segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Reinventar os dias...

Goethe, grande vulto das letras e da cultura alemã, que viveu entre o século XVIII e XIX e que foi uma figura muito importante do movimento romântico deixou-nos várias obras que ainda hoje podemos admirar. 
Dele podemos ouvir a seguinte ideia: "Todos nós devíamos ouvir um pouco de música, ler uma boa poesia, ver um quadro bonito e, se possível, dizer algumas palavras sensatas."
Como Biblioteca o que vamos aqui deixar durante os próximos meses é a evocação de um poema, de uma leitora ou leitor e de uma obra de arte. A ideia é divulgar aspetos da cultura e da memória e realizar uma difusão de informação sobre questões que nos podem ajudar a formar uma visão do mundo. Ou tão só a reconhecer os elementos que formam aquilo que se chamou a modernidade.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Os Caretos de Podence - uma memória da História


O Carnaval é uma das tradições populares que mais ligações desfruta com o passado histórico. O Carnaval em Portugal já foi conhecido como Entrudo, a entrada para quarenta dias de jejum de preparação para a Páscoa. Muitas das tradições que comemoramos têm uma raiz histórica.
Em alguns dos casos o tempo introduziu algumas alterações adaptando-se a novas formas da sociedade. Outras permaneceram com um imaginário revelador de todo o simbolismo que o viu nascer. O Carnaval é em larga medida a comemoração do fim da longa noite do Inverno e a comemoração da Primavera que se avizinha. Nele se podem observar os cultos de fertilidade da Natureza e a sua datação em alguns casos perdem-se no tempo. Esse é o caso da aldeia de Podence, no concelho de Macedo de Cavaleiros, os conhecidos caretos que no  Carnaval chocalham as moças, são uma das mais genuínas manifestações populares portuguesas.

Os caretos de Podence têm uma raiz na cultura céltica, povo que habitou a Península Ibérica no período pré-romano. Relaciona-se com outras culturas como a existência dos povos Galaicos (Gallaeci) e Brácaros (Bracari) na Galiza e no norte de Portugal. Existem igualmente fontes históricas que relacionam as máscaras de Podence a festividades romanas, onde existiam desfiles nas ruas, onde homens seminus vestidos com peles de animais participavam em manifestações simbólicas ligadas à fertilidade.

Os caretos são rapazes solteiros na tradição atual e que se apresentam como figuras fantásticas imbuídas de valores lúdicos e pagãos e a sua aparição por dois curtos dias representa o surgimento de forças ocultas e sobrenaturais que depois são purificadas na fogueira final. Os caretos vestem-se de forma muito colorida, com material feito em lã ou linho, vindo de peças familiares e trazem chocalhos à cintura com que afugentam os elementos femininos. Levam na mão um pau de freixo ou de castanheiro que serve de apoio quando correm.

O seu nome "caretos" vem da palavra "máscara" tendo o seu aspeto uma representação um pouco terrífica. São máscaras de latão que são pintadas de vermelho ou negro e que têm um nariz pontiagudo e com as aberturas para olhos e boca.

O seu aspeto é muito ameaçador, como "um diabo à solta". Os caretos de Podence revelam-nos as tradições rurais mais ancestrais de comunidades agrícolas que celebravam estes ritos no sentido de purificar os campos e aguardar a produção das terras que viria com a Primavera. Todo o ritual é uma tentativa de expurgar o mal de comunidades que viviam em dependência com a Natureza. É um Carnaval ainda autêntico com a memória histórica.
Conhecem-se manifestações semelhantes em outros locais de Trás-os-Montes, como Vimioso, em algumas aldeias dos concelhos de Vinhais, Bragança e mesmo no Alto Douro, como em Lazarim, no concelho de Lamego.

Em tom de Carnaval


As máscaras são quase tão antigas como o próprio homem. A palavra na sua origem latina, significa persona. As máscaras sempre tiveram uma simbologia que as ligava a um mundo invisível, que os homens tinham dificuldade em compreender.
Pensa-se que as mais antigas máscaras terão sido feitas cerca de 30.000 antes do nascimento de Jesus Cristo. Nas civilizações do Mundo Antigo, como os Egípcios a tradição de colocar uma máscara na pessoa que morria, pensava-se que ajudava à sua passagem para o outro mundo.
Os Gregos também as utilizavam não só para as suas cerimónias religiosas, como para as representações teatrais. Pensa-se que a palavra Carnaval venha das Dionísias Gregas, manifestações que se realizavam entre o século VII e VI antes da nossa era. Na civilização romana o uso de máscaras era comum em diferentes situações, inclusive em cerimónias coletivas.   
Atualmente uma das manifestações mais antigas e belas do Carnaval é o de Veneza. Figuras como Arlequim ou Pierrot e Colombina inspiram as manifestações do Carnaval, em diferentes anos. Data do século XV o primeiro baile de máscaras, onde os figurantes escondendo a sua origem podiam expor os seus sentimentos, numa altura em que o controle político era evidente para alguns grupos sociais. Hoje é uma forma de representar a memória do tempo de uma forma colorida e simbólica.

Imagens - Copyright: Carnaval de Veneza

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

No âmbito das atividades do Programa Nacional de Promoção de Saúde Oral (PNPSO), a higienista oral  do ACES Porto Ocidental- URAP pólo de Miguel Bombarda,  Dra Alexandra Queirós, realizou 4 sessões de educação para a saúde, sobre o tema Saúde Oral, Prevenção, que abrangeu 4 turmas de 5º ano e 4 turmas de 8º ano.

A participação foi bastante positiva e a Escola agradece à Dra Alexandra Queirós a sua colaboração na dinamização da atividade.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

A palavra e o mundo - No meu peito não cabem pássaros (IV)

"O mundo é um vazio desmedido que não queremos nem podemos aceitar, os homens também, as cidades, os países, os planetas também. Não há palavras que encham tanto vazio. Os livros que deixamos são obras de filigrana, fios ténues do sentido com que delimitamos o volume do que não entendemos."

Nesta etiqueta "A palavra e o mundo", por onde se destacaram perto de quarenta livros sobre a literatura e a viagem, a palavra e os espaços do mundo, um dos que em língua portuguesa mais longe chega nesse diálogo é o livro de Nuno Camarneiro, No meu Peito não batem Pássaros.

No meu peito não cabem pássaros junta três figuras maiores da Literatura do século XX, justamente, Franz Kafka, Jorge Luís Borges e Fernando Pessoa.  Junta-as a partir da leitura da vida que se contrói, de um imigrante em Nova Iorque, de um rapaz que chega a Lisboa e de uma criança que inventa coisas, formas de anunciar o que acontecerá mais tarde.

No meu Peito não batem Pássaros realiza a narrativa de três figuras a descobrirem espaços urbanos, a carregar sonhos maiores que eles, a compor palavras com a linha comum de inventar um mundo. É um livro sobre criadores, é um livro sobre cidades e ainda um livro sobre três figuras que entre a solidão e a desilusão nos definem o assombro das palavras, a linguagem para compor aquilo que é a vida de milhões, o prenúncio do mundo moderno.

No meu Peito não batem Pássaros fala-nos da vida, da memória, da morte, do esquecimento, entre os caminhos que percorremos, com o sol a nascer em nós. A infância, o consolo das histórias vividas e inventadas entre os que no tempo forjaram o azul de um aconchego e nos deram a visão de um caminho.

Livro imenso, uma sabedoria de palavras, momentos intermitentes que nos dão a linha dos olhos que procuramos para recuperar a beleza, o encontro com a respiração do amor. ainda esse sonho antigo que nos faça ser um ponto brilhante nos dias esquecidos. A beleza e o sorriso entre as cicatrizes que nos caracterizam, que nos rasgaram o espírito e o corpo até chegar ao encontro, à mão, ao perfume solar capaz de nos fazer render um novo salto, a dos pássaros que em nós voam.

Nuno Camarneiro. (2013). "Lisboa", in No meu peito não cabem pássaros. Lisboa: D. Quixote.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

A palavra e o mundo - No meu peito não cabem pássaros (III)

O professor circula pelas bancadas distribuindo as dissertações corrigidas e classificadas. Ao chegar a Fernando, entrega-lhe a sua com um gesto lento e reprovador.
- É uma pena, senhor Fernando, uma verdadeira pena.
Depois afasta-se para iniciar a aula. Os colegas riem num escárnio acerado que fere o orgulho de Fernando.

A nota é miserável, a mais baixa que teve em todas as disciplinas. Fernando percorre as páginas sem encontrar correcções, uma ou outra vírgula, uma gralha evidente e nada mais. No final do texto está um comentário do professor.

"O senhor é sem dúvida dotado de uma finíssima inteligência, não há como negá-lo. O estilo refinado da sua escrita eleva a prosa e dá cor e alma a tudo o que trata. O senhor Fernando tem mão e cabeça de poeta, mas infelizmente deixa que seja a poesia a tomar conta de si, e não o contrário, como seria desejável.
O mundo, senhor Fernando, é para ser visto e entendido, não inventado."

A última frase ressoa imensa dentro de Fernando. sente-se a ponto de entender uma verdade, algo importante que lhe será claro assim que acalmar o espírito e a vertigem. O mundo não é para ser inventado, repete Fernando, o mundo é para ser visto e entendido.
A voz austera e grave do professor arremessa frases que os seus colegas ouvem como certas, hão-de guardá-las nos cérebros mansos nem que tenham de deitar fora outras que por lá andavam. Um dia vão repeti-las e multiplicá-las para que continuem a ser verdade, ouvidas e entendidas, nunca inventadas.

Como pode alguém domar a poesia? Um poeta é apenas um lugar por onde o poema passa. Se um escritor inventa mundos é porque há mundos que querem ser inventados.
A vertigem aumenta em vez de diminuir. Fernando teme uma nova febre ou uma apoplexia. Imagina as palavras a rebentarem dentro de si, derramando-as pelas entranhas e misturando-se no sangue. Palavras que saem de onde estavam e se perdem no corpo, fervendo, inchando, queimando. Como pássaros que não cabem.

A lição termina e os colegas levantam-se para sair. Ao passarem por ele, trocam alguns comentários em voz alta, para que os ouça e se sinta pior. Por fim, também ele se levanta e dirige-se em passo lento até à saída. Vai enjoado nos passos, mareado com tanto que acaba de entender. Aquela foi uma aula onde aprendeu muito, talvez a aula mais importante a que alguma vez assistiu.

Ao chegar à rua, levanta a cabeça e apercebe-se do ridículo de tudo. Do seu ridículo, do professor, dos colegas, da universidade onde o saber gira há séculos à procura de uma janela. Que inútil tanta pedra para guardar tão pouca coisa.

Nuno Camarneiro. (2013). "Lisboa", in No meu peito não cabem pássaros. Lisboa: D. Quixote.
Imagem - Copyright - Livres pensantes.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

A palavra e o mundo - No meu peito não cabem pássaros (II)

Um corpo sem peso que se escusa a pensar. A imponderabilidade dissolve hierarquias e ficam os pés iguais à cabeça e a dedos esticados. Um corpo que não tem peso não sente a terra nem os homens e entrega-se às correntes e ao tempo. O peso de um homem é âncora enterrada na realidade.
Os peixes e os pássaros não sabem cair e é por isso que guardam o mundo e o emprestam aos deuses que vão e vêm na cabeça dos graves. O deus de deus há-de ser um passarão que voa pelas coisas sérias.

Jorge está deitado num rio largo e fundo. A água fria sustém-lhe o corpo e enche-lhe os sentidos de um ardor vital, é tudo azul e fresco, tudo muito bonito. Para boiar nas águas, é fundamental deixar de ouvir, fechar os ouvidos por dentro e cair inteiro num silêncio líquido. É possível boiar na água sem água, basta encher-se de silêncio.

O Verão decorre sereno e igual, o sol alonga as horas e sobram dias inteiros em que nada tem de acontecer. Num quadro pendurado não passa o tempo porque nada muda, a beleza é uma arte de fugir ao tempo, de o confundir, de o tornar espaço e azul. Já em terra, Jorge embrulha-se numa toalha e encosta-se à família. Ninguém fala, estão concentrados no jornal, na renda e nos livros. Têm um modo de amar que prescinde de palavras, basta-lhes estar ali e saber que não estão sós. (...)

Pelo horizonte dissolvem-se planícies pintadas de erva. Faltam nomes para tantos tons de uma mesma cor e Jorge inventa-os: vesbellho, letusto, zafaio, lusvigo. Depois esquece-se a que pertencem, mas não têm importância.
As sombras das nuvens correm pela erva e essa é outra cor ainda, uma cor cor escura a correr. Que nome tem uma cor que foge? Jorge deita-se a observar as nuvens. É um jogo antigo, pegar no branco e moldá-lo com a imaginação até que ele seja um dragão, um monstro, uma sereia. Imagem, "imago, imitaginem." Quem foi o primeiro a fazer ideias com nuvens?

Um tigre passa-lhe por cma e é dourado como poucos. Leva um brilho novo e, ao desfazer-se, fica à vista uma bola amarela que não é daquele céu. Jorge fita a bola de luz até os olhos começarem a doer. é um sol de outros, pensa, uma luz que anda perdida. à memória chegam-lhe as histórias fantásticas lidas muitas vezes, mundos que acabam, viagens pelo espaço, seres longínquos capazes de destruir ou de criar. Aquele amarelo é cheio de possibilidades e não há nuvens que o possam voltar a esconder.

Nessa mesma noite, quando Jorge fecha os olhos para adormecer, a bola amarela espera-o brilhante. Foi a primeira vez que dormiu com uma luz acesa por dentro e passou a ser essa a cor da sua noite.

Nuno Camarneiro. (2013). "Rio Negro", in No meu peito não cabem pássaros. Lisboa: D. Quixote.