Desenho imagens, faço o entalhamento da pedra para
desenhar sonhos, os meus instantes de eternidade. Quando me conheci apenas os
encontrei e nada mais tinha. Mais tarde conheci uma família e uns tantos
amigos, onde encontrei formas de beleza que nem sempre compreendi. Amei uma
vez, mas perdi esses meus amados. A vida e a morte conquistaram-nos e nem nos
meus desenhos de pedra conheci o seu coração, os seus segredos por
revelar.
Tenho deixado em estátuas e abóbadas o que sinto pelo mundo, pois este é assombroso, inexplicável e amargo. Fiquei com o meu espírito, é ele que me permite voar, acima de qualquer figura mundana. Só no mundo, desenhei-me em sonhos e nem sempre eles me libertaram desse sentimento de abandono. Penso às vezes no amor. No que tive, no que me fascinou de beleza, no que se perdeu quando o desejo nasceu como um fantasma e não permitiu que se realizasse o essencial. Neste jogo de dúvidas, há os que nos acusam e os que nos desculpam. Em nenhum caso compreendem a nossa renúncia, o nosso espírito voando sobre a matéria, a nossa fuga à solidão, fruto desse medo da vida e da morte, onde imaginamos o amor, como suporte da nossa dimensão humana.
Os altares onde imagino a vida, a pintura
de uma abóbada, uma escultura de bronze, um poema perdem o sentido da sua
criação. Quem compreenderá o espírito que a forjou, a dedicatória de vida nela
inscrita? Desenho esculturas porque quero parar o tempo, fotografar instantes
de vida, anunciar ao futuro na pedra que outros verão, os jogos de luz, ou as
sombras que quis amar. O criador compreenderá e amará esta metamorfose do
Universo com que as minhas estátuas se movem no tempo. As minhas estátuas foram
esculpidas com o sopro do corpo perfeito, a beleza que me suspendia dos
momentos, como que a própria perfeição, aquela que se basta a si própria e que
é imutável.Tenho deixado em estátuas e abóbadas o que sinto pelo mundo, pois este é assombroso, inexplicável e amargo. Fiquei com o meu espírito, é ele que me permite voar, acima de qualquer figura mundana. Só no mundo, desenhei-me em sonhos e nem sempre eles me libertaram desse sentimento de abandono. Penso às vezes no amor. No que tive, no que me fascinou de beleza, no que se perdeu quando o desejo nasceu como um fantasma e não permitiu que se realizasse o essencial. Neste jogo de dúvidas, há os que nos acusam e os que nos desculpam. Em nenhum caso compreendem a nossa renúncia, o nosso espírito voando sobre a matéria, a nossa fuga à solidão, fruto desse medo da vida e da morte, onde imaginamos o amor, como suporte da nossa dimensão humana.
Olho muitas vezes algumas das minhas
criações e vejo-me como o homem que ajudou a esburacar a Terra, desfazendo
montanhas para construir as formas de renúncia da natureza, aos pequenos deuses
do Homem, aos instantes materiais do Universo. Nesses instantes por onde cada
um colecciona uma montra de mortos, graves e impassíveis, como o vento, reparo
na beleza dos meus modelos e lembro-me de Cecchino dei Bracchi. O sorriso que
deixei nas minhas estátuas foi o sopro da criação de um corpo, os gestos e
pensamentos que em silêncio permitiram derrotar a morte, pois é o seu instante
anterior e esclarecido. São testemunhos de vida, isso que na galeria de mortos
que conheci, as minhas estátuas cumprem a vida, pois a morte apenas se anula a
si própria, não as pálpebras e os rostos que iluminei de cor e pátina.
A morte é apenas o seu esquecimento, a espiral de destruição de si própria. Os que desenhei construíram-se num espírito que soube desenhar-se acima das leis conhecidas do Universo. Saberão eles na sua irrealidade que foram a matéria viva e definitiva da pedra, elemento universal do Cosmos? Mesmo que o não o saibam, eles são no seu sono, a matéria da vida que se condensou, o sinal visível das noites estreladas em terraços que amaram como a brisa lustral de todas as manhãs.
A morte é apenas o seu esquecimento, a espiral de destruição de si própria. Os que desenhei construíram-se num espírito que soube desenhar-se acima das leis conhecidas do Universo. Saberão eles na sua irrealidade que foram a matéria viva e definitiva da pedra, elemento universal do Cosmos? Mesmo que o não o saibam, eles são no seu sono, a matéria da vida que se condensou, o sinal visível das noites estreladas em terraços que amaram como a brisa lustral de todas as manhãs.
A
partir das leituras:
Marguerite Yourcenar, “CECCHINO DEI BRACCHI”; “FEBO DEL POGGIO”, in “Sixtine”, Revue bleue, nº 22, 21 de Novembro de 1931, págs. 684-687.
Imagem – Estátua de David (1504) – Miguel Ângelo, Galleria dell’Accademia, Florença.
Marguerite Yourcenar, “CECCHINO DEI BRACCHI”; “FEBO DEL POGGIO”, in “Sixtine”, Revue bleue, nº 22, 21 de Novembro de 1931, págs. 684-687.
Imagem – Estátua de David (1504) – Miguel Ângelo, Galleria dell’Accademia, Florença.

