quarta-feira, 29 de novembro de 2017

AULAS SEM FRONTEIRAS

Os alunos do 7º ano , turma D, tiveram a oportunidade de participar numa aula aberta no âmbito do programa Aulas sem Fronteiras. A dinamizadora,  Jamila EL-AKHAL, falou-nos de diversos aspetos que caraterizam o  seu país,  Marrocos. A aula, que deveria ter durado um tempo durou dois, pois o entusiasmo a isso obrigou tanto a   nossa convidada como a Dra. Marília, que dispensou a turma no segundo tempo. 

O balanço final foi surpreendente. De facto, da observação direta resultou uma avaliação extremamente positiva das competências de  compreensão e expressão oral dos alunos do 7º ano..... em francês, naturalmente! 

Enquanto professora bibliotecária e de francês, o meu especial agradecimento à Jamila. 




terça-feira, 28 de novembro de 2017

SEMANA DA CIÊNCIA E DA TECNOLOGIA 

De 20 a 26 de novembro, a nossa escola celebrou a Semana da Ciência e da Tecnologia , proporcionando aos nossos alunos o contacto pessoal com duas especialistas de diferentes  áreas do conhecimento. 
A primeira, a Dra Regina Gouveia, professora do Ensino Secundário aposentada,  agraciada com a comenda da Ordem da Instrução Pública,premiada com o prémio Rómulo de Carvalho e autora de vários textos para o público infanto juvenil, falou-nos da história da química. Para melhor compreensão dos conteúdos , recorreu a várias experiências que mobilizaram a atenção e o interesse de todos os que assistiram às sessões realizadas. 





A segunda atividade contou com a presença da cientista Isabel Iglesias , do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Porto (CIIMAR) , que nos falou da sua área de investigação , com o objectivo de melhor nos fazer conhecer a área marinha que se estende da região do  Porto até à Galiza.  





segunda-feira, 27 de novembro de 2017

A palavra e o mundo - Breves notas sobre música (II)

"E, sim, um grande especialista em música e na natureza humana poderá dizer com acerto, pela observação da fisionomia dos ouvintes. Mozart!, Bach, Chopin! E talvez até isto: silêncio". (1)

A música. Um voo de pelicano no azul, ou o som das hortênsias no vale das Flores, uma ilha a escutar o mar, como uma caixa de música. O silêncio. Ouvi-lo como uma substância que sobra da música, que se espalhou pelos objectos, pelos nossos espaços. E ela própria, como a ver, pois não tem a música, uma luz própria, e assim, saberá qualquer um ouvir um som, construir essa iluminação? Em cada rosto que ouve um som, como encontrar aquilo que não se ouve, como se vê esse silêncio em cada um? É essa a porção capaz de mudar as coisas individualmente?

A batida dos sons podem eles fazer mudar a substância material dos espaços e nesse caso, a música seria um pensamento, o elemento vivo, uma forma de absorver instantes e de os reconduzir a um elemento único, vivo, nós. O silêncio é esse ponto, onde a luz musical se completa, onde se sustenta a raiz do som que contemplamos, a sombra que saiu desse espanto e o ombro que nos dá conforto.

No fim o som, todo ele, para anunciar um sentimento, formas essenciais de ser, essa forma de construção de um espaço, que é a atenção a cada biblioteca de sons individuais. Produzir música, ouvir um som que é também a contemplação a um mundo exige pois olhar, ver o que nos chega com curiosidade e espanto.Breves notas sobre música de Gonçalo M. Tavares é um pequeno livro sobre como o pensamento pode questionar os sons e compreender-nos a nós, dentro dessa magia do silêncio.

(1) - Gonçalo M. Tavares. (2015). Breves notas sobre música. Lisboa: Relógio d´Água.
Imagem - Copyright - Emmanuel de Witte, Interior com uma mulher tocando virginal, 1665.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

A palavra e o mundo - Breves notas sobre música (I)

A matemática não é para ser cantada, mas podemos imaginar uma orquestra em que cada um dos seus elementos desenvolva equações. Que o canto ou o som de um instrumento sejam semelhantes ao percurso da matemática quando tenta resolver um problema difícil. Que o som seja uma forma, um percurso, em que se vai do complexo para o simples, da grande confusão para o número único que soluciona e acalma. Música como raciocínio que começa no primeiro som, que é problema, e chega ao fim da música fazendo existir o último som, o que soluciona.

Mas há músicas em que o final não finaliza, mas começa; em que o fim é portanto, ameaça ou expectativa, em que o fim não pede uma passividade satisfeita, mas exige, sim, ao ouvinte, pelo contrário, que se levante porque os seus músculos e o seu raciocínio lhe pedem acção.

Steiner lembra a misteriosa frase de Leibniz "quando canta para Si, Deus canta álgebra", Leibniz que associa a linguagem à "razão audível", à razão que se faz ouvir; razão, portanto, que ocupa o espaço que vai da boca que fala ao ouvido que ouve. Uma racionalidade que se faz som: falamos para os outros, ouvimos o outro.

Mas, então, como pode haver tanto mistério no canto por vezes aparentemente tão exacto?
Uma racionalidade misteriosa que se faz som - eis, talvez, uma definição da música que mais nos encanta.
Se Deus canta uma música exacta, se DEus canta o exacto; ou se Deus, pelo contrário, canta o confuso, o ambíguo, o não resolvido? - eis a dúvida que se pode colocar.

Deus canta versos crípticos ou Deus canta a resolução infalível de uma longa equação?
Meu caro, dirão uns: é sempre preferível entender.
Meu caro, dirão outros: apesar de tudo, apesar de tudo, é preferível não entender, não entender, não entender.

Gonçalo M. Tavares. (2015). Breves notas sobre música. Lisboa: Relógio D' Água.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

A palavra e o mundo - As cidades invisíveis (II)

"(...) quem ouve só fixa as palavras que deseja (...) Quem comanda o conto não é a voz: é o ouvido" (pág. 142)

Em As cidades invisíveis, Italo Calvino revela-nos como a cidade se constrói, se delimita, se habita com o seu nome, com a morte, com os espaços celestes, com a respiração de um tempo infinito. As cidades ocultas, as que apenas se pressentem e as que indiferentemente conhecemos, as que estão em toda a parte. E que gestos, que modos fazem transformar a cidade, os seus espaços, a sua transfiguração, de modo a que ela seja "cristalina, transparente como uma libélula"(pág. 165). A cidade dos enraízados e a dos que viajam, dos que sonham, dos que ambicionam o sonho da errância, como se revivem, como se libertam? E não é cada cidade uma junção de todas as que nela viveram, ousaram ser um espaço acima de qualquer tempo?

As cidades invisíveis dá-nos ainda um diálogo fascinante entre Marco Polo e Kublai Kan, o imperador dos Tártaros e remete-nos para as possibilidades da construção do Império,  de qualquer um. O que pode o viajante Marco Polo explicar ao Imperador pelas suas viagens, as suas descrições. As palavras, o pensamento, a memória, o desejo de Marco Polo permitirá a Kublai Kan compreender a filigrana que organiza a cidade? A viagem de Marco Polo ou o Império de Kublai Kan são apenas o reconhecimento do pouco que a sua vida terá, que a nossa vida terá, no sonho do tanto inconcebível de concretizar, das cidades fixadas em palavras, ou perdidas em fórmulas inverosímeis.

No fim, pode ser traçada uma ordem invisível que governe as cidades, que nos faça compreender a sua orgânica como organismo vivo? O  real, a materialidade do império reduzido à sua essência, conduz-nos a um intrigante nada. A inútil concretização do nada, nas ruínas dos conquistadores.

Na inútil tentativa de encontrar a cidade descontinuada no espaço e no tempo, encontrá-la significa que no desconcerto da vida, precisamos saber reconhecer a força bela que a poderá fazer renascer, o que de melhor pode viver em nós. É a cidade invisível que vive acima do que é visível, do que não vemos, das ruínas do tempo. A cidade invisível também como formulação de uma esperança, a energia para uma libertação, a que permite construir caminhos novos, o progresso civilizacional que alguns sonham e que importa reconstruir em cada geração.

Italo Calvino.(2012). As cidades invisíveis. Lisboa: Quetzal, pág. 142
Imagem, "Ciutat", Tomasz Pietryk

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

A palavra e o mundo - As cidades invisíveis (I)


(...) Recém-chegado e ignorando completamente as línguas do Levante, Marco Polo não podia exprimir-se de outro modo que não fosse retirando objectos das suas malas: tambores, peixes salgados, colares de dentes de facóquero, e indicando-os com gestos, saltos, gritos de espanto ou de horror, ou imitando o latido do chacal e o piar da coruja. (…)

Mas o que tornava preciosos a Kublai todos os factos ou notícias referidos pelo seu inarticulado informador era o espaço que ficava à volta deles, um vazio não preenchido por palavras. As descrições   das cidades visitadas por Marco Polo tinham esse dom: podia andar-se por elas com o pensamento, nelas podíamos perder-nos, para apanhar fresco, ou fugir a correr. Com o passar do tempo, nos relatos de Marco as palavras foram substituindo os objectos e os gestos: primeiro exclamações, nomes isolados, áridos verbos, depois pedaços de frase, discursos ramificados e frondosos, metáforas e hipérboles. (…)


Kublai Kan apercebera-se de que as cidades de Marco Polo eram todas parecidas, como se a paisagem de uma para a outra não implicasse uma viagem mas sim uma troca de elementos. Agora, de todas as cidades que Marco lhe descrevia, a mente do Grão Kan partia por sua conta e risco, e desmontada a cidade peça a peça, reconstruía-a de outro modo, substituindo ingredientes, deslocando-os, invertendo-os. Marco continuava a informá-lo da sua viagem, mas o imperador já não o ouvia, interrompia-o: – De agora em diante serei eu a descrever as cidades e tu verificarás se existem e se são como eu as pensei. (…)


Do número das cidades imagináveis temos de excluir aqueles cujos elementos se somam sem um fio condutor que os ligue, sem uma regra interna, uma perspectiva, um discurso. São cidades como sonhos: todo o imaginável pode ser sonhado mas também o sonho mais inesperado é um enigma que oculta um desejo, ou o seu contrário, um terror. As cidades como os sonhos são construídos de desejos e de medos, embora o fio do seu discurso seja o secreto, as suas regras absurdas, as perspectivas enganosas, e todas as coisas escondem outra. (…)


O Grão Kan contempla um império recoberto de cidades que têm peso sobre a terra e sobre os homens, a abarrotar de riquezas e de movimento, repleto de ornamentos e de incumbências, complicado de mecanismos e de hierarquias, inchado, largo, pesado. “É o próprio peso que está a esmagar o império”, pensa Kublai, e nos seus sonhos agora surgem cidades leves como papagaios de papel, cidades perfumadas como rendas, cidades transparentes como mosquiteiros, cidades nervuras de folhas, cidades linhas da mão, cidades filigrana para ver através da sua opaca e fictícia espessura.



Italo Calvino. As cidades invisíveis. Lisboa:Teorema. 2011.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

A palavra e o mundo


A palavra e o mundo é a designação que escolhemos para a etiqueta que organizará um conjunto de propostas de leitura, exploração de temáticas à volta de uma ideia chave, o livro e a viagem. Literatura de viagens no seu sentido mais lato, mas também outras formas de viajar. A viagem dentro do livro, aquela que nos permite transformar um sentido, uma forma de ver o mundo, de nele escrever o que tentamos ser. A viagem como descoberta, entre as suas dimensões físicas e espirituais.

Assim, nos dias à frente, na feliz expressão de Sophia faremos a apresentação de textos / livros / autores que se interessaram por abordar a viagem.
Conhecer o mundo é ir ao encontro de diversas culturas, de diferentes cores, de ver a vida. Como John Steinbeck nos soube dizer há várias décadas é a viagem que nos faz. É ela que nos faz ser o traçado mais importante da geografia, é ela que nos faz descobrir os poemas do planeta, em cada recolha de sal e pó. É a viagem que nos organiza, nos identifica e é nela que a variedade do mundo nos recria de originalidade.

Coma periodicidade possível faremos uma proposta de livros que nos permitam construir a viagem nas suas diferentes dimensões. A escolha procurou ligar ao currículo de estudo da Literatura e do Português, mas também pela descoberta dos percursos interiores que as palavras fazem nascer dentro das suas linhas. A viagem também como como forma de aprendizagem, pois é nela que podemos compreender a beleza do planeta, a sua diversidade, o belo entre os momentos de imperfeição de que é composta a vida.

(1) John Steinbeck, citado do prefácio de Gonçalo Cadilhe, Um lugar dentro de nós. (2012). Lisboa: Clube do Autor. Imagem - Ilha de São Miguel, Açores.