Antes de publicarmos semanalmente alguns tópicos sobre o livro e a
leitura, dois pequenos textos sobre o fundamento deste espaço, os Livros e essa
ideia de refúgio do mundo, a Biblioteca.
O livro é um dos objetos raros criados pela civilização humana. Por ele se construíram caminhos,
fronteiras que fundaram novas realidades. O livro alimenta a imaginação, cria a
fantasia e concede-nos a possibilidade de alimentar novos territórios para uma
esperança, feita de mundos alternativos ao que é conhecido.
O
livro constrói no universo das ideias, um realismo superior à realidade, pois
dá-nos as fronteiras ilimitadas da leitura. Embora muitos dispensem esta
chave de abrir tesouros e vidas infindáveis ela, a leitura é um imenso privilégio. É-o,
pois significa que superámos as mais baixas condições da utilidade dos dias,
que já não vivemos num quotidiano de carências, de sobrevivência e de
medo. A leitura permite ter acesso a um espaço de recolhimento, para desfrutar
momentos de lazer e de conhecimento.
O que faz a grandeza do livro é a sua essência, isto é, não a
leitura em si, mas a criação das imagens que ela suscita. Podemos dizer que a
leitura vale pela sua literacia. O livro é o único suporte de leitura que se
basta a si próprio, pelo que só depende do leitor, do seu tempo privado, ao
contrário da televisão, ou do cinema.
O livro chama-nos, carece do nosso
entusiasmo. Ler é assim, acima de tudo, o momento de construção de
imagens, “o levantar a cabeça”, imaginado essas imagens que a leitura trouxe. A
leitura, a sua essência repousa na construção dessa reflexão, nesse tempo
individual. A leitura isola o leitor, permite a imobilidade, instala o silêncio
e concede-nos um processo de contra-movimento contra a cidade, o grupo, o
barulho, o movimento, os outros, libertando-nos do tempo.
Os livros são assim os elementos de um ritual de silêncio e
descoberta, os instrumentos para a construção dum paraíso, essa divindade, de
que tanto carecemos, justamente as Bibliotecas. Com elas e neles vivemos
momentos, como respiração de recolhimento e reflexão. É dos livros e do seu
silêncio ordenado que recebemos essa energia que nos permite descobrir em
poucos anos universos inteiros. É pelos livros, pelas suas palavras, que damos
peso, estrutura ao que somos.
É na respiração das palavras que anunciamos as
formas como que vemos o mundo, e somos muito, “aquilo que as palavras ouvem”
(António Manuel Pina) e é por isso que eles são a mais bela forma de registar o
mundo e as suas cores.







