segunda-feira, 5 de março de 2018

A palavra e o mundo - Cidade Aberta (I)

Nunca imaginei que fosse possível vê-las, com a poluição de luz a envolver perpetuamente a cidade e numa noite em que estivera a chover. Mas a chuva tinha parado enquanto eu descia as escadas e tornara o ar límpido. (...) Estrelas maravilhosas, numa nuvem de pirilampos ao longe: mas eu sentia no meu corpo o que os meus olhos não podiam alcançar, ou seja, que a sua verdadeira natureza era o persistente eco visual de algo que pertencia já ao passado. (...) nos espaços escuros entre as estrelas mortas, a brilhar, havia outras estrelas que eu não podia ver, estrelas que ainda existiam e emitiam uma luz que ainda não tinha chegado até mim, estrelas vivas e a emitir luz, mas para mim apenas presentes enquanto interstícios vazios. A sua luz acabaria por chegar à Terra, muito depois de eu e a minha geração e a geração seguinte nos encontrarmos fora do tempo (...). Olhar para esses espaços escuros era como ter uma perspetiva direta do futuro.

Teju Cole. (2012). Cidade Aberta. Lisboa, Quetzal.

sexta-feira, 2 de março de 2018

O livro e o leitor (II)

Um leitor por dia - celebrar os momentos íntimos da leitura!

A leitura criou possibilidades de esperança e de “utopia”, esta como processo em muitos séculos de universos quotidianos, onde em especial a mulher pôde fundir novas ideias para a sua realidade diária. 
Desse universo de leitura, importa abordar, ainda que ligeiramente (pelas limitações deste suporte) como a escrita pôde libertar processos culturais que organizavam o essencial da vida social. E quem diz a escrita diz ainda num valor mais abrangente e social, a leitura, nos seus espaços de conquista ao mundo.
Se a leitura no feminino teve uma possibilidade de evolução ao longo dos séculos, sobretudo a partir do século XVIII, a escrita viveu nesse género, grandes dificuldades de se concretizar.
Mesmo uma figura como Viriginia Woolf, já no século XX se interrogava como era difícil superar a imagem tradicional da mulher e avançar com uma escrita que revelasse a sua integridade. “O discurso livre das mulheres”, disse Virginia Woolf faria depender o futuro da arte do romance e conceder uma vida de liberdade aos dois. Desse longo caminho vejamos em pequenas imagens posteriores, como a arte da representação pictórica e da palavra as definiram, nessa difícil atividade da leitura e da escrita.

Imagem: Copyright - Marguerite Yourcenar

Uma obra de arte por semana (II)

Uma obra de arte por dia - Interpretar o real, reconstruir o mundo!

Uma obra de arte por dia - Interpretar o real, reconstruir o mundo!
A cartografia também é uma obra de arte. Georg Wilhelm Steller fez essa aventura em costas desconhecidas à procura da fauna e da flora ainda não reconhecida.
“Ao romper do dia seguinte,
Dia de Santo Elias,
Steller foi a terra. Dez horas,
lhe concedeu Bering, já com o medo
escrito na fronte, para uma excursão científica.
De um azul profundo estava então a água e também
as florestas que cresciam mesmo até à costa
marítima."
W. G. Sebald. (2012). “XIV”. Do natural. Lisboa: Quetzal.


Um poema por semana (II)

Um poema por dia - a imaginação para iluminar ou compreender o real!

“Azul, o azul rouco
o azul sem cor
luz gémea da sede
Acerca deste rigor tenho uma
palavra a dizer
uma sílaba a salvar desta
aridez
Asa ferida, o olhar arrastado
pela pedra calcinada
húmido ainda de ter pousado à
sombra
de um nome o teu:
amor do mundo,
amor de nada.

Eugénio de Andrade, “Azul”, in Poesia Completa

quinta-feira, 1 de março de 2018

Março

Lá vai Março de mansinho
- para ser ele o primeiro -
a percorrer o caminho
que vai de Castelo Frio
- o lugar de onde partiu -
ao Palácio Florentino:
o jardim à beira rio
onde nasce a Primavera.
Mas quando chega, uns casais
já montaram casa e esperam
que lhes nasçam uns meninos.
E Março, que é educado,
cumprimenta os maiorais,
tira o chapéu e lá diz:
- Bom dia, senhores pardais.
Mas logo sente uma chama,
como se em dia de festa:
abre os braços e proclama:
- Já chegou a Primavera!
Da Floresta é este o Dia
e, já agora, da Poesia! 

João Pedro Mésseder. Livro dos Meses

SEMANA DA LEITURA

   Les|Atividades na Biblioteca| Dia internacional da mulher
|Exposição de recursos docum