segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Dos livros

Antes de publicarmos semanalmente alguns tópicos sobre o livro e a leitura, dois pequenos textos sobre o fundamento deste espaço, os Livros e essa ideia de refúgio do mundo, a Biblioteca.


O livro é um dos objetos raros criados pela civilização humana. Por ele se construíram caminhos, fronteiras que fundaram novas realidades. O livro alimenta a imaginação, cria a fantasia e concede-nos a possibilidade de alimentar novos territórios para uma esperança, feita de mundos alternativos ao que é conhecido. 
O livro constrói no universo das ideias, um realismo superior à realidade, pois dá-nos as fronteiras ilimitadas da leitura. Embora muitos dispensem esta chave de abrir tesouros e vidas infindáveis ela, a leitura é um imenso privilégio. É-o, pois significa que superámos as mais baixas condições da utilidade dos dias, que já não vivemos num quotidiano de carências, de sobrevivência e de medo. A leitura permite ter acesso a um espaço de recolhimento, para desfrutar momentos de lazer e de conhecimento.

O que faz a grandeza do livro é a sua essência, isto é, não a leitura em si, mas a criação das imagens que ela suscita. Podemos dizer que a leitura vale pela sua literacia. O livro é o único suporte de leitura que se basta a si próprio, pelo que só depende do leitor, do seu tempo privado, ao contrário da televisão, ou do cinema. 
O livro chama-nos, carece do nosso entusiasmo. Ler é assim, acima de tudo, o momento de construção de imagens, “o levantar a cabeça”, imaginado essas imagens que a leitura trouxe. A leitura, a sua essência repousa na construção dessa reflexão, nesse tempo individual. A leitura isola o leitor, permite a imobilidade, instala o silêncio e concede-nos um processo de contra-movimento contra a cidade, o grupo, o barulho, o movimento, os outros, libertando-nos do tempo. 

Os livros são assim os elementos de um ritual de silêncio e descoberta, os instrumentos para a construção dum paraíso, essa divindade, de que tanto carecemos, justamente as Bibliotecas. Com elas e neles vivemos momentos, como respiração de recolhimento e reflexão. É dos livros e do seu silêncio ordenado que recebemos essa energia que nos permite descobrir em poucos anos universos inteiros. É pelos livros, pelas suas palavras, que damos peso, estrutura ao que somos. 
É na respiração das palavras que anunciamos as formas como que vemos o mundo, e somos muito, “aquilo que as palavras ouvem” (António Manuel Pina) e é por isso que eles são a mais bela forma de registar o mundo e as suas cores. 

Um poema por semana (I)

Um poema por dia - a imaginação para iluminar ou compreender o real!
Nome comum: Jasmim-dos-Poetas

Percorria ao anoitecer os jardins
da cidade à procura das flores
oficiais - sobem amparadas
e perfumam com a memória
do chá as ruas irregulares.
Levava uma tesoura de unhas,
insuficiente e desnecessária porque
não colhia nada que fosse vivo.
Restavam-me frases livres,
páginas dobradas, cadeiras desiguais
e os pratos vazios deixados
aos gatos.
O primeiro poema encontrei-o
numa dessas buscas
debaixo da árvore maior,
no ferro que sustenta a copa,
preso com uma mola da roupa
.

Curso intensivo de jardinagem / Margarida Ferra. Lisboa: & ETC. 2010.

Reinventar os dias...

Goethe, grande vulto das letras e da cultura alemã, que viveu entre o século XVIII e XIX e que foi uma figura muito importante do movimento romântico deixou-nos várias obras que ainda hoje podemos admirar. 
Dele podemos ouvir a seguinte ideia: "Todos nós devíamos ouvir um pouco de música, ler uma boa poesia, ver um quadro bonito e, se possível, dizer algumas palavras sensatas."
Como Biblioteca o que vamos aqui deixar durante os próximos meses é a evocação de um poema, de uma leitora ou leitor e de uma obra de arte. A ideia é divulgar aspetos da cultura e da memória e realizar uma difusão de informação sobre questões que nos podem ajudar a formar uma visão do mundo. Ou tão só a reconhecer os elementos que formam aquilo que se chamou a modernidade.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Os Caretos de Podence - uma memória da História


O Carnaval é uma das tradições populares que mais ligações desfruta com o passado histórico. O Carnaval em Portugal já foi conhecido como Entrudo, a entrada para quarenta dias de jejum de preparação para a Páscoa. Muitas das tradições que comemoramos têm uma raiz histórica.
Em alguns dos casos o tempo introduziu algumas alterações adaptando-se a novas formas da sociedade. Outras permaneceram com um imaginário revelador de todo o simbolismo que o viu nascer. O Carnaval é em larga medida a comemoração do fim da longa noite do Inverno e a comemoração da Primavera que se avizinha. Nele se podem observar os cultos de fertilidade da Natureza e a sua datação em alguns casos perdem-se no tempo. Esse é o caso da aldeia de Podence, no concelho de Macedo de Cavaleiros, os conhecidos caretos que no  Carnaval chocalham as moças, são uma das mais genuínas manifestações populares portuguesas.

Os caretos de Podence têm uma raiz na cultura céltica, povo que habitou a Península Ibérica no período pré-romano. Relaciona-se com outras culturas como a existência dos povos Galaicos (Gallaeci) e Brácaros (Bracari) na Galiza e no norte de Portugal. Existem igualmente fontes históricas que relacionam as máscaras de Podence a festividades romanas, onde existiam desfiles nas ruas, onde homens seminus vestidos com peles de animais participavam em manifestações simbólicas ligadas à fertilidade.

Os caretos são rapazes solteiros na tradição atual e que se apresentam como figuras fantásticas imbuídas de valores lúdicos e pagãos e a sua aparição por dois curtos dias representa o surgimento de forças ocultas e sobrenaturais que depois são purificadas na fogueira final. Os caretos vestem-se de forma muito colorida, com material feito em lã ou linho, vindo de peças familiares e trazem chocalhos à cintura com que afugentam os elementos femininos. Levam na mão um pau de freixo ou de castanheiro que serve de apoio quando correm.

O seu nome "caretos" vem da palavra "máscara" tendo o seu aspeto uma representação um pouco terrífica. São máscaras de latão que são pintadas de vermelho ou negro e que têm um nariz pontiagudo e com as aberturas para olhos e boca.

O seu aspeto é muito ameaçador, como "um diabo à solta". Os caretos de Podence revelam-nos as tradições rurais mais ancestrais de comunidades agrícolas que celebravam estes ritos no sentido de purificar os campos e aguardar a produção das terras que viria com a Primavera. Todo o ritual é uma tentativa de expurgar o mal de comunidades que viviam em dependência com a Natureza. É um Carnaval ainda autêntico com a memória histórica.
Conhecem-se manifestações semelhantes em outros locais de Trás-os-Montes, como Vimioso, em algumas aldeias dos concelhos de Vinhais, Bragança e mesmo no Alto Douro, como em Lazarim, no concelho de Lamego.

Em tom de Carnaval


As máscaras são quase tão antigas como o próprio homem. A palavra na sua origem latina, significa persona. As máscaras sempre tiveram uma simbologia que as ligava a um mundo invisível, que os homens tinham dificuldade em compreender.
Pensa-se que as mais antigas máscaras terão sido feitas cerca de 30.000 antes do nascimento de Jesus Cristo. Nas civilizações do Mundo Antigo, como os Egípcios a tradição de colocar uma máscara na pessoa que morria, pensava-se que ajudava à sua passagem para o outro mundo.
Os Gregos também as utilizavam não só para as suas cerimónias religiosas, como para as representações teatrais. Pensa-se que a palavra Carnaval venha das Dionísias Gregas, manifestações que se realizavam entre o século VII e VI antes da nossa era. Na civilização romana o uso de máscaras era comum em diferentes situações, inclusive em cerimónias coletivas.   
Atualmente uma das manifestações mais antigas e belas do Carnaval é o de Veneza. Figuras como Arlequim ou Pierrot e Colombina inspiram as manifestações do Carnaval, em diferentes anos. Data do século XV o primeiro baile de máscaras, onde os figurantes escondendo a sua origem podiam expor os seus sentimentos, numa altura em que o controle político era evidente para alguns grupos sociais. Hoje é uma forma de representar a memória do tempo de uma forma colorida e simbólica.

Imagens - Copyright: Carnaval de Veneza

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

No âmbito das atividades do Programa Nacional de Promoção de Saúde Oral (PNPSO), a higienista oral  do ACES Porto Ocidental- URAP pólo de Miguel Bombarda,  Dra Alexandra Queirós, realizou 4 sessões de educação para a saúde, sobre o tema Saúde Oral, Prevenção, que abrangeu 4 turmas de 5º ano e 4 turmas de 8º ano.

A participação foi bastante positiva e a Escola agradece à Dra Alexandra Queirós a sua colaboração na dinamização da atividade.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

A palavra e o mundo - No meu peito não cabem pássaros (IV)

"O mundo é um vazio desmedido que não queremos nem podemos aceitar, os homens também, as cidades, os países, os planetas também. Não há palavras que encham tanto vazio. Os livros que deixamos são obras de filigrana, fios ténues do sentido com que delimitamos o volume do que não entendemos."

Nesta etiqueta "A palavra e o mundo", por onde se destacaram perto de quarenta livros sobre a literatura e a viagem, a palavra e os espaços do mundo, um dos que em língua portuguesa mais longe chega nesse diálogo é o livro de Nuno Camarneiro, No meu Peito não batem Pássaros.

No meu peito não cabem pássaros junta três figuras maiores da Literatura do século XX, justamente, Franz Kafka, Jorge Luís Borges e Fernando Pessoa.  Junta-as a partir da leitura da vida que se contrói, de um imigrante em Nova Iorque, de um rapaz que chega a Lisboa e de uma criança que inventa coisas, formas de anunciar o que acontecerá mais tarde.

No meu Peito não batem Pássaros realiza a narrativa de três figuras a descobrirem espaços urbanos, a carregar sonhos maiores que eles, a compor palavras com a linha comum de inventar um mundo. É um livro sobre criadores, é um livro sobre cidades e ainda um livro sobre três figuras que entre a solidão e a desilusão nos definem o assombro das palavras, a linguagem para compor aquilo que é a vida de milhões, o prenúncio do mundo moderno.

No meu Peito não batem Pássaros fala-nos da vida, da memória, da morte, do esquecimento, entre os caminhos que percorremos, com o sol a nascer em nós. A infância, o consolo das histórias vividas e inventadas entre os que no tempo forjaram o azul de um aconchego e nos deram a visão de um caminho.

Livro imenso, uma sabedoria de palavras, momentos intermitentes que nos dão a linha dos olhos que procuramos para recuperar a beleza, o encontro com a respiração do amor. ainda esse sonho antigo que nos faça ser um ponto brilhante nos dias esquecidos. A beleza e o sorriso entre as cicatrizes que nos caracterizam, que nos rasgaram o espírito e o corpo até chegar ao encontro, à mão, ao perfume solar capaz de nos fazer render um novo salto, a dos pássaros que em nós voam.

Nuno Camarneiro. (2013). "Lisboa", in No meu peito não cabem pássaros. Lisboa: D. Quixote.