sexta-feira, 9 de março de 2018

A palavra e o mundo - Cidade Aberta (II)

"Eu esperava ser tocado pela elegânica, não pela imortalidade. (...) É uma prova daquilo em que acredito; as pessoas podem viver juntas, mantendo intactos os seus próprios valores. Ver aqui esta quantidade  enorme de gente de vários países toca o meu lado humano, o meu lado intelectual."

A cidade como um território de conhecimento, o espaço físico, social e cultural onde cada um estabelece relações de proximidade e de quotidiano. A cidade como espaço individual, de conquista de sonhos, da ternura escondida nos olhos, na luz das estrelas que nos visitam entre a dança das nuvens.
A cidade como construção, entre a solidão dos passos conquistados ao tempo. Num território com tantos olhares, o que podemos concretizar de descoberta, de encontro em avenidas de luzes, onde cada solidão tenta respirar uma possibilidade. A cidade, os nossos passos no desejo de conhecimento e conquista dos sorrisos e abraços que nos envolvam nas esquinas que percorremos entre as luzes e a solidão.  

Cidade Aberta, no sentido de um espaço social e cultural que se deixa conhecer, onde uma multidão de pessoas de diferentes origens convivem, onde experimentam a vida, a sua continuidade entre os dias novos e os espaços da memória. Cidade Aberta reflecte sobre esse encontro, sobre a nossa presença no quotidiano, sobre o multiculturalismo e o que significa ser estrangeiro numa cultura, o que significa a individualidade numa sociedade de écrans. 
Cidade Aberta é sobre esse espaço cultural e humano intrigante que é Nova Iorque, como a poderíamos habitar, como a vemos, como a poderemos viver com a insegurança, o medo, a perda que significou ali estar após o onze de Setembro. Teju Cole, pela voz de um médico nigeriano, Julius tenta fazer esse caminho. Um caminho onde o sofrimento e a solidão se realiza entre as dúvidas e a esperança de descoberta em cada esquina, em cada rua. 

Cidade Aberta procura ver, mais que olhar e tentar encontrar-se na Big Apple com o outro, com a sua descoberta para a construção de uma identidade, embora saibamos que assim sendo cidade aberta não deveria ser esse território de solidão e tantas vezes abandono. A fragilidade de tantos indivíduos e o modo como num espaço de consumo material as diferenças podem ser questionados, dará à individualidade possibilidades de ser aceite? 
Pode a igualdade ser diluída num mar de ideias vazias para com a respiração de cada um? Um livro imenso sobre a cidade, e a incessante luta da liberdade para configurar as possibilidades humanas que uma solidão numa cidade pode esvaziar e limitar o discernimento para se encontrar com os outros. É neles, nos habitantes da cidade aberta que a sociedade como um cosmos se desenvolve e onde o valor individual se inscreve.

quinta-feira, 8 de março de 2018

O livro e o leitor (II)


O livro e a leitura - celebrar os momentos íntimos da leitura!

Através do livro, todos aprendemos a ler e a contar, a escrever e a pensar; através do livro, aprendemos a conhecer os grandes pensadores e os escritores clássicos; através do livro, aprendemos a conhecer os grandes textos sagrados; através do livro, aprendemos as lições da história e os avanços da ciência; através do livro, aprendemos os grandes valores que regem as sociedades modernas; através do livro, aprendemos a sonhar outros mundos e pensar utopias; através do livro, aprendemos a rir e a chorar, a rezar ou a amar; através do livro aprendemos descobrir o que nos cerca e a descobrimo-nos a nós próprios. O livro e a leitura são instrumentos essenciais de exercício de inteligência e de ginástica mental, de comunicação e de informação. Afinal, o livro e a leitura moldaram definitivamente a nossa memória e identidade individuais e colectivas, bem como a nossa visão do mundo. Opostamente, quem não lê, atrofia-se do ponto de vista linguístico, estético e cultural; quem não lê, regride na sua capacidade de pensar o que o rodeia; quem não lê, está condenado a viver à margem do seu tempo; quem não lê, vive e morre seguramente mais pobre. Deste modo, ler não é um luxo, é um dever, uma necessidade básica, um direito elementar, um hábito imprescindível. Ler não é apenas um mero passatempo; é antes um alimento intelectual – Aristóteles afirmou: “Um livro é um animal vivo”; Santo Agostinho chamou-lhe “alimento do espírito”; e João de Barros, “mercadoria espiritual”. Os livros são objectos pequenos, mas cheios de mundo (Romano Guardini).” 

Cândido Oliveira Martins, “Elogio do livro e da leitura”; Imagem: Kristina Vart

Uma obra de arte por semana (III)

Uma obra de arte por dia - Interpretar o real, reconstruir o mundo!


Para que servem poetas se não podem
Nem delirar, se os textos do delírio
serão tomados pelo seu contrário?
A bela rapariga dos cabelos
cor de violeta, Atenas, onde está?
Quem escavará o monte até aos ossos
Para que dele ressurjam esses que
Nos deixaram sozinhos?


Hélia Correia (2012). "17", in A Terceira Miséria. Lisboa: Relógio D’ Água, pág. 17.
Imagem – © Interior do Templo de Bel – Palmira. Jornal Público.

Um poema por semana (III)

Um poema por dia - a imaginação para iluminar ou compreender o real!


_______de um lado, está o enigma e, de outro,
está a prece
é então que este pede a Teresa que seja esse coração
decidido
que fale com o seu amado
lhe fale na música
lhe fale na felicidade de nascer da alegria
lhe fale no lápis
lhe fale nos traços
lhe diga que é bom que nada se perca
lhe diga que é vital
e a oração emerge do mais íntimo do pó
eu 
glorifiquei-vos sobre a terra
realizei a obra que me pediste que fizesse
dei a conhecer o teu nome aos que me deste a conhecer,
e agora sabem que tudo o que lhes dei vem de ti
porque eu comuniquei-lhes as palavras que me tinhas
comunicado
eles receberam-nas e acreditam que é de ti que eu venho
neste momento
é deles
que te falo e por eles é a minha prece
a matéria não é vã
a matéria é luminosa
diz-lhe que o denso é passagem
diz-lhe que estão destinados à alegria
preserva-os do mal
é tudo quanto, finalmente, te peço
Maria Gabriel Llansol. (1998). Ardente Texto Joshua. Lisboa: Relógio d’Água.Imagem, Espaço Llansol, casa da escritora. Sintra

Dia internacional da mulher

«Diz homem, diz criança, diz estrela./Repete as sílabas/onde a luz é feliz e se demora.
Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova». (Eugénio de Andrade)

Os chamados dias efemérides são sempre um pouco limitados, quase lamentáveis, porque são uma expressão pobre de destacar alguma ideia, facto ou pessoa. Neste caso, pela sua dimensão, campo de sedução e beleza ainda o é mais. Historicamente o Dia Internacional da Mulher está ligado aos acontecimentos de 1857 com as operárias têxteis de Nova Iorque que reclamavam um horário de trabalho mais digno, mais humano. A partir de 1910 ficou estabelecido que se faria uma homenagem a essas mulheres, celebrando o 8 de Março como o Dia Internacional da Mulher.

Hoje a forma contemporânea deste dia é a sensiblização para o papel da mulher na sociedade, o seu valor, a sua dignidade como pessoa evitando preconceitos. Na História social e das mentalidades, a Mulher apareceu sempre como um fenómeno em que individualmente pela sua coragem, inteligência e saber soube lutar por uma humanidade melhor. Nesse sentido o Dia da Mulher deveria ser, deve ser antes de mais, a confirmação, não por uma igualdade entre sexos, mas antes entre pessoas.


Neste sentido mais do que tolerância, que sempre sugere uma aprovação forçada, o que deveria importar é o respeito mútuo. O que mais importa é construir vectores de diálogo construído sobre os valores vividos. Mesmo hoje, sabemos como esta convivência é em diferentes geografias e cartografias do ser uma miragem. Os exemplos são imensos. Basta escolher.

Continuamos com uma humanidade incompleta, atenta às necessidades básicas, mas sem chegar ao que alguém chamou o Homem completo. Isto é à ideia de consciência e liberdade que deveria estar acima da própria vida. Num dia destes, além do voto de felicitações a todas as mulheres, importa destacar as que na Arte, na Literatura, no Cinema, nas Ciências têm contribuído para a universalidade da Humanidade.

Abaixo umas palavras de uma mulher, uma escritora e essa necessidade de construir o mundo pelas palavras e com as possibilidades e inspiração que temos todos, homens e mulheres de deixar no mundo e em todos nós. De Agustina:

«A mulher está a adaptar-se a um mundo diferente, mas ainda não está estabilizada. Quando tem êxito tende a parecer-se com o homem. Agora tem outra maneira de se manifestar e criar as condições para exercer esse poder, mas está disposta a sacrificar outros atributos que tinha. Como a doçura, que vai perdendo. A ternura autêntica está a desaparecer. (...)

A escrita é para divulgar, não aquilo que é autêntico e profundo, mas aquilo que fica por uma certa superfície. A escrita é sempre superficial em relação à verdade profunda de cada um. Quando falamos em comunicação, devemos pôr isso na ordem das leviandades humanas e não na dos encontros profundos. Os encontros profundos são profundamente perigosos. Ainda acho que é possível mudar o mundo e acredito naquelas pessoas que querem mudar o mundo através de coisas que se consideram impossíveis. (...)

Valorizo aquilo que aprendi e era essencial na vida humana, como a relação com tudo o que nos cerca. Tudo o que nós aprendemos e de que nos servimos tem de fazer parte ao mesmo tempo daquilo que nos rodeia, porque senão já não é cultura, é pedantismo. (...) Verdadeiramente, não recebemos nada dos outros e muito dificilmente ensinamos. Quando muito divertimos, distraímos, acompanhamos. Nunca sabemos tanto como a vida nos pode ensinar.» (1)

terça-feira, 6 de março de 2018

Miguel Ângelo ou o eterno tempo do belo

Desenho imagens, faço o entalhamento da pedra para desenhar sonhos, os meus instantes de eternidade. Quando me conheci apenas os encontrei e nada mais tinha. Mais tarde conheci uma família e uns tantos amigos, onde encontrei formas de beleza que nem sempre compreendi. Amei uma vez, mas perdi esses meus amados. A vida e a morte conquistaram-nos e nem nos meus desenhos de pedra conheci o seu coração, os seus segredos por revelar. 
Tenho deixado em estátuas e abóbadas o que sinto pelo mundo, pois este é assombroso, inexplicável e amargo. Fiquei com o meu espírito, é ele que me permite voar, acima de qualquer figura mundana. Só no mundo, desenhei-me em sonhos e nem sempre eles me libertaram desse sentimento de abandono. Penso às vezes no amor. No que tive, no que me fascinou de beleza, no que se perdeu quando o desejo nasceu como um fantasma e não permitiu que se realizasse o essencial. Neste jogo de dúvidas, há os que nos acusam e os que nos desculpam. Em nenhum caso compreendem a nossa renúncia, o nosso espírito voando sobre a matéria, a nossa fuga à solidão, fruto desse medo da vida e da morte, onde imaginamos o amor, como suporte da nossa dimensão humana. 
Os altares onde imagino a vida, a pintura de uma abóbada, uma escultura de bronze, um poema perdem o sentido da sua criação. Quem compreenderá o espírito que a forjou, a dedicatória de vida nela inscrita? Desenho esculturas porque quero parar o tempo, fotografar instantes de vida, anunciar ao futuro na pedra que outros verão, os jogos de luz, ou as sombras que quis amar. O criador compreenderá e amará esta metamorfose do Universo com que as minhas estátuas se movem no tempo. As minhas estátuas foram esculpidas com o sopro do corpo perfeito, a beleza que me suspendia dos momentos, como que a própria perfeição, aquela que se basta a si própria e que é imutável.
Olho muitas vezes algumas das minhas criações e vejo-me como o homem que ajudou a esburacar a Terra, desfazendo montanhas para construir as formas de renúncia da natureza, aos pequenos deuses do Homem, aos instantes materiais do Universo. Nesses instantes por onde cada um colecciona uma montra de mortos, graves e impassíveis, como o vento, reparo na beleza dos meus modelos e lembro-me de Cecchino dei Bracchi. O sorriso que deixei nas minhas estátuas foi o sopro da criação de um corpo, os gestos e pensamentos que em silêncio permitiram derrotar a morte, pois é o seu instante anterior e esclarecido. São testemunhos de vida, isso que na galeria de mortos que conheci, as minhas estátuas cumprem a vida, pois a morte apenas se anula a si própria, não as pálpebras e os rostos que iluminei de cor e pátina.
A morte é apenas o seu esquecimento, a espiral de destruição de si própria. Os que desenhei construíram-se num espírito que soube desenhar-se acima das leis conhecidas do Universo. Saberão eles na sua irrealidade que foram a matéria viva e definitiva da pedra, elemento universal do Cosmos? Mesmo que o não o saibam, eles são no seu sono, a matéria da vida que se condensou, o sinal visível das noites estreladas em terraços que amaram como a brisa lustral de todas as manhãs.

A partir das leituras:
Marguerite Yourcenar, “CECCHINO DEI BRACCHI”; “FEBO DEL POGGIO”, in “Sixtine”, Revue bleue, nº 22, 21 de Novembro de 1931, págs. 684-687.
Imagem – Estátua de David (1504) – Miguel Ângelo, Galleria dell’Accademia, Florença.

Memória de Gabriel Garcia Marquez


"Se por um instante Deus se esquecesse de que sou uma marionete de trapo e me presenteasse um fragmento de vida, possivelmente não diria tudo o que penso mas em definitivo pensaria tudo o que digo. Daria valor as coisas, não pelo que valem, senão pelo que significam. Dormiria pouco, sonharia mais, entendo que por cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz.
Andaria quando os demais se detêm, despertaria quando os demais dormem. Escutaria quando os demais falam, e como desfrutaria um bom sorvete de chocolate! Se Deus me obsequiasse um fragmento de vida, vestiria simples, me atiraria de bruços ao sol, deixando descoberto, não somente meu corpo senão minha alma.Deus meu, se eu tivesse um coração, escreveria meu ódio sobre o gelo, esperaria que saísse o sol. Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre as estrelas um poema de Benedetti, e uma canção de Serrat seria a serenata que lhes ofereceria à lua. Regaria com minhas lágrimas as rosas, para sentir a dor de seus espinhos, e o encarnado beijo de suas pétalas...
Deus meu, se eu tivesse um fragmento de vida... Não deixaria passar um só dia sem dizer as pessoas que quero, que as quero. Convenceria a cada mulher ou homem de que são meus favoritos e viveria enamorado do amor. Aos homens lhes provaria quão equivocados estão ao pensar que deixam de enamorar-se quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de enamorar-se! A criança lhe daria asas, porém lhe deixaria que sozinho aprendesse a voar.
Aos velhos lhes ensinaria que a morte não chega com a velhice senão com o esquecimento. Tantas coisas tenho aprendido de vocês, os homens... Tenho aprendido que todo o mundo quer viver no topo da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a escarpa. Tenho aprendido que quando um recém nascido aperta com seu pequeno punho, pela primeira vez, o dedo do pai, o tem apanhado para sempre. Tenho aprendido que um homem só tem o direito de olhar a outro com o olhar baixo quando há de ajudar-lhe a levantar-se. São tantas coisas as que tenho podido aprender de vocês, porém realmente de muito não haverão de servir, porque quando me guardarem dentro dessa mala, infelizmente estarei morrendo"

Gabriel Garcia Marquez, Carta aos meus amigos.