quinta-feira, 21 de março de 2019

Dia Mundial da Poesia


Segundo a Diretora Geral da Unesco,Audrey Azoulay, "...a poesia, em todas as suas formas, é uma poderosa ferramenta de diálogo e de aproximação. Expressão íntima que abre portas aos outros, enriquece o diálogo...  reflete a universalidade da condição humana, o desejo de criatividade que atravessa todos os limites e fronteiras do tempo e do espaço, numa afirmação constante de que a humanidade é uma mesma e única família".
E como forma de homenagear a nossa patrona ...
























quarta-feira, 20 de março de 2019

PERCURSOS PELA CIDADE

Diferente foi este nosso percurso pela cidade do Porto, onde " ...há pouco ainda pelas suas quatro portas habituais só se podia entrar a tremer, com licensa paga, por um túnel ou revistado de cima a baixo - maneiras , como se vê, difíceis e reticentes -...." (M.Torga, 1944).

Da escola à Serra do Pilar, a pé e de metro, observando e ouvindo a Professora Marília Lobo,  lendo textos e registando  apreciações  alusivos à cidade ....




quinta-feira, 14 de março de 2019

SEMANA DA LEITURA NA EBIL


Programa

11 de março
Ensaio da peça A asa e a casa

13 de março
10 minutos a ler  na escola

14 de março
Momento musical com os 5º anos
Ensaio geral da peça A asa e a casa

15 de março
Apresentação da peça  A asa e a casa







Feito com Padlet




MOMENTO MUSICAL , 5º ANO


sexta-feira, 8 de março de 2019

Elas

“Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta. Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas. Elas vieram para a rua de encarnado. Elas foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água. Elas gritaram muito. Elas encheram as ruas de cravos. 

Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes. Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua. Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo. Elas ouviram falar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas. Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra. Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho. Elas tiveram medo e foram e não foram.

Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas. Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro uma cruzinha laboriosa. Elas sentaram-se a falar À roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o braço nas grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me aqui nos cachopos, senhora, que agente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é. Elas vieram dos arrabaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte da casa fechada. 

Elas estenderam roupas a cantar, com as armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam e não sabiam para aonde, mas que iam. Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.”

Maria Velho da Costa. (1976). Cravo. Lisboa: Moraes Editores.
Imagem: Copyright - Alfredo Cunha Official Fujifilm X-Photographer, Vila Verde, 2001

quinta-feira, 7 de março de 2019

A palavra e o mundo - O enigma da chegada (II)

"Eu via uma floresta. Mas não era realmente uma floresta; era a penas o velho pomar nas traseiras do casarão em cuja propriedade se encontrava a minha casa. Aquilo que via, via-o muito claramente. Mas não sabia para que estava a olhar. Não tinha nada em que pudesse encaixar aquilo que via. Sentia-me ainda uma espécie de limbo." (1)

V. S. Naipul tem uma obra longa e premiada, com destaque para o Booker Prize de 1971 e o Prémio Nobel da Literatura em 2001. Natural de Trindade, nas Caraíbas descende de uma família de origem indiana, cujos antepassados vieram da Índia para as Antilhas no processo de globalização económica que foi o Império Inglês no século XIX. V. S. Naipul concilia uma ironia e uma observação britânica com um espírito de análise e um minimalismo de vida ligado ao hinduísmo e à sua memória.

Partiu jovem para Inglaterra para estudar Literatura em Oxford e a sua vida de escritor   mistura-se, a partir de certo momento com a do homem. Processo e descoberta difícil, enquanto o escritor não compreendia que homem o habitava, nessa relação de culturas que viveu de forma intensa. O enigma da chegada, livro de 2008 é um testemunho deslumbrante desse percurso de vida e do nascimento do escritor e dos temas que o fundiram com o homem, o adolescente e criança em Trindade e o adulto em Oxford.

O enigma da chegada descreve-nos a evolução de um escritor, os locais por onde viveu, com destaque para o lugar que o fez renascer. Justamente um vale perto de Stonehenge, onde habitou uma casa que integrava uma grande propriedade rural, o que nos permite conhecer uma região, a sua ocupação humana no tempo. Espaço pertencente à aristocracia rural, nela vemos desfilar as personagens que lá trabalhavam, as suas motivações e compreendemos a atmosfera que as envolvia, o seu trabalho, a sua visão do mundo, a sua intimidade com as coisas. A casa habitada pelo autor e as experiências vividas nessa propriedade deram-lhe a possibilidade de encontrar o sentido, o significado para a efemeridade da vida humana.

O enigma da chegada faz a descrição precisa da paisagem, como o autor a via nos seus passeios e permitiu-lhe abordar um microcosmo, a sua relação com a sociedade e como o tempo vai desfazendo sentidos antigos. O enigma da chegada é um livro que pertence a uma categoria muito restrita. Aquela que tem a capacidade de dialogar com o leitor, como se falasse com ele directamente. O enigma da chegada é uma longa e aprazível conversa, onde se revela uma grande sensibilidade na observação. Os passeios de V. S. Naipul dão-nos uma observação muito cuidada da Natureza, da sua evolução no tempo. "O jardim de Jack" e os trabalhadores da mansão dão oportunidades de reflexão ao autor sobre a vida, as escolhas que se fazem e delas extrai sentidos que parecendo particulares são absolutos sobre a própria existência.

O passado, os seus fragmentos sem memórias, os vestígios, relíquias de outras vidas, de outros sonhos procuram dar um significado para a ideia de ruína e degradação. Sendo um livro auto-biográfico é muito, uma obra literária sobre o Homem no Tempo. Uma geografia antes dos homens, o trabalho humano como uma declaração poética, um sentido vivo da vida ou só mais uma ruína, são questões colocadas. Como lidar com essa mutação da vida, dos seus objectos no tempo, como compreender a degradação contínua, a mudança constante em nós, no nosso tempo?

A experiência do que vivemos e a linguagem, como instrumentos de uma memória e de uma exaltação são tentativas para obter uma resposta. E ainda a consciência final de que sobre a melancolia e as nossas dores é importante compreender "que a vida, o ser humano, era o mistério, a verdadeira religião dos homens, a dor e a glória" (p.438). E compreendê-lo com assombro pela vida e pelos homens. E aceitar que a vida é sempre o recomeço de nós próprios. E verificar mais uma vez que a Literatura pode ser em alguns circunstâncias um instrumento de contextos, de significados poéticos para uma sobrevivência. A da memória .

(1) V. S. Naipul. (2013). O enigma da chegada. Lisboa: Quetzal.

A palavra e o mundo - O enigma da chegada (I)

Jack vivia no meio de ruínas, no meio de coisas que já não serviam para nada e tinham sido substituídas por outras. Porém, esta visão de Jack e do ambiente que o rodeava só me surgiu mais tarde, e impôs-se com mais força agora, à medida que vou escrevendo. Não foi a impressão com que fiquei da primeira vez que, num dos meus passeios, passei por lá.

Essa ideia de ruína e degradação, essa sensação de deslocamento, era algo que eu experimentava em mim mesmo, algo que transportava em mim: um homem de meia-idade, originário de um outro hemisfério, com um passado completamente diverso, procurava repouso numa casa de uma propriedade meio abandonada, uma propriedade cheia de recordações de um passado eduardiano, com escassas ligações ao presente. (...)

No entanto, quanto a Jack, eu via-o como um elemento mais na paisagem. A sua vida parecia-me autêntica, enraizada, adaptada: a vida de um homem que encaixava perfeitamente na paisagem. Via-o como um vestígio do passado (cuja desagregação era anunciada pela minha própria presença).

Quando dei aquele primeiro passeio e me limitei a ver a paisagem, tomando aquilo que via como simples elementos desse mesmo passeio, coisas que podíamos encontrar no campo em redor de Salisbury, coisas imemoriais, apropriadas, não me ocorreu que Jack viva no meio do lixo, no meio das ruínas que tinham quase um século; que o passado que envolvia a sua casa podia não ser o seu passado; que podia ter sido, num dado momento, um recém-chagado ao vale; que o seu estilo de vida podia ter sido uma opção, um ato consciente; que, do pequeno terreno que lhe coubera em sorte juntamente com a casinha de trabalhador ruaral, Jack criara uma casa especial para si mesmo, um jardim onde (embora rodeado de ruínas, recordações de vidas desaparecidas), ele se sentia mais do que feliz por levar a vida que levava e onde, como numa versão de um Livro de Horas, ele celebrava as estaçoes. (....)

E, no entanto, ainda demorei algum tempo, à medida que ia ganhando consciência das estações, a descobrir o jardim. Até então, o jardim estivera simplesmente ali, qualquer coisa no caminho, um ponto de referência, nada que merecesse grande atenção da minha parte. E, no entanto, eu amava aquela paisagem, as árvores, as flores, as nuvens, e era sensível às mudanças de luz e temperatura.