cerca e a descobrimo-nos a nós próprios. O livro e a leitura são instrumentos essenciais de exercício de inteligência e de ginástica mental, de comunicação e de informação. Afinal, o livro e a leitura moldaram definitivamente a nossa memória e identidade individuais e colectivas, bem como a nossa visão do mundo. Opostamente, quem não lê, atrofia-se do ponto de vista linguístico, estético e cultural; quem não lê, regride na sua capacidade de pensar o que o rodeia; quem não lê, está condenado a viver à margem do seu tempo; quem não lê, vive e morre seguramente mais pobre. Deste modo, ler não é um luxo, é um dever, uma necessidade básica, um direito elementar, um hábito imprescindível. Ler não é apenas um mero passatempo; é antes um alimento intelectual – Aristóteles afirmou: “Um livro é um animal vivo”; Santo Agostinho chamou-lhe “alimento do espírito”; e João de Barros, “mercadoria espiritual”. Os livros são objectos pequenos, mas cheios de mundo (Romano Guardini).” 

Cândido Oliveira Martins, “Elogio do livro e da leitura”; Imagem: Kristina Vart

Uma obra de arte por semana (III)

Uma obra de arte por dia - Interpretar o real, reconstruir o mundo!


Para que servem poetas se não podem
Nem delirar, se os textos do delírio
serão tomados pelo seu contrário?
A bela rapariga dos cabelos
cor de violeta, Atenas, onde está?
Quem escavará o monte até aos ossos
Para que dele ressurjam esses que
Nos deixaram sozinhos?


Hélia Correia (2012). "17", in A Terceira Miséria. Lisboa: Relógio D’ Água, pág. 17.
Imagem – © Interior do Templo de Bel – Palmira. Jornal Público.

Um poema por semana (III)

Um poema por dia - a imaginação para iluminar ou compreender o real!


_______de um lado, está o enigma e, de outro,
está a prece
é então que este pede a Teresa que seja esse coração
decidido
que fale com o seu amado
lhe fale na música
lhe fale na felicidade de nascer da alegria
lhe fale no lápis
lhe fale nos traços
lhe diga que é bom que nada se perca
lhe diga que é vital
e a oração emerge do mais íntimo do pó
eu 
glorifiquei-vos sobre a terra
realizei a obra que me pediste que fizesse
dei a conhecer o teu nome aos que me deste a conhecer,
e agora sabem que tudo o que lhes dei vem de ti
porque eu comuniquei-lhes as palavras que me tinhas
comunicado
eles receberam-nas e acreditam que é de ti que eu venho
neste momento
é deles
que te falo e por eles é a minha prece
a matéria não é vã
a matéria é luminosa
diz-lhe que o denso é passagem
diz-lhe que estão destinados à alegria
preserva-os do mal
é tudo quanto, finalmente, te peço
Maria Gabriel Llansol. (1998). Ardente Texto Joshua. Lisboa: Relógio d’Água.Imagem, Espaço Llansol, casa da escritora. Sintra

Dia internacional da mulher

«Diz homem, diz criança, diz estrela./Repete as sílabas/onde a luz é feliz e se demora.
Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova». (Eugénio de Andrade)

Os chamados dias efemérides são sempre um pouco limitados, quase lamentáveis, porque são uma expressão pobre de destacar alguma ideia, facto ou pessoa. Neste caso, pela sua dimensão, campo de sedução e beleza ainda o é mais. Historicamente o Dia Internacional da Mulher está ligado aos acontecimentos de 1857 com as operárias têxteis de Nova Iorque que reclamavam um horário de trabalho mais digno, mais humano. A partir de 1910 ficou estabelecido que se faria uma homenagem a essas mulheres, celebrando o 8 de Março como o Dia Internacional da Mulher.

Hoje a forma contemporânea deste dia é a sensiblização para o papel da mulher na sociedade, o seu valor, a sua dignidade como pessoa evitando preconceitos. Na História social e das mentalidades, a Mulher apareceu sempre como um fenómeno em que individualmente pela sua coragem, inteligência e saber soube lutar por uma humanidade melhor. Nesse sentido o Dia da Mulher deveria ser, deve ser antes de mais, a confirmação, não por uma igualdade entre sexos, mas antes entre pessoas.


Neste sentido mais do que tolerância, que sempre sugere uma aprovação forçada, o que deveria importar é o respeito mútuo. O que mais importa é construir vectores de diálogo construído sobre os valores vividos. Mesmo hoje, sabemos como esta convivência é em diferentes geografias e cartografias do ser uma miragem. Os exemplos são imensos. Basta escolher.

Continuamos com uma humanidade incompleta, atenta às necessidades básicas, mas sem chegar ao que alguém chamou o Homem completo. Isto é à ideia de consciência e liberdade que deveria estar acima da própria vida. Num dia destes, além do voto de felicitações a todas as mulheres, importa destacar as que na Arte, na Literatura, no Cinema, nas Ciências têm contribuído para a universalidade da Humanidade.

Abaixo umas palavras de uma mulher, uma escritora e essa necessidade de construir o mundo pelas palavras e com as possibilidades e inspiração que temos todos, homens e mulheres de deixar no mundo e em todos nós. De Agustina:

«A mulher está a adaptar-se a um mundo diferente, mas ainda não está estabilizada. Quando tem êxito tende a parecer-se com o homem. Agora tem outra maneira de se manifestar e criar as condições para exercer esse poder, mas está disposta a sacrificar outros atributos que tinha. Como a doçura, que vai perdendo. A ternura autêntica está a desaparecer. (...)

A escrita é para divulgar, não aquilo que é autêntico e profundo, mas aquilo que fica por uma certa superfície. A escrita é sempre superficial em relação à verdade profunda de cada um. Quando falamos em comunicação, devemos pôr isso na ordem das leviandades humanas e não na dos encontros profundos. Os encontros profundos são profundamente perigosos. Ainda acho que é possível mudar o mundo e acredito naquelas pessoas que querem mudar o mundo através de coisas que se consideram impossíveis. (...)

Valorizo aquilo que aprendi e era essencial na vida humana, como a relação com tudo o que nos cerca. Tudo o que nós aprendemos e de que nos servimos tem de fazer parte ao mesmo tempo daquilo que nos rodeia, porque senão já não é cultura, é pedantismo. (...) Verdadeiramente, não recebemos nada dos outros e muito dificilmente ensinamos. Quando muito divertimos, distraímos, acompanhamos. Nunca sabemos tanto como a vida nos pode ensinar.» (1)