terça-feira, 29 de outubro de 2019

MÊS INTERNACIONAL DAS BIBLIOTECAS ESCOLARES 

No âmbito do Mês Internacional  das Bibliotecas Escolares, o Dia da Biblioteca Escolar foi celebrado com uma ação para docentes sobre a importância do trabalho cooperativo e   sobre o Referencial Aprender com a Biblioteca Escolar . 




 

segunda-feira, 28 de outubro de 2019


ENCONTRO COM  A ESCRITORA ANA MAFALDA DAMIÃO 

Hoje, Dia Mundial das Bibliotecas Escolares, recebemos a visita da escritora Ana Damião. 
Animais e  Direitos dos Animais foram os assuntos abordados .



quinta-feira, 24 de outubro de 2019

O mundo em que vivi (II)

"Ai, que bela poderia ser a vida, que nos presenteava com coisas tão maravilhosas: a neve a cair silenciosamente lá fora, as maçãs assadas, a compota de morangos... se não houvesse as dúvidas angustiosas e a desconfiança contra ela, a própria vida!" (1)

A Literatura de memórias tem nos últimos anos dado uma grande importância ao testemunho dos momentos particulares, da intimidade com que tantas pessoas sujeitas a processos políticos e sociais violentos foram capazes de sobreviver e construir a sua identidade. O mundo em que vivi é de um tempo, em que esse tipo de literatura ainda não tinha uma grande expressão na Europa, mas enquadra-se muito nesse espírito.

Ilse Losa escreve na primeira pessoa, a experiência da sua infância, do início da adolescência na Alemanha dos anos trinta, dando-nos a memória da sua família, de um passado com os seus avós, de um universo que se perdeu em muitas das suas particularidades e afetos. É um livro sobre esse momento inexplicável da história humana, em que a ausência de um espírito corrompeu a essência da vida e a dignidade de milhões de seres humanos.

Nele percebemos como o impossível pôde ser possível, pela crença de um povo numa esperança que se ausentou de si no mais óbvio, onde aos sinais sucessivos foram dadas respostas pouco adequadas. É um livro sobre a vida num século, onde assistimos à construção de um tempo global dominado por uma estética de agressão, de desvinculação das pessoas a uma comunidade, a uma cultura. São esses fragmentos de mundos particulares que chegam até nós.

Em O mundo em que vivi recebemos os espaços, as atmosferas de uma condenação no plano individual a uma cultura que não pôde sobreviver, que se desmoronou, nas perguntas de silêncio de milhões de judeus que interrogaram os dias. Dessas perguntas, as respostas impossíveis chegaram acima de toda a probabilidade, acima de toda a decência humanas. A história de Ilse Losa teve um fim feliz e com ela recordamos esse passado, de onde ela sobreviveu para uma vida de escritora, na cidade do Porto. O mundo em que vivi é em parte, esse caminho para uma escrita que ela preencheria com momentos particulares, os "pequenos nadas" que podem fazer renascer os momentos da vida.

 O mundo em que vivi / Ilse Losa. - 33ª ed. - Porto : Afrontamento, 2014. - 196 p. ; 21 cm. - (Fixões ; 14). - Ler+ Plano Nacional de Leitura. - ISBN 978-972-36-0535-8

O mundo em que vivi (I)

Eram as flores no friso da janela que davam a nota mais colorida à sala de estar, virada para a rua. A tia Gertrud da América mandara, certo dia, um cartuchinho de sementes que a avó espalhara num vaso com terra. Em breve nascera uma roseira. Não uma roseira vulgar, mas sim rara, que dava apenas uma rosa em cada Verão, rosa dum vermelho carregado e, no dizer da avó, mais bela e mais duradoura do que todas as rosas da aldeia. Assim como o Sol é o astro mais altivo e mais luminoso no friso da janela. 

Ao contemplá-la, absorta, pensava na terra da América e na cidade de Nova Iorque, que estava para a nossa aldeia como o elefante para a mosca. E assaltava-me então a curiosidade de terras distantes, estranhas, de tal forma que me esquecia do avô Markus, a quem prometera nunca deixar. Sonhava com ruas largas, sem fim, onde floresciam sebes de rosas diante de casas brancas cujas janelas transbordavam de rosas, molhos e molhos de rosas, e uma inquietação tomava posse de mim. A Ânsia de permanecer junto do friso da janela e ao mesmo tempo de poder estar lá, onde as rosas eram assim, e até em toda a parte do mundo.

Ao lado da janela, precisamente onde floria a roseira americana, a avó Ester dormia todas as tardes a sua sesta de quinze minutos. A cabeça encostada à almofada, os pés no escabelo, certinhos um ao lado do outro, a meia com as cinco agulhas no regaço, dormia sem se mexer. O rosto miúdo, sulcado de rugas, donde o nariz parecia quere saltar, refletia o seu cansaço. Quando a via assim a dormir, lembrava-me dum pássaro morto que certa vez encontrei, com o avô, na borda de um poço coberto de neve.

Entretanto eu tinha licença de folhear as velhas revistas, de dobrar tiras de papel para acender o candeeiro a gás ou o cachimbo do avô, pois a avó não consentia que se gastassem fósforos estando o fogão aceso para fornecer lume. De tempos em tempos interrompia essas ocupações para contemplar a avó a dormir. Em vão procurava no rosto esgotado os vestígios da beleza e da graciosidade que tivera, no dizer do avô, quando fora nova e ele a escolhera para mulher.

Uma das duas portas da sala de estar dava para o quarto de dormir, onde pairava sempre um cheiro a lilases saído da gaveta inferior da cómoda. Ali a avó guardava as suas quinquilharias pessoais. Não deixava de ser estranho ela, a mulher prática, não conseguir desfazer-se de todas essas rendas e rendinhas, golas e golinhas antiquadas, dos leques, das flores de papel e de outras coisas no género, eme vez disso conservá-las em caixas de sabonetes e latas de rebuçados. 
A avó dormia numa das suas camas, enquanto eu ficava com o avô na outra. Era ela que me lavava, no fim do dia, dos pés à cabeça, numa bacia de zinco, mas era o avô quem me levava às cavalitas para a cama que, nos primeiros dias depois de a avó lhe ter mudado os lençóis, cheirava a alfazema. Todas as noites o avô se sentava ao meu lado. Contava histórias e cantava canções. A voz volumosa, grave, animava a escuridão com as figuras dos contos de fadas e da Bíblia e embalava-me até eu adormecer.

Certa noite, depois de ele me ter deixado, aproximou-se da janela aberta um ruidoso bater de asas. Suspendi a respiração e julguei morrer de medo. Duas asas batiam sobre a minha cabeça e os meus ombros. Quis gritar, mas a garganta aperte-se-me. Fechei os olhos, abri-os, cravei-os na escuridão… Já não havia mais nada. Pela janela aberta, entrava, leve e fresco, o ar da noite. Sentei-me, apalpei tudo em redor, ergui os braços. Nada. Só a escuridão e o silêncio. Quem estivera comigo? O anjo de Jacob? O pássaro gigante? O rei dos amieiros? Mas os reis tinham asas?... Quando finalmente o avô tornou a entrar para se deitar ao meu lado, aconcheguei-me, aliviada, nos seus braços.

 O mundo em que vivi / Ilse Losa. - 1ª ed. - Porto : Manaus, 1949.