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sexta-feira, 2 de março de 2018

O livro e o leitor (II)

Um leitor por dia - celebrar os momentos íntimos da leitura!

A leitura criou possibilidades de esperança e de “utopia”, esta como processo em muitos séculos de universos quotidianos, onde em especial a mulher pôde fundir novas ideias para a sua realidade diária. 
Desse universo de leitura, importa abordar, ainda que ligeiramente (pelas limitações deste suporte) como a escrita pôde libertar processos culturais que organizavam o essencial da vida social. E quem diz a escrita diz ainda num valor mais abrangente e social, a leitura, nos seus espaços de conquista ao mundo.
Se a leitura no feminino teve uma possibilidade de evolução ao longo dos séculos, sobretudo a partir do século XVIII, a escrita viveu nesse género, grandes dificuldades de se concretizar.
Mesmo uma figura como Viriginia Woolf, já no século XX se interrogava como era difícil superar a imagem tradicional da mulher e avançar com uma escrita que revelasse a sua integridade. “O discurso livre das mulheres”, disse Virginia Woolf faria depender o futuro da arte do romance e conceder uma vida de liberdade aos dois. Desse longo caminho vejamos em pequenas imagens posteriores, como a arte da representação pictórica e da palavra as definiram, nessa difícil atividade da leitura e da escrita.

Imagem: Copyright - Marguerite Yourcenar

Uma obra de arte por semana (II)

Uma obra de arte por dia - Interpretar o real, reconstruir o mundo!

Uma obra de arte por dia - Interpretar o real, reconstruir o mundo!
A cartografia também é uma obra de arte. Georg Wilhelm Steller fez essa aventura em costas desconhecidas à procura da fauna e da flora ainda não reconhecida.
“Ao romper do dia seguinte,
Dia de Santo Elias,
Steller foi a terra. Dez horas,
lhe concedeu Bering, já com o medo
escrito na fronte, para uma excursão científica.
De um azul profundo estava então a água e também
as florestas que cresciam mesmo até à costa
marítima."
W. G. Sebald. (2012). “XIV”. Do natural. Lisboa: Quetzal.


Um poema por semana (II)

Um poema por dia - a imaginação para iluminar ou compreender o real!

“Azul, o azul rouco
o azul sem cor
luz gémea da sede
Acerca deste rigor tenho uma
palavra a dizer
uma sílaba a salvar desta
aridez
Asa ferida, o olhar arrastado
pela pedra calcinada
húmido ainda de ter pousado à
sombra
de um nome o teu:
amor do mundo,
amor de nada.

Eugénio de Andrade, “Azul”, in Poesia Completa

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

O livro e o leitor (I)

Um leitor por dia - celebrar os momentos íntimos da leitura!


Rembrandt pintou durante toda a sua vida quadros ligados à velhice, pois interessou-se pelos traços de fragilidade ligados à última fase da vida. 
No quadro vemos o corpo coberto com um material sumptuoso e apenas descortinamos a mão e o rosto enrugado. O livro (O velho testamento) parece emitir uma luz própria, enquanto a senhora idosa com a mão espalmada em página aberta lê atentamente o texto. 
É um quadro sobre uma leitura com mais dificuldade pela idade, mas também revela atenção, um cuidado entre a leitora e a obra. 
Embora o Renascimento tenha recuperado os valores da Antiguidade Clássica, neste domínio da velhice o quadro de Rembrandt recupera uma dignidade da velhice e dá ao texto uma autoridade que supera esse património. 
Há no quadro uma autoridade que vem da leitura e um isolamento do mundo que lhe confere substância e liberdade.
 A Profetisa Ana (Mãe de Rembrandt), 1631, Rijksmuseum, Amesterdão

Uma obra de arte por semana (I)

Uma obra de arte por dia - Interpretar o real, reconstruir o mundo!
As estátuas são formas humanas onde fazemos repousar um sentido de perfeição, uma pureza de linhas capaz de guardar no tempo os nossos ideias de beleza, a revelação de emoções que queremos exprimir em dias mais sucessivos que a vida que nos é dada viver. 
Ter sido é a referência da posteridade, essa incapacidade de admirar o exposto sem se saber realmente como se foi, o quanto se foi. Mas isso pouco importa para os admiradores do futuro, os que vierem de séculos por nascer. 
Por agora vive numa eternidade, este nu brilhante desenhado na pedra como uma carícia continuada de mãos e pó deslizando em formas construídas. A estátua é um momento de solidão, o contorno das emoções desenhadas na pedra, a perfeição de um sentido vivo, imaginado, pensado. 
A estátua oferece-se à eternidade como a plenitude de um momento sagrado, quando a beleza apenas existia. Quando a vida se aproximava só, ainda sem tentações de tempo. A estátua tem múltiplas vidas, desde que se vai formando pela mão do escultor que compreende o seu material, o formaliza em conceitos de substância até que ela própria ilumina o real e a vida dos que a contemplam. 
A estátua estará exposta ao ruído do mundo, às tentativas devoradoras do tempo e como a vida de qualquer humano sofrerá adoração, admiração ou indiferença.

Estátua de David (1504) – Miguel Ângelo, Galleria dell’Accademia, Florença.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Dos livros

Antes de publicarmos semanalmente alguns tópicos sobre o livro e a leitura, dois pequenos textos sobre o fundamento deste espaço, os Livros e essa ideia de refúgio do mundo, a Biblioteca.


O livro é um dos objetos raros criados pela civilização humana. Por ele se construíram caminhos, fronteiras que fundaram novas realidades. O livro alimenta a imaginação, cria a fantasia e concede-nos a possibilidade de alimentar novos territórios para uma esperança, feita de mundos alternativos ao que é conhecido. 
O livro constrói no universo das ideias, um realismo superior à realidade, pois dá-nos as fronteiras ilimitadas da leitura. Embora muitos dispensem esta chave de abrir tesouros e vidas infindáveis ela, a leitura é um imenso privilégio. É-o, pois significa que superámos as mais baixas condições da utilidade dos dias, que já não vivemos num quotidiano de carências, de sobrevivência e de medo. A leitura permite ter acesso a um espaço de recolhimento, para desfrutar momentos de lazer e de conhecimento.

O que faz a grandeza do livro é a sua essência, isto é, não a leitura em si, mas a criação das imagens que ela suscita. Podemos dizer que a leitura vale pela sua literacia. O livro é o único suporte de leitura que se basta a si próprio, pelo que só depende do leitor, do seu tempo privado, ao contrário da televisão, ou do cinema. 
O livro chama-nos, carece do nosso entusiasmo. Ler é assim, acima de tudo, o momento de construção de imagens, “o levantar a cabeça”, imaginado essas imagens que a leitura trouxe. A leitura, a sua essência repousa na construção dessa reflexão, nesse tempo individual. A leitura isola o leitor, permite a imobilidade, instala o silêncio e concede-nos um processo de contra-movimento contra a cidade, o grupo, o barulho, o movimento, os outros, libertando-nos do tempo. 

Os livros são assim os elementos de um ritual de silêncio e descoberta, os instrumentos para a construção dum paraíso, essa divindade, de que tanto carecemos, justamente as Bibliotecas. Com elas e neles vivemos momentos, como respiração de recolhimento e reflexão. É dos livros e do seu silêncio ordenado que recebemos essa energia que nos permite descobrir em poucos anos universos inteiros. É pelos livros, pelas suas palavras, que damos peso, estrutura ao que somos. 
É na respiração das palavras que anunciamos as formas como que vemos o mundo, e somos muito, “aquilo que as palavras ouvem” (António Manuel Pina) e é por isso que eles são a mais bela forma de registar o mundo e as suas cores. 

Um poema por semana (I)

Um poema por dia - a imaginação para iluminar ou compreender o real!
Nome comum: Jasmim-dos-Poetas

Percorria ao anoitecer os jardins
da cidade à procura das flores
oficiais - sobem amparadas
e perfumam com a memória
do chá as ruas irregulares.
Levava uma tesoura de unhas,
insuficiente e desnecessária porque
não colhia nada que fosse vivo.
Restavam-me frases livres,
páginas dobradas, cadeiras desiguais
e os pratos vazios deixados
aos gatos.
O primeiro poema encontrei-o
numa dessas buscas
debaixo da árvore maior,
no ferro que sustenta a copa,
preso com uma mola da roupa
.

Curso intensivo de jardinagem / Margarida Ferra. Lisboa: & ETC. 2010.

Reinventar os dias...

Goethe, grande vulto das letras e da cultura alemã, que viveu entre o século XVIII e XIX e que foi uma figura muito importante do movimento romântico deixou-nos várias obras que ainda hoje podemos admirar. 
Dele podemos ouvir a seguinte ideia: "Todos nós devíamos ouvir um pouco de música, ler uma boa poesia, ver um quadro bonito e, se possível, dizer algumas palavras sensatas."
Como Biblioteca o que vamos aqui deixar durante os próximos meses é a evocação de um poema, de uma leitora ou leitor e de uma obra de arte. A ideia é divulgar aspetos da cultura e da memória e realizar uma difusão de informação sobre questões que nos podem ajudar a formar uma visão do mundo. Ou tão só a reconhecer os elementos que formam aquilo que se chamou a modernidade.