A palavra e o mundo

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"Como é bela uma rua de Inverno! Ao mesmo tempo explícita e obscura. Aqui, é possível traçar vagamente avenidas direitas e simétricas feitas de portas e janelas; aqui, debaixo dos candeeiros, flutuam ilhas de luz coada, por onde passam, rapidamente iluminados, homens e mulheres que, apesar de toda a sua miséria e desmazelo, transportam qualquer coisa de irreal, um ar de triunfo, como se tivessem fugido da vida, iludida por quem a despojou, erra sem eles. Mas, mesmo assim, ainda estamos apenas a deslizar suavemente pela superfície das coisas. (...)
Como é bela uma rua de Londres, com as suas ilhas de luz, e os longos arvoredos de escuridão, e num dos lados, talvez, um espaço relvado salpicado de árvores, onde a noite se enrosca naturalmente para dormir, e quando se atravessa o gradeamento de ferro se ouvem aqueles pequenos estalidos e a agitação das folhas e dos gravetos, o que pressupõe o silêncio das campos em redor, o piar de uma coruja, e ao longe o ruído de um comboio a passar no vale.
Mas estamos em Londres, lembremo-nos; bem acima das árvores nuas há molduras de luz oblongas, de um amarelo-alaranjado-janelas; existem pontos de luz a brilhar; imóveis, como estrelas baixas - candeeiros; este espaço vazio que contém o campo e o seu sossego, é apenas um bairro de Londres, constituído por escritórios e casas,...
os acenos das chamas nas lareiras, e as incidências de luz projectadas pelos candeeiros sobre a privacidade de uma qualquer sala, as suas poltronas, os papéis, a porcelana, a mesa de embutidos, a figura de uma mulher a contar atentamente o número exacto de colheres de chá que... Olha para a porta, como se estivesse a ouvir tocar, lá em baixo, e alguém a perguntar: "Ela está em casa?"




"Eu esperava ser tocado pela elegânica, não pela imortalidade. (...) É uma prova daquilo em que acredito; as pessoas podem viver juntas, mantendo intactos os seus próprios valores. Ver aqui esta quantidade  enorme de gente de vários países toca o meu lado humano, o meu lado intelectual."

A cidade como um território de conhecimento, o espaço físico, social e cultural onde cada um estabelece relações de proximidade e de quotidiano. A cidade como espaço individual, de conquista de sonhos, da ternura escondida nos olhos, na luz das estrelas que nos visitam entre a dança das nuvens.
A cidade como construção, entre a solidão dos passos conquistados ao tempo. Num território com tantos olhares, o que podemos concretizar de descoberta, de encontro em avenidas de luzes, onde cada solidão tenta respirar uma possibilidade. A cidade, os nossos passos no desejo de conhecimento e conquista dos sorrisos e abraços que nos envolvam nas esquinas que percorremos entre as luzes e a solidão.  

Cidade Aberta, no sentido de um espaço social e cultural que se deixa conhecer, onde uma multidão de pessoas de diferentes origens convivem, onde experimentam a vida, a sua continuidade entre os dias novos e os espaços da memória. Cidade Aberta reflecte sobre esse encontro, sobre a nossa presença no quotidiano, sobre o multiculturalismo e o que significa ser estrangeiro numa cultura, o que significa a individualidade numa sociedade de écrans. 
Cidade Aberta é sobre esse espaço cultural e humano intrigante que é Nova Iorque, como a poderíamos habitar, como a vemos, como a poderemos viver com a insegurança, o medo, a perda que significou ali estar após o onze de Setembro. Teju Cole, pela voz de um médico nigeriano, Julius tenta fazer esse caminho. Um caminho onde o sofrimento e a solidão se realiza entre as dúvidas e a esperança de descoberta em cada esquina, em cada rua. 

Cidade Aberta procura ver, mais que olhar e tentar encontrar-se na Big Apple com o outro, com a sua descoberta para a construção de uma identidade, embora saibamos que assim sendo cidade aberta não deveria ser esse território de solidão e tantas vezes abandono. A fragilidade de tantos indivíduos e o modo como num espaço de consumo material as diferenças podem ser questionados, dará à individualidade possibilidades de ser aceite? 
Pode a igualdade ser diluída num mar de ideias vazias para com a respiração de cada um? Um livro imenso sobre a cidade, e a incessante luta da liberdade para configurar as possibilidades humanas que uma solidão numa cidade pode esvaziar e limitar o discernimento para se encontrar com os outros. É neles, nos habitantes da cidade aberta que a sociedade como um cosmos se desenvolve e onde o valor individual se inscreve.
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Nunca imaginei que fosse possível vê-las, com a poluição de luz a envolver perpetuamente a cidade e numa noite em que estivera a chover. Mas a chuva tinha parado enquanto eu descia as escadas e tornara o ar límpido. (...) Estrelas maravilhosas, numa nuvem de pirilampos ao longe: mas eu sentia no meu corpo o que os meus olhos não podiam alcançar, ou seja, que a sua verdadeira natureza era o persistente eco visual de algo que pertencia já ao passado. (...) nos espaços escuros entre as estrelas mortas, a brilhar, havia outras estrelas que eu não podia ver, estrelas que ainda existiam e emitiam uma luz que ainda não tinha chegado até mim, estrelas vivas e a emitir luz, mas para mim apenas presentes enquanto interstícios vazios. A sua luz acabaria por chegar à Terra, muito depois de eu e a minha geração e a geração seguinte nos encontrarmos fora do tempo (...). Olhar para esses espaços escuros era como ter uma perspetiva direta do futuro.


Teju Cole. (2012). Cidade Aberta. Lisboa, Quetzal.




"O mundo é um vazio desmedido que não queremos nem podemos aceitar, os homens também, as cidades, os países, os planetas também. Não há palavras que encham tanto vazio. Os livros que deixamos são obras de filigrana, fios ténues do sentido com que delimitamos o volume do que não entendemos."

Nesta etiqueta "A palavra e o mundo", por onde se destacaram perto de quarenta livros sobre a literatura e a viagem, a palavra e os espaços do mundo, um dos que em língua portuguesa mais longe chega nesse diálogo é o livro de Nuno Camarneiro, No meu Peito não batem Pássaros.

No meu peito não cabem pássaros junta três figuras maiores da Literatura do século XX, justamente, Franz Kafka, Jorge Luís Borges e Fernando Pessoa.  Junta-as a partir da leitura da vida que se contrói, de um imigrante em Nova Iorque, de um rapaz que chega a Lisboa e de uma criança que inventa coisas, formas de anunciar o que acontecerá mais tarde.

No meu Peito não batem Pássaros realiza a narrativa de três figuras a descobrirem espaços urbanos, a carregar sonhos maiores que eles, a compor palavras com a linha comum de inventar um mundo. É um livro sobre criadores, é um livro sobre cidades e ainda um livro sobre três figuras que entre a solidão e a desilusão nos definem o assombro das palavras, a linguagem para compor aquilo que é a vida de milhões, o prenúncio do mundo moderno.

No meu Peito não batem Pássaros fala-nos da vida, da memória, da morte, do esquecimento, entre os caminhos que percorremos, com o sol a nascer em nós. A infância, o consolo das histórias vividas e inventadas entre os que no tempo forjaram o azul de um aconchego e nos deram a visão de um caminho.

Livro imenso, uma sabedoria de palavras, momentos intermitentes que nos dão a linha dos olhos que procuramos para recuperar a beleza, o encontro com a respiração do amor. ainda esse sonho antigo que nos faça ser um ponto brilhante nos dias esquecidos. A beleza e o sorriso entre as cicatrizes que nos caracterizam, que nos rasgaram o espírito e o corpo até chegar ao encontro, à mão, ao perfume solar capaz de nos fazer render um novo salto, a dos pássaros que em nós voam.

Nuno Camarneiro. (2013). "Lisboa", in No meu peito não cabem pássaros. Lisboa: D. Quixote..

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O professor circula pelas bancadas distribuindo as dissertações corrigidas e classificadas. Ao chegar a Fernando, entrega-lhe a sua com um gesto lento e reprovador.
- É uma pena, senhor Fernando, uma verdadeira pena.
Depois afasta-se para iniciar a aula. Os colegas riem num escárnio acerado que fere o orgulho de Fernando.

A nota é miserável, a mais baixa que teve em todas as disciplinas. Fernando percorre as páginas sem encontrar correcções, uma ou outra vírgula, uma gralha evidente e nada mais. No final do texto está um comentário do professor.

"O senhor é sem dúvida dotado de uma finíssima inteligência, não há como negá-lo. O estilo refinado da sua escrita eleva a prosa e dá cor e alma a tudo o que trata. O senhor Fernando tem mão e cabeça de poeta, mas infelizmente deixa que seja a poesia a tomar conta de si, e não o contrário, como seria desejável.
O mundo, senhor Fernando, é para ser visto e entendido, não inventado."

A última frase ressoa imensa dentro de Fernando. sente-se a ponto de entender uma verdade, algo importante que lhe será claro assim que acalmar o espírito e a vertigem. O mundo não é para ser inventado, repete Fernando, o mundo é para ser visto e entendido.
A voz austera e grave do professor arremessa frases que os seus colegas ouvem como certas, hão-de guardá-las nos cérebros mansos nem que tenham de deitar fora outras que por lá andavam. Um dia vão repeti-las e multiplicá-las para que continuem a ser verdade, ouvidas e entendidas, nunca inventadas.

Como pode alguém domar a poesia? Um poeta é apenas um lugar por onde o poema passa. Se um escritor inventa mundos é porque há mundos que querem ser inventados.
A vertigem aumenta em vez de diminuir. Fernando teme uma nova febre ou uma apoplexia. Imagina as palavras a rebentarem dentro de si, derramando-as pelas entranhas e misturando-se no sangue. Palavras que saem de onde estavam e se perdem no corpo, fervendo, inchando, queimando. Como pássaros que não cabem.

A lição termina e os colegas levantam-se para sair. Ao passarem por ele, trocam alguns comentários em voz alta, para que os ouça e se sinta pior. Por fim, também ele se levanta e dirige-se em passo lento até à saída. Vai enjoado nos passos, mareado com tanto que acaba de entender. Aquela foi uma aula onde aprendeu muito, talvez a aula mais importante a que alguma vez assistiu.

Ao chegar à rua, levanta a cabeça e apercebe-se do ridículo de tudo. Do seu ridículo, do professor, dos colegas, da universidade onde o saber gira há séculos à procura de uma janela. Que inútil tanta pedra para guardar tão pouca coisa.

Nuno Camarneiro. (2013). "Lisboa", in No meu peito não cabem pássaros. Lisboa: D. Quixote.
Imagem - Copyright - Livres pensantes.
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Um corpo sem peso que se escusa a pensar. A imponderabilidade dissolve hierarquias e ficam os pés iguais à cabeça e a dedos esticados. Um corpo que não tem peso não sente a terra nem os homens e entrega-se às correntes e ao tempo. O peso de um homem é âncora enterrada na realidade.
Os peixes e os pássaros não sabem cair e é por isso que guardam o mundo e o emprestam aos deuses que vão e vêm na cabeça dos graves. O deus de deus há-de ser um passarão que voa pelas coisas sérias.

Jorge está deitado num rio largo e fundo. A água fria sustém-lhe o corpo e enche-lhe os sentidos de um ardor vital, é tudo azul e fresco, tudo muito bonito. Para boiar nas águas, é fundamental deixar de ouvir, fechar os ouvidos por dentro e cair inteiro num silêncio líquido. É possível boiar na água sem água, basta encher-se de silêncio.

O Verão decorre sereno e igual, o sol alonga as horas e sobram dias inteiros em que nada tem de acontecer. Num quadro pendurado não passa o tempo porque nada muda, a beleza é uma arte de fugir ao tempo, de o confundir, de o tornar espaço e azul. Já em terra, Jorge embrulha-se numa toalha e encosta-se à família. Ninguém fala, estão concentrados no jornal, na renda e nos livros. Têm um modo de amar que prescinde de palavras, basta-lhes estar ali e saber que não estão sós. (...)

Pelo horizonte dissolvem-se planícies pintadas de erva. Faltam nomes para tantos tons de uma mesma cor e Jorge inventa-os: vesbellho, letusto, zafaio, lusvigo. Depois esquece-se a que pertencem, mas não têm importância.
As sombras das nuvens correm pela erva e essa é outra cor ainda, uma cor cor escura a correr. Que nome tem uma cor que foge? Jorge deita-se a observar as nuvens. É um jogo antigo, pegar no branco e moldá-lo com a imaginação até que ele seja um dragão, um monstro, uma sereia. Imagem, "imago, imitaginem." Quem foi o primeiro a fazer ideias com nuvens?

Um tigre passa-lhe por cma e é dourado como poucos. Leva um brilho novo e, ao desfazer-se, fica à vista uma bola amarela que não é daquele céu. Jorge fita a bola de luz até os olhos começarem a doer. é um sol de outros, pensa, uma luz que anda perdida. à memória chegam-lhe as histórias fantásticas lidas muitas vezes, mundos que acabam, viagens pelo espaço, seres longínquos capazes de destruir ou de criar. Aquele amarelo é cheio de possibilidades e não há nuvens que o possam voltar a esconder.

Nessa mesma noite, quando Jorge fecha os olhos para adormecer, a bola amarela espera-o brilhante. Foi a primeira vez que dormiu com uma luz acesa por dentro e passou a ser essa a cor da sua noite.

Nuno Camarneiro. (2013). "Rio Negro", in No meu peito não cabem pássaros. Lisboa: D. Quixote.

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É muito grande Nova Iorque. Por todo o lado há edifícios altos como casas sobre casas. É uma cidade excessiva e áspera, onde se encontram mais ângulos rectos do que em qualquer outro lugar. É também cheia de brilho e de ruído, de máquinas e corpos e milhões de verbos conjugados no presente. Uma cidade de aldeias empilhadas trazidas de longe, da Europa, de África, da Ásia, homens pobres e desesperados que dão a vida por pouco, que gastam os corpos pelas esquinas afiadas da cidade e à noite se deitam nas suas entranhas.

Quem acorda na cidade desculpa-se por ter dormido. Lá fora há já multidões que correm atrás de uma coisa qualquer que lhes diga que existem. O direito ao nome ganha-se a cada dia e não é certo, nada é certo nesta cidade. O tempo, o pouco tempo de alguns, é o avanço de quem chegou primeiro e não chega para terminar um cigarro.

Quem não sabe para onde ir vai indo sem saber para onde. a cidade empurra, a multidão empurra, a fome empurra, o desejo empurra. Quando alguém pergunta "quem és?" está na realidade a perguntar "o que fazes?", a resposta deve ser rápida e sem hesitações, um verbo e um substantivo. Daí se escolhem afinidades ou a indiferença, nesta cidade um homem é uma máquina de fazer coisas, um verbo, uma função que prescinde de tudo o resto.

Quando é domingo, há muitos homens perdidos pelas ruas, e Karl com eles. Nova Iorque não sabe o que fazer com as horas vagas, a cidade e os cidadãos tornam-se coisas ocas, olhos vazios, pés que caminham porque não sabem fazer mais nada.

A família salva muita gente do tédio, nas famílias todas as horas têm nome: hora de comer, hora de passear, hora de voltar, hora de comer outra vez. Os apartamentos de Nova Iorque enchem-se de famílias e de luz aos domingos, tornam-se faróis tristes para quem anda só por andar. Nas horas vazias dos domingos fazem-se perguntas que não têm resposta e alguns homens matam-se. Há muitos homens a morrer nos domingos da cidade.

Karl percorre as ruas como se fossem partes de um labirinto. Procura o fim daquilo, uma meta para o que lhe falta: alguém com quem falar, uma refeição quente, um lugar tranquilo e bonito onde haja árvores e raparigas. 

Nuno Camarneiro. (2013). "Nova Iorque", in No meu peito não cabem pássaros. Lisboa: D. Quixote.
Uma memória, um ícone de uma civilização urbana - The Big Apple.
Imagem – Alfred Stieglitz, 1910, Baixa de Manhattan,
© Alfred Stieglitz Photography







"E, sim, um grande especialista em música e na natureza humana poderá dizer com acerto, pela observação da fisionomia dos ouvintes. Mozart!, Bach, Chopin! E talvez até isto: silêncio". (1)

A música. Um voo de pelicano no azul, ou o som das hortênsias no vale das Flores, uma ilha a escutar o mar, como uma caixa de música. O silêncio. Ouvi-lo como uma substância que sobra da música, que se espalhou pelos objectos, pelos nossos espaços. E ela própria, como a ver, pois não tem a música, uma luz própria, e assim, saberá qualquer um ouvir um som, construir essa iluminação? Em cada rosto que ouve um som, como encontrar aquilo que não se ouve, como se vê esse silêncio em cada um? É essa a porção capaz de mudar as coisas individualmente?

A batida dos sons podem eles fazer mudar a substância material dos espaços e nesse caso, a música seria um pensamento, o elemento vivo, uma forma de absorver instantes e de os reconduzir a um elemento único, vivo, nós. O silêncio é esse ponto, onde a luz musical se completa, onde se sustenta a raiz do som que contemplamos, a sombra que saiu desse espanto e o ombro que nos dá conforto.

No fim o som, todo ele, para anunciar um sentimento, formas essenciais de ser, essa forma de construção de um espaço, que é a atenção a cada biblioteca de sons individuais. Produzir música, ouvir um som que é também a contemplação a um mundo exige pois olhar, ver o que nos chega com curiosidade e espanto.Breves notas sobre música de Gonçalo M. Tavares é um pequeno livro sobre como o pensamento pode questionar os sons e compreender-nos a nós, dentro dessa magia do silêncio.

(1) - Gonçalo M. Tavares. (2015). Breves notas sobre música. Lisboa: Relógio d´Água.
Imagem - Copyright - Emmanuel de Witte, Interior com uma mulher tocando virginal, 1665.


"A matemática não é para ser cantada, mas podemos imaginar uma orquestra em que cada um dos seus elementos desenvolva equações. Que o canto ou o som de um instrumento sejam semelhantes ao percurso da matemática quando tenta resolver um problema difícil. Que o som seja uma forma, um percurso, em que se vai do complexo para o simples, da grande confusão para o número único que soluciona e acalma. Música como raciocínio que começa no primeiro som, que é problema, e chega ao fim da música fazendo existir o último som, o que soluciona.


Mas há músicas em que o final não finaliza, mas começa; em que o fim é portanto, ameaça ou expectativa, em que o fim não pede uma passividade satisfeita, mas exige, sim, ao ouvinte, pelo contrário, que se levante porque os seus músculos e o seu raciocínio lhe pedem acção.

Steiner lembra a misteriosa frase de Leibniz "quando canta para Si, Deus canta álgebra", Leibniz que associa a linguagem à "razão audível", à razão que se faz ouvir; razão, portanto, que ocupa o espaço que vai da boca que fala ao ouvido que ouve. Uma racionalidade que se faz som: falamos para os outros, ouvimos o outro.

Mas, então, como pode haver tanto mistério no canto por vezes aparentemente tão exacto?
Uma racionalidade misteriosa que se faz som - eis, talvez, uma definição da música que mais nos encanta.
Se Deus canta uma música exacta, se Deus canta o exacto; ou se Deus, pelo contrário, canta o confuso, o ambíguo, o não resolvido? - eis a dúvida que se pode colocar.

Deus canta versos crípticos ou Deus canta a resolução infalível de uma longa equação?
Meu caro, dirão uns: é sempre preferível entender.
Meu caro, dirão outros: apesar de tudo, apesar de tudo, é preferível não entender, não entender, não entender."


Gonçalo M. Tavares. (2015). Breves notas sobre música. Lisboa: Relógio D' Água.

Conhecer o mundo é ir ao encontro de diversas culturas, de diferentes cores, de ver a vida.
Como John Steinbeck nos soube dizer há várias décadas é a viagem que nos faz. É ela que nos faz ser o traçado mais importante da geografia, é ela que nos faz descobrir os poemas do planeta, em cada recolha de sal e pó. É a viagem que nos organiza, nos identifica e é nela que a variedade do mundo nos recria de originalidade.

Com esta etiqueta, "A palavra e o mundo" ,faremos uma proposta semanal, (a começar em fevereiro) de livros que nos permitam construir a viagem nas suas diferentes dimensões. A escolha procura ligar-se ao currículo de estudo da Literatura  ou Educação Literária e do Português, mas também à descoberta dos percursos interiores que as palavras fazem nascer dentro das suas linhas. A viagem como forma de aprendizagem, permite-nos  compreender a beleza do planeta, a sua diversidade, o belo entre os momentos de imperfeição de que é composta a vida.

"(...) quem ouve só fixa as palavras que deseja (...) Quem comanda o conto não é a voz: é o ouvido" (pág. 142)

Em As cidades invisíveis, Italo Calvino revela-nos como a cidade se constrói, se delimita, se habita com o seu nome, com a morte, com os espaços celestes, com a respiração de um tempo infinito. As cidades ocultas, as que apenas se pressentem, as que indiferentemente conhecemos e as que estão em toda a parte. E que gestos, que modos fazem transformar a cidade, os seus espaços, a sua transfiguração, de modo a que ela seja "cristalina, transparente como uma libélula"(pág. 165).
A cidade dos enraizados e a dos que viajam, dos que sonham, dos que ambicionam o sonho da errância, como se revivem, como se libertam? E não é cada cidade uma junção de todas as que nela viveram, ousaram ser um espaço acima de qualquer tempo?
As cidades invisíveis dá-nos ainda um diálogo fascinante entre Marco Polo e Kublai Kan, o imperador dos Tártaros e remete-nos para as possibilidades da construção do Império,  de qualquer um. O que pode o viajante Marco Polo explicar ao Imperador pelas suas viagens, as suas descrições.
As palavras, o pensamento, a memória, o desejo de Marco Polo permitirá a Kublai Kan compreender a filigrana que organiza a cidade? A viagem de Marco Polo ou o Império de Kublai Kan são apenas o reconhecimento do pouco que a sua vida terá, que a nossa vida terá, no sonho do tanto inconcebível de concretizar, das cidades fixadas em palavras, ou perdidas em fórmulas inverosímeis.
No fim, pode ser traçada uma ordem invisível que governe as cidades, que nos faça compreender a sua orgânica como organismo vivo? O real, a materialidade do império reduzido à sua essência, conduz-nos a um intrigante nada. A inútil concretização do nada, nas ruínas dos conquistadores.
Na inútil tentativa de encontrar a cidade descontinuada no espaço e no tempo, encontrá-la significa que no desconcerto da vida, precisamos saber reconhecer a força bela que a poderá fazer renascer, o que de melhor pode viver em nós. É a cidade invisível que vive acima do que é visível, do que não vemos, das ruínas do tempo. A cidade invisível também como formulação de uma esperança, a energia para uma libertação, a que permite construir caminhos novos, o progresso civilizacional que alguns sonham e que importa reconstruir em cada geração.

As cidades invisíveis / Italo Calvino ; trad. José Colaço Barreiros. - 4ª ed. - Alfragide : Dom Quixote, 2017. - 174 p. ; 24 cm. - Tít. orig.: Le città invisibili. - ISBN 978-972-20-5709-7

Imagem: Copyright - Imagem, "Ciutat", Tomasz Pietryk





“ (…) Recém-chegado e ignorando completamente as línguas do Levante, Marco Polo não podia exprimir-se de outro modo que não fosse retirando objectos das suas malas: tambores, peixes salgados, colares de dentes de facóquero, e indicando-os com gestos, saltos, gritos de espanto ou de horror, ou imitando o latido do chacal e o piar da coruja. (…)
Mas o que tornava preciosos a Kublai todos os factos ou notícias referidos pelo seu inarticulado informador era o espaço que ficava à volta deles, um vazio não preenchido por palavras. As descrições   das cidades visitadas por Marco Polo tinham esse dom: podia andar-se por elas com o pensamento, nelas podíamos perder-nos, para apanhar fresco, ou fugir a correr. Com o passar do tempo, nos relatos de Marco as palavras foram substituindo os objectos e os gestos: primeiro exclamações, nomes isolados, áridos verbos, depois pedaços de frase, discursos ramificados e frondosos, metáforas e hipérboles. (…)
Kublai Kan apercebera-se de que as cidades de Marco Polo eram todas parecidas, como se a paisagem de uma para a outra não implicasse uma viagem mas sim uma troca de elementos. Agora, de todas as cidades que Marco lhe descrevia, a mente do Grão Kan partia por sua conta e risco, e desmontada a cidade peça a peça, reconstruía-a de outro modo, substituindo ingredientes, deslocando-os, invertendo-os. Marco continuava a informá-lo da sua viagem, mas o imperador já não o ouvia, interrompia-o: – De agora em diante serei eu a descrever as cidades e tu verificarás se existem e se são como eu as pensei. (…)
Do número das cidades imagináveis temos de excluir aqueles cujos elementos se somam sem um fio condutor que os ligue, sem uma regra interna, uma perspectiva, um discurso. São cidades como sonhos: todo o imaginável pode ser sonhado mas também o sonho mais inesperado é um enigma que oculta um desejo, ou o seu contrário, um terror. As cidades como os sonhos são construídos de desejos e de medos, embora o fio do seu discurso seja o secreto, as suas regras absurdas, as perspectivas enganosas, e todas as coisas escondem outra. (…)
O Grão Kan contempla um império recoberto de cidades que têm peso sobre a terra e sobre os homens, a abarrotar de riquezas e de movimento, repleto de ornamentos e de incumbências, complicado de mecanismos e de hierarquias, inchado, largo, pesado. “É o próprio peso que está a esmagar o império”, pensa Kublai, e nos seus sonhos agora surgem cidades leves como papagaios de papel, cidades perfumadas como rendas, cidades transparentes como mosquiteiros, cidades nervuras de folhas, cidades linhas da mão, cidades filigrana para ver através da sua opaca e fictícia espessura.”

CALVINO, Italo. (2017). As cidades invisíveis. Lisboa: D. Quixote. 






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