terça-feira, 6 de março de 2018

Memória de Gabriel Garcia Marquez


"Se por um instante Deus se esquecesse de que sou uma marionete de trapo e me presenteasse um fragmento de vida, possivelmente não diria tudo o que penso mas em definitivo pensaria tudo o que digo. Daria valor as coisas, não pelo que valem, senão pelo que significam. Dormiria pouco, sonharia mais, entendo que por cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz.
Andaria quando os demais se detêm, despertaria quando os demais dormem. Escutaria quando os demais falam, e como desfrutaria um bom sorvete de chocolate! Se Deus me obsequiasse um fragmento de vida, vestiria simples, me atiraria de bruços ao sol, deixando descoberto, não somente meu corpo senão minha alma.Deus meu, se eu tivesse um coração, escreveria meu ódio sobre o gelo, esperaria que saísse o sol. Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre as estrelas um poema de Benedetti, e uma canção de Serrat seria a serenata que lhes ofereceria à lua. Regaria com minhas lágrimas as rosas, para sentir a dor de seus espinhos, e o encarnado beijo de suas pétalas...
Deus meu, se eu tivesse um fragmento de vida... Não deixaria passar um só dia sem dizer as pessoas que quero, que as quero. Convenceria a cada mulher ou homem de que são meus favoritos e viveria enamorado do amor. Aos homens lhes provaria quão equivocados estão ao pensar que deixam de enamorar-se quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de enamorar-se! A criança lhe daria asas, porém lhe deixaria que sozinho aprendesse a voar.
Aos velhos lhes ensinaria que a morte não chega com a velhice senão com o esquecimento. Tantas coisas tenho aprendido de vocês, os homens... Tenho aprendido que todo o mundo quer viver no topo da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a escarpa. Tenho aprendido que quando um recém nascido aperta com seu pequeno punho, pela primeira vez, o dedo do pai, o tem apanhado para sempre. Tenho aprendido que um homem só tem o direito de olhar a outro com o olhar baixo quando há de ajudar-lhe a levantar-se. São tantas coisas as que tenho podido aprender de vocês, porém realmente de muito não haverão de servir, porque quando me guardarem dentro dessa mala, infelizmente estarei morrendo"

Gabriel Garcia Marquez, Carta aos meus amigos.

segunda-feira, 5 de março de 2018

A palavra e o mundo - Cidade Aberta (I)

Nunca imaginei que fosse possível vê-las, com a poluição de luz a envolver perpetuamente a cidade e numa noite em que estivera a chover. Mas a chuva tinha parado enquanto eu descia as escadas e tornara o ar límpido. (...) Estrelas maravilhosas, numa nuvem de pirilampos ao longe: mas eu sentia no meu corpo o que os meus olhos não podiam alcançar, ou seja, que a sua verdadeira natureza era o persistente eco visual de algo que pertencia já ao passado. (...) nos espaços escuros entre as estrelas mortas, a brilhar, havia outras estrelas que eu não podia ver, estrelas que ainda existiam e emitiam uma luz que ainda não tinha chegado até mim, estrelas vivas e a emitir luz, mas para mim apenas presentes enquanto interstícios vazios. A sua luz acabaria por chegar à Terra, muito depois de eu e a minha geração e a geração seguinte nos encontrarmos fora do tempo (...). Olhar para esses espaços escuros era como ter uma perspetiva direta do futuro.

Teju Cole. (2012). Cidade Aberta. Lisboa, Quetzal.

sexta-feira, 2 de março de 2018

O livro e o leitor (II)

Um leitor por dia - celebrar os momentos íntimos da leitura!

A leitura criou possibilidades de esperança e de “utopia”, esta como processo em muitos séculos de universos quotidianos, onde em especial a mulher pôde fundir novas ideias para a sua realidade diária. 
Desse universo de leitura, importa abordar, ainda que ligeiramente (pelas limitações deste suporte) como a escrita pôde libertar processos culturais que organizavam o essencial da vida social. E quem diz a escrita diz ainda num valor mais abrangente e social, a leitura, nos seus espaços de conquista ao mundo.
Se a leitura no feminino teve uma possibilidade de evolução ao longo dos séculos, sobretudo a partir do século XVIII, a escrita viveu nesse género, grandes dificuldades de se concretizar.
Mesmo uma figura como Viriginia Woolf, já no século XX se interrogava como era difícil superar a imagem tradicional da mulher e avançar com uma escrita que revelasse a sua integridade. “O discurso livre das mulheres”, disse Virginia Woolf faria depender o futuro da arte do romance e conceder uma vida de liberdade aos dois. Desse longo caminho vejamos em pequenas imagens posteriores, como a arte da representação pictórica e da palavra as definiram, nessa difícil atividade da leitura e da escrita.

Imagem: Copyright - Marguerite Yourcenar

Uma obra de arte por semana (II)

Uma obra de arte por dia - Interpretar o real, reconstruir o mundo!

Uma obra de arte por dia - Interpretar o real, reconstruir o mundo!
A cartografia também é uma obra de arte. Georg Wilhelm Steller fez essa aventura em costas desconhecidas à procura da fauna e da flora ainda não reconhecida.
“Ao romper do dia seguinte,
Dia de Santo Elias,
Steller foi a terra. Dez horas,
lhe concedeu Bering, já com o medo
escrito na fronte, para uma excursão científica.
De um azul profundo estava então a água e também
as florestas que cresciam mesmo até à costa
marítima."
W. G. Sebald. (2012). “XIV”. Do natural. Lisboa: Quetzal.


Um poema por semana (II)

Um poema por dia - a imaginação para iluminar ou compreender o real!

“Azul, o azul rouco
o azul sem cor
luz gémea da sede
Acerca deste rigor tenho uma
palavra a dizer
uma sílaba a salvar desta
aridez
Asa ferida, o olhar arrastado
pela pedra calcinada
húmido ainda de ter pousado à
sombra
de um nome o teu:
amor do mundo,
amor de nada.

Eugénio de Andrade, “Azul”, in Poesia Completa

quinta-feira, 1 de março de 2018

Março

Lá vai Março de mansinho
- para ser ele o primeiro -
a percorrer o caminho
que vai de Castelo Frio
- o lugar de onde partiu -
ao Palácio Florentino:
o jardim à beira rio
onde nasce a Primavera.
Mas quando chega, uns casais
já montaram casa e esperam
que lhes nasçam uns meninos.
E Março, que é educado,
cumprimenta os maiorais,
tira o chapéu e lá diz:
- Bom dia, senhores pardais.
Mas logo sente uma chama,
como se em dia de festa:
abre os braços e proclama:
- Já chegou a Primavera!
Da Floresta é este o Dia
e, já agora, da Poesia! 

João Pedro Mésseder. Livro dos Meses

SEMANA DA LEITURA

   Les|Atividades na Biblioteca| Dia internacional da mulher
|Exposição de recursos docum