segunda-feira, 3 de junho de 2019

Na memóra de Agustina


Todos os meus livros são, afinal, só isso, a oportunidade de milhões de almas, únicas, todas elas, almas de sapinhos cheios de importância de viver. [...] Uns partem um pouco depois de dizerem bom dia, outros ficam até morrer. Todos se continuam naquilo que têm de profundamente entre si - a vocação para serem sós, porém aceites por cada uns dos outros. Porque a solidão que me acusam de impor aos meus personagens, como uma grilheta, é apenas a sua individualidade biológica, a exclusividade, a reivindicação superior da sua própria luta. Um homem jamais corresponde a outro homem; as suas reações e conclusões não equivalem a vivência de outra alma, a experiência do outro eu. O mistério do eu cumpre-se em cada homem de forma única". (1)

“Há muitas coisas belas na terra, mas nada iguala a recordação de um dia de Verão que declina, e temos 11 anos e sabemos que o dia seguinte é fundamental para que os nossos desejos se cumpram. Quem conservar este sentimento pela vida fora está predestinado a um triunfo, talvez um tanto sedentário, mas que tem o seu reino no coração das pessoas.” (2)

O mais veemente dos vencedores e o mendigo que se apoia num raio de sol para viver um dia mais, equivalem-se, não como valores de aptidões ou de razão, não talvez como sentido metafísico ou direito abstracto, mas pelo que em si é a atormentada continuidade do homem, o que, sem impulso, fica sob o coração, quase esperança sem nome. (3) 

Não são os crentes que se salvam; são os que esperam em plano de igualdade com o que é eterno - a vida humana e a realidade dos seus direitos. Devo acrescentar aqui alguma coisa que sempre me pesou: acima dos amigos eu tive o pensamento; além da gratidão, eu pus o amor forte e generoso pela vida. (4)

Agustina Bessa-Luís,
(1) in Revista Lusíada. Porto, Outubro, 1955.
(2) As Pessoas Felizes
(3) Sibila
(4) O chapéu de fitas a voar

 Retemos dela uma ideia de uma luz de quem caminhou ao contrário, da maturidade para a infância, de quem nos ensinou que a vida é demasiado importante para ser levada a sério e que por isso nada mais difícil do que o gesto grave, a dureza do caminho, para os que procuram um lugar de felicidade, de conquista de individualidade. Por isso as fórmulas rápidas e fáceis são inexpressivas de qualquer verdade, pois em cada ser há uma respiração diferente.
Nas suas obras, as mulheres de diferentes gerações revelam essa aspiração de humanidade, que condensam o que viveram, o que sonharam, em luta com o real sem se saber se se ousou o suficiente, se a afirmação foi suficiente para chegar a esse momento quase final em algo que se compreendeu. 
 É uma das grandes figuras da cultura portuguesa deste século e de muitos outros. Pela escrita, pelos temas, pelo humor e por aquele sorriso de quem já parece ter percebido o sentido das coisas e por isso sorri para o horizonte, como a criança acabada de nascer. Havia nela uma sabedoria na compreensão das coisas e não sei se como em Eduardo Lourenço, muitos a citam e quantos a terão lido. É um figura essencial para compreender o século XX e esse património entre a cidade e o campo, o Douro, entre o esforço criativo e a dureza da vida, mas também o sentido criativo, a arte e o próprio tempo.

domingo, 2 de junho de 2019

Linhas de caminhos...



Caminhamos, respiramos, viajamos entre espaços pelo pelo que somos, pelos mecanismos biológicos ou pelo espírito que nos anima? Somos pessoas porque voamos entre linhas desenhadas na imaginação, caminhamos fisicamente pelo que nos é dado ou é a convicção que nos alimenta o caminho? 
No contínuo caminhar que fazemos reside o nosso empenho na forma como o fazemos, nas opções que colocamos no caminho, nos instrumentos que concebemos para o sonho. Ficamo-nos na crença cega do modo como andamos, ou estimamos as possibilidades de chegar ao crepúsculo da tarde?
Na viagem que construímos é o rio que corre em nós, que nos alimenta a definição do caminho, nos faz criar os instrumentos capazes de superar os limites físicos, operacionais do corpo, para conquistar esses momentos de superação, de uma epifania de vontade e determinação. Na errância com que nos vemos, são essas cores com que pintamos o real que embelezam a respiração das auroras amanhecidas na alegria da viagem, como elemento essencial do sonho vivido.

A educação sentimental dos pássaros: onze contos sobre anjos, demónios e outras pessoas quase normais / José Eduardo Agualusa ; rev. Clara Boléo. - 1ª ed. - Alfragide : Dom Quixote, 2011. - 127 p. ; 24 cm- - ISBN 978-972-20-4704-3

sábado, 1 de junho de 2019

junho


junho tem ar de festa
mesmo que festa não haja.
Não se sabe bem porquê,
se todos ainda trabalham.
Talvez festa de ser véspera
de chegar, em junho, o Verão
e com ele um ,
um comboio, um avião,
ou simplesmente umas pernas
de andarilho sem receio,
que nos levem com os amigos
a um lugar de eleição
que se guarde para sempre
no baú do coração.

O livro dos meses / João Pedro Mésseder ; il. Ana Biscaia, Arianna Vairo. - [Lousã] : Lápis da Memória, 2012. - 35 p. : il. ; 21 cm. - ISbn 978-989-97852-0-5
Imagem: Copyright - André Neves