sexta-feira, 20 de setembro de 2019






Em Portugal, o Dia da Biblioteca Escolar é assinalado na quarta segunda-feira de outubro, este ano, dia 28, mas em todo o mundo, e segundo a proposta da International Association of School Librarianship (IASL), o mesmo pode ser comemorado durante um dia, uma semana ou mesmo durante o mês de outubro.

Brevemente, publicaremos as atividades  a serem desenvolvidas. Para isso, contamos com a colaboração de todos os que nos leem. 



segunda-feira, 3 de junho de 2019

Na memóra de Agustina


Todos os meus livros são, afinal, só isso, a oportunidade de milhões de almas, únicas, todas elas, almas de sapinhos cheios de importância de viver. [...] Uns partem um pouco depois de dizerem bom dia, outros ficam até morrer. Todos se continuam naquilo que têm de profundamente entre si - a vocação para serem sós, porém aceites por cada uns dos outros. Porque a solidão que me acusam de impor aos meus personagens, como uma grilheta, é apenas a sua individualidade biológica, a exclusividade, a reivindicação superior da sua própria luta. Um homem jamais corresponde a outro homem; as suas reações e conclusões não equivalem a vivência de outra alma, a experiência do outro eu. O mistério do eu cumpre-se em cada homem de forma única". (1)

“Há muitas coisas belas na terra, mas nada iguala a recordação de um dia de Verão que declina, e temos 11 anos e sabemos que o dia seguinte é fundamental para que os nossos desejos se cumpram. Quem conservar este sentimento pela vida fora está predestinado a um triunfo, talvez um tanto sedentário, mas que tem o seu reino no coração das pessoas.” (2)

O mais veemente dos vencedores e o mendigo que se apoia num raio de sol para viver um dia mais, equivalem-se, não como valores de aptidões ou de razão, não talvez como sentido metafísico ou direito abstracto, mas pelo que em si é a atormentada continuidade do homem, o que, sem impulso, fica sob o coração, quase esperança sem nome. (3) 

Não são os crentes que se salvam; são os que esperam em plano de igualdade com o que é eterno - a vida humana e a realidade dos seus direitos. Devo acrescentar aqui alguma coisa que sempre me pesou: acima dos amigos eu tive o pensamento; além da gratidão, eu pus o amor forte e generoso pela vida. (4)

Agustina Bessa-Luís,
(1) in Revista Lusíada. Porto, Outubro, 1955.
(2) As Pessoas Felizes
(3) Sibila
(4) O chapéu de fitas a voar

 Retemos dela uma ideia de uma luz de quem caminhou ao contrário, da maturidade para a infância, de quem nos ensinou que a vida é demasiado importante para ser levada a sério e que por isso nada mais difícil do que o gesto grave, a dureza do caminho, para os que procuram um lugar de felicidade, de conquista de individualidade. Por isso as fórmulas rápidas e fáceis são inexpressivas de qualquer verdade, pois em cada ser há uma respiração diferente.
Nas suas obras, as mulheres de diferentes gerações revelam essa aspiração de humanidade, que condensam o que viveram, o que sonharam, em luta com o real sem se saber se se ousou o suficiente, se a afirmação foi suficiente para chegar a esse momento quase final em algo que se compreendeu. 
 É uma das grandes figuras da cultura portuguesa deste século e de muitos outros. Pela escrita, pelos temas, pelo humor e por aquele sorriso de quem já parece ter percebido o sentido das coisas e por isso sorri para o horizonte, como a criança acabada de nascer. Havia nela uma sabedoria na compreensão das coisas e não sei se como em Eduardo Lourenço, muitos a citam e quantos a terão lido. É um figura essencial para compreender o século XX e esse património entre a cidade e o campo, o Douro, entre o esforço criativo e a dureza da vida, mas também o sentido criativo, a arte e o próprio tempo.

domingo, 2 de junho de 2019

Linhas de caminhos...



Caminhamos, respiramos, viajamos entre espaços pelo pelo que somos, pelos mecanismos biológicos ou pelo espírito que nos anima? Somos pessoas porque voamos entre linhas desenhadas na imaginação, caminhamos fisicamente pelo que nos é dado ou é a convicção que nos alimenta o caminho? 
No contínuo caminhar que fazemos reside o nosso empenho na forma como o fazemos, nas opções que colocamos no caminho, nos instrumentos que concebemos para o sonho. Ficamo-nos na crença cega do modo como andamos, ou estimamos as possibilidades de chegar ao crepúsculo da tarde?
Na viagem que construímos é o rio que corre em nós, que nos alimenta a definição do caminho, nos faz criar os instrumentos capazes de superar os limites físicos, operacionais do corpo, para conquistar esses momentos de superação, de uma epifania de vontade e determinação. Na errância com que nos vemos, são essas cores com que pintamos o real que embelezam a respiração das auroras amanhecidas na alegria da viagem, como elemento essencial do sonho vivido.

A educação sentimental dos pássaros: onze contos sobre anjos, demónios e outras pessoas quase normais / José Eduardo Agualusa ; rev. Clara Boléo. - 1ª ed. - Alfragide : Dom Quixote, 2011. - 127 p. ; 24 cm- - ISBN 978-972-20-4704-3

sábado, 1 de junho de 2019

junho


junho tem ar de festa
mesmo que festa não haja.
Não se sabe bem porquê,
se todos ainda trabalham.
Talvez festa de ser véspera
de chegar, em junho, o Verão
e com ele um ,
um comboio, um avião,
ou simplesmente umas pernas
de andarilho sem receio,
que nos levem com os amigos
a um lugar de eleição
que se guarde para sempre
no baú do coração.

O livro dos meses / João Pedro Mésseder ; il. Ana Biscaia, Arianna Vairo. - [Lousã] : Lápis da Memória, 2012. - 35 p. : il. ; 21 cm. - ISbn 978-989-97852-0-5
Imagem: Copyright - André Neves

quarta-feira, 1 de maio de 2019

um de maio


No dia do Trabalhador:

Aqui estão as mãos.
São os mais belos sinais da terra.
Os anjos nascem aqui:
frescos, matinais, quase de orvalho,
de coração alegre e povoado.
Ponho nelas a minha boca,
respiro o sangue, o seu rumor branco,
aqueço-as por dentro, abandonadas
nas minhas, as pequenas mãos do mundo.
Alguns pensam que são as mãos de deus
— eu sei que são as mãos de um homem,
trémulas barcaças onde a água,
a tristeza e as quatro estações
penetram, indiferentemente.
Não lhes toquem: são amor e bondade.
Mais ainda: cheiram a madressilva.
São o primeiro homem, a primeira mulher.
E amanhece.
Eugénio de Andrade, "Coração Habitado", in Poesia / Eugénio de Andrade ; pref. José Tolentino Mendonça. - 1ª ed. - Portp : Assírio & Alvim, 2017. - 671 p. - ISBN 978-972-37-1945-1
Imagem - Leonardo da Vinci, Estudo de mãos, 1474
(No Dia do Trabalhador, as mãos são ainda um dos mais belos símbolos que ainda permitem trazer a dignidade do trabalho, como forma de construir o quotidiano, de o compor de beleza.)

Maio


" (...) no mês de Maio que é o mês da liberdade
no mês de Maio que é o mês dos namorados".

Manuel Alegre, "Nós voltaremos sempre em Maio "
Imagem, in http://takaclip.tumblr.com/

segunda-feira, 29 de abril de 2019



CLUBE DE FRANCÊS 


É na nossa biblioteca que tem funcionado o Clube de Francês. Este  pretende promover o contacto com a língua e cultura francesas de forma lúdica, de modo a  motivar os alunos para o desenvolvimento de algumas das competências, atitudes e valores previstos no Perfil dos Alunos à saída da escolaridade obrigatória





quinta-feira, 25 de abril de 2019

Abril


Celebra-se o vinte e cinco
de Abril de setenta e quatro,
pois Abril é revolução
no ar, sim, como no chão,
onde alguém desenha a giz
a silhueta futura (...)

Abril é também promessa

de tesouros no Estio,
que está longe  (ainda é frio).
águas mil por certo vêm,
mas outros dias já trazem
uma luz azul também.

E este Abril é ainda

o mês em que os livros voam
da minha mão para a rua,
da tua p'rá minha mão,
e das mãos voam p'rós olhos
e dos olhos para a mente
e daí p'ró coração.
João Pedro Mésseder, "Abril", in O Livro dos Meses 
Imagem, Flor de Primavera, Jettie Rosenboon


CARTAZES DE ABRIL


Porque a nossa história também se faz pela descrição gráfica representada  em  cartazes políticos  .....



quarta-feira, 10 de abril de 2019

Memória de Sophia (I)


Gosto de uivar ao vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.
A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.”

Sophia, “Pirata”
Coral / Sophia de Mello Breyner Andresen ; pref. Manuel Gusmão. – 1ª ed. – Porto : Assírio & Alvim, 2013. – 113, [6] p. ; 21 cm. – (Obras de Sophia de Mello Breyner Andresen). – ISBN 978-972-37-1702-0
Imagem: Copyright – Augenlicht

sexta-feira, 5 de abril de 2019




DIA DO AGRUPAMENTO


Porque hoje é o Dia do Agrupamento, a biblioteca dinamizou 

jogos online sobre a vida e obra das  suas patronas.  






quarta-feira, 3 de abril de 2019


ESCREVER PARA SER


Escrever é criar, recriar, é descobrir-se em cada palavra, é vivenciar os sentimentos e organizar os pensamentos. Escrever permite-nos estar a sós connosco, apreciando a nossa companhia……



terça-feira, 2 de abril de 2019


 Journée de la Francophonie

De acordo com dados do Ministério francês dos Negócios Estrangeiros, o francês é a quinta Língua mais falada no mundo. Com cerca de 274 milhões de locutores, o francês é ainda segundo governo francês a segunda língua mais ensinada no mundo, a quarta língua da internet, a terceira língua do mundo dos negócios e a segunda língua da informação internacional nos meios de comunicação social.
Na impossibilidade de termos assinalado o Dia da Francofonia no dia 20 de  março, assinalamo-lo agora. Para isso, contámos com a presença da Dra Luísa Pacheco, uma das autoras de um dos manuais adotados, que veio dinamizar uma atividade lúdica de sensibilização para a escolha do francês no sétimo ano de escolaridade.  


quinta-feira, 21 de março de 2019

Dia Mundial da Poesia


Segundo a Diretora Geral da Unesco,Audrey Azoulay, "...a poesia, em todas as suas formas, é uma poderosa ferramenta de diálogo e de aproximação. Expressão íntima que abre portas aos outros, enriquece o diálogo...  reflete a universalidade da condição humana, o desejo de criatividade que atravessa todos os limites e fronteiras do tempo e do espaço, numa afirmação constante de que a humanidade é uma mesma e única família".
E como forma de homenagear a nossa patrona ...
























quarta-feira, 20 de março de 2019

PERCURSOS PELA CIDADE

Diferente foi este nosso percurso pela cidade do Porto, onde " ...há pouco ainda pelas suas quatro portas habituais só se podia entrar a tremer, com licensa paga, por um túnel ou revistado de cima a baixo - maneiras , como se vê, difíceis e reticentes -...." (M.Torga, 1944).

Da escola à Serra do Pilar, a pé e de metro, observando e ouvindo a Professora Marília Lobo,  lendo textos e registando  apreciações  alusivos à cidade ....




quinta-feira, 14 de março de 2019

SEMANA DA LEITURA NA EBIL


Programa

11 de março
Ensaio da peça A asa e a casa

13 de março
10 minutos a ler  na escola

14 de março
Momento musical com os 5º anos
Ensaio geral da peça A asa e a casa

15 de março
Apresentação da peça  A asa e a casa







Feito com Padlet




MOMENTO MUSICAL , 5º ANO


sexta-feira, 8 de março de 2019

Elas

“Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta. Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas. Elas vieram para a rua de encarnado. Elas foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água. Elas gritaram muito. Elas encheram as ruas de cravos. 

Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes. Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua. Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo. Elas ouviram falar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas. Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra. Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho. Elas tiveram medo e foram e não foram.

Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas. Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro uma cruzinha laboriosa. Elas sentaram-se a falar À roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o braço nas grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me aqui nos cachopos, senhora, que agente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é. Elas vieram dos arrabaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte da casa fechada. 

Elas estenderam roupas a cantar, com as armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam e não sabiam para aonde, mas que iam. Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.”

Maria Velho da Costa. (1976). Cravo. Lisboa: Moraes Editores.
Imagem: Copyright - Alfredo Cunha Official Fujifilm X-Photographer, Vila Verde, 2001

quinta-feira, 7 de março de 2019

A palavra e o mundo - O enigma da chegada (II)

"Eu via uma floresta. Mas não era realmente uma floresta; era a penas o velho pomar nas traseiras do casarão em cuja propriedade se encontrava a minha casa. Aquilo que via, via-o muito claramente. Mas não sabia para que estava a olhar. Não tinha nada em que pudesse encaixar aquilo que via. Sentia-me ainda uma espécie de limbo." (1)

V. S. Naipul tem uma obra longa e premiada, com destaque para o Booker Prize de 1971 e o Prémio Nobel da Literatura em 2001. Natural de Trindade, nas Caraíbas descende de uma família de origem indiana, cujos antepassados vieram da Índia para as Antilhas no processo de globalização económica que foi o Império Inglês no século XIX. V. S. Naipul concilia uma ironia e uma observação britânica com um espírito de análise e um minimalismo de vida ligado ao hinduísmo e à sua memória.

Partiu jovem para Inglaterra para estudar Literatura em Oxford e a sua vida de escritor   mistura-se, a partir de certo momento com a do homem. Processo e descoberta difícil, enquanto o escritor não compreendia que homem o habitava, nessa relação de culturas que viveu de forma intensa. O enigma da chegada, livro de 2008 é um testemunho deslumbrante desse percurso de vida e do nascimento do escritor e dos temas que o fundiram com o homem, o adolescente e criança em Trindade e o adulto em Oxford.

O enigma da chegada descreve-nos a evolução de um escritor, os locais por onde viveu, com destaque para o lugar que o fez renascer. Justamente um vale perto de Stonehenge, onde habitou uma casa que integrava uma grande propriedade rural, o que nos permite conhecer uma região, a sua ocupação humana no tempo. Espaço pertencente à aristocracia rural, nela vemos desfilar as personagens que lá trabalhavam, as suas motivações e compreendemos a atmosfera que as envolvia, o seu trabalho, a sua visão do mundo, a sua intimidade com as coisas. A casa habitada pelo autor e as experiências vividas nessa propriedade deram-lhe a possibilidade de encontrar o sentido, o significado para a efemeridade da vida humana.

O enigma da chegada faz a descrição precisa da paisagem, como o autor a via nos seus passeios e permitiu-lhe abordar um microcosmo, a sua relação com a sociedade e como o tempo vai desfazendo sentidos antigos. O enigma da chegada é um livro que pertence a uma categoria muito restrita. Aquela que tem a capacidade de dialogar com o leitor, como se falasse com ele directamente. O enigma da chegada é uma longa e aprazível conversa, onde se revela uma grande sensibilidade na observação. Os passeios de V. S. Naipul dão-nos uma observação muito cuidada da Natureza, da sua evolução no tempo. "O jardim de Jack" e os trabalhadores da mansão dão oportunidades de reflexão ao autor sobre a vida, as escolhas que se fazem e delas extrai sentidos que parecendo particulares são absolutos sobre a própria existência.

O passado, os seus fragmentos sem memórias, os vestígios, relíquias de outras vidas, de outros sonhos procuram dar um significado para a ideia de ruína e degradação. Sendo um livro auto-biográfico é muito, uma obra literária sobre o Homem no Tempo. Uma geografia antes dos homens, o trabalho humano como uma declaração poética, um sentido vivo da vida ou só mais uma ruína, são questões colocadas. Como lidar com essa mutação da vida, dos seus objectos no tempo, como compreender a degradação contínua, a mudança constante em nós, no nosso tempo?

A experiência do que vivemos e a linguagem, como instrumentos de uma memória e de uma exaltação são tentativas para obter uma resposta. E ainda a consciência final de que sobre a melancolia e as nossas dores é importante compreender "que a vida, o ser humano, era o mistério, a verdadeira religião dos homens, a dor e a glória" (p.438). E compreendê-lo com assombro pela vida e pelos homens. E aceitar que a vida é sempre o recomeço de nós próprios. E verificar mais uma vez que a Literatura pode ser em alguns circunstâncias um instrumento de contextos, de significados poéticos para uma sobrevivência. A da memória .

(1) V. S. Naipul. (2013). O enigma da chegada. Lisboa: Quetzal.

A palavra e o mundo - O enigma da chegada (I)

Jack vivia no meio de ruínas, no meio de coisas que já não serviam para nada e tinham sido substituídas por outras. Porém, esta visão de Jack e do ambiente que o rodeava só me surgiu mais tarde, e impôs-se com mais força agora, à medida que vou escrevendo. Não foi a impressão com que fiquei da primeira vez que, num dos meus passeios, passei por lá.

Essa ideia de ruína e degradação, essa sensação de deslocamento, era algo que eu experimentava em mim mesmo, algo que transportava em mim: um homem de meia-idade, originário de um outro hemisfério, com um passado completamente diverso, procurava repouso numa casa de uma propriedade meio abandonada, uma propriedade cheia de recordações de um passado eduardiano, com escassas ligações ao presente. (...)

No entanto, quanto a Jack, eu via-o como um elemento mais na paisagem. A sua vida parecia-me autêntica, enraizada, adaptada: a vida de um homem que encaixava perfeitamente na paisagem. Via-o como um vestígio do passado (cuja desagregação era anunciada pela minha própria presença).

Quando dei aquele primeiro passeio e me limitei a ver a paisagem, tomando aquilo que via como simples elementos desse mesmo passeio, coisas que podíamos encontrar no campo em redor de Salisbury, coisas imemoriais, apropriadas, não me ocorreu que Jack viva no meio do lixo, no meio das ruínas que tinham quase um século; que o passado que envolvia a sua casa podia não ser o seu passado; que podia ter sido, num dado momento, um recém-chagado ao vale; que o seu estilo de vida podia ter sido uma opção, um ato consciente; que, do pequeno terreno que lhe coubera em sorte juntamente com a casinha de trabalhador ruaral, Jack criara uma casa especial para si mesmo, um jardim onde (embora rodeado de ruínas, recordações de vidas desaparecidas), ele se sentia mais do que feliz por levar a vida que levava e onde, como numa versão de um Livro de Horas, ele celebrava as estaçoes. (....)

E, no entanto, ainda demorei algum tempo, à medida que ia ganhando consciência das estações, a descobrir o jardim. Até então, o jardim estivera simplesmente ali, qualquer coisa no caminho, um ponto de referência, nada que merecesse grande atenção da minha parte. E, no entanto, eu amava aquela paisagem, as árvores, as flores, as nuvens, e era sensível às mudanças de luz e temperatura.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019


Neste nosso primeiro  Percurso pela Cidade, visitamos a Câmara Municipal do Porto. Fomos recebidos pela Dra. Lurdes Ribas, que nos falou de história , mas que também nos contou histórias  acerca do icónico  edifício.
Publicamos as imagens que estiveram na origem do seu discurso.



quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019


DIA DE S. VALENTIM


Segundo o estudo recentemente divulgado da investigadora Madalena Oliveira, da Universidade Fernando Pessoa, “Transmissão intergeracional da violência: o contexto familiar, as relações de intimidade e as crenças dos jovens”, com base num inquérito realizado nos anos letivos de 2008 a 2010 e que envolveu 1476 jovens com idades entre os 15 e os 20 anos de escolas de seis distritos do norte e centro do país, cerca de 25% dos jovens participantes, que mantinham àquela data um relacionamento íntimo, admitiu ter adotado um comportamento violento, pelo menos uma vez, com o seu parceiro/a, enquanto cerca de 22,5% admitiu ter sido vítima de agressão do parceiro/a.

Assim, no âmbito da comemoração do Dia de S. Valentim, a nossa biblioteca recebeu a visita de dois agentes da PSP, que vieram dinamizar uma ação subordinada ao tema  Quem te ama, não te agride!


Foram identificados comportamentos  incorretos, foram referidos os direitos das vítimas , assim como as diversas organizações às quais se pode recorrer em caso de necessidade. No entanto, a mensagem fundamental apelou à consciencialização da importância da denúncia e à desmistificação da reserva da vida privada no que a estes crimes diz respeito. 

De salientar a atenção e participação ordenada dos nossos alunos, o que permitiu concluir que o tema não só foi muito pertinente, como dele terão decorrido aprendizagens que, desejamos, surtam efeitos na desejável mudança de mentalidades. 




sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019



DIA DA LEITURA EM VOZ ALTA



Com o objetivo de implemetar o Referencial Aprender com a 

Biblioteca Escolar e promover a leitura expressiva,  

Professora Isabel Barbosa celebrou o Dia da Leitura em 

Voz Alta. 

Com base no livro O 10 magnífico, de Anna Cerasoli,  foi 

analisado e lido o primeiro capítulo sobre a história dos 

números naturais. 



segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

A palavra e o mundo - Carta ao futuro (II)


O que era o País e o mundo em 1957? À exceção de Sophia e de Jorge de Sena, o País era na década seguinte ao fim da 2ª Grande Guerra a manipulação cinzenta de uma fantasia de crianças. Ficaria a sê-lo por muitas outras ainda. O Mundo após o terror alemão conduzido pelos nazis emergia no que alguns consideravam o homem novo, os amanhãs que cantariam. Outros se encantariam por essa infantilidade de nenhuma substância.

Em fins da década de cinquenta o País e o mundo eram a mais profunda sonolência, uma anestesia de vontade por algo que significasse decência e humanidade. É desse ano que Vergílio Ferreira escreve um livro que devia figurar nas estantes de qualquer pessoa com intenções de compreender a vida e ter nela um papel substantivo. Justamente, Carta ao futuro.

Vergílio tornou-se mais conhecido. Um pouco mais. Não muito mais. Pois ainda é possível ouvir doutores da formalidade invocar a sabedoria de sebentas, onde palavras comuns desenham gramáticas de compreensão pouco empenhadas nesse sentido que  foi a sua escrita. A da justamente invocar a nossa verdade emotiva, aquela que nos faz apreender o mundo, por cima de códigos ideológicos, ou de confissões do nada. Vale a pena lê-lo. Ele foi um percursor da substância que mora em nós, um leitor da brevidade e da magia de estar vivo.

Muitas vezes desdobramos palavras de quem gostamos ou que nos dizem algo pela sua relevância curricular, pela sua ligação a um património cultural e civilizacional. Com Vergílio Ferreira arendemos palavras, ideias, formas de pensar a vida e a existência. Aprendemos formas de pensar possibilidades de criar no real a nossa própria forma de sermos humanos. Vergílio é um homem essencial não só da cultura portuguesa e europeia do século XX , mas de muitos mais.

Com Vergílio Ferreira aprendemos a difícil ética de sermos humanos, compreendemos a necessidade absoluta de olhar o mundo através de um sentimento estético, que apenas a arte nos permite obter. Com Vergílio percebemos que a leitura do mundo faz-se pela nossa emotividade, a quilo que nos faz ter sentido, "a verdade humana" que nos orienta. É no nosso diálogo com uma dimensão estética da vida que o mais essencial de nós se afirma. É uma grande lição dada quando muitos gritavam revoluções e impérios universais. Obrigado amigo!

A palavra e o mundo - Carta ao futuro (I)


O sentimento estético da vida não é exclusivo das obras de arte. Nós o sabemos das horas silenciosas em que a sua face se adivinha e não há ainda uma obra de arte a traduzi-la. a integrá-la numa manifestação. Assim nos não é possível imaginar um mundo sem arte, por mais que admitamos o esgotamento das formas que herdámos, por mais que admitamos que a arte terá de ser inventada de novo através de formas que mal ainda vislumbramos. 
Mas ainda que fosse possível imaginar um mundo sem arte, sem obras que o exprimissem, jamais seria imaginável um mundo estendido fora do sentimento estético, fora da qualidade emotiva que no-lo explica à nossa relação humana com ele.
Porque é dentro da emotividade que o mundo tem sentido, e a verdade humana, e a orientação fundamental de tudo o que nos orienta. Porque o sentimento estético é uma comunicação original com a essencialidade da vida - como esta que se abre na voz obscura da chuva que dura ainda.
Eu a ouço, eu a ouço, desde os confins da memória, balançando na rua a solidão dos espaços. Eu a escuto na vidraça como um apelo clandestino para um encontro de outrora. Que a água de pureza que te trespasse, e seja tu, rememore a água obscura do nosso horizonte - e a vida se continuará, una, indestrutível, igual e sem margens, como é igual na sua total presença, a vertigem da noite e a iluminação do dia.


Saúde, amigo.


 Vergílio Ferreira. (2010). Carta ao Futuro. Lisboa; Quetzal, pgs. 101 e 102


quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Memória de Miguel Torga

Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses
De nehum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez te reconheças.

Miguel Torga, "Sísifo", in Diário XIII
Imagem: entre as serranias do parque natural de Montesinho

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019


HORA DO CONTO 


A nossa escola recebeu a visita de  Ana Esteves, que nos veio contar a história do Cavaleiro  
da Dinamarca

Para além do seu trabalho como contadora de histórias em Bibliotecas Escolares trabalha ainda num projeto  de leitura intitulado “Histórias Encenadas” no Centro Multimeios de Espinho. Atualmente integra também o projeto “Histórias da Vida em Dó Maior”, em parceira com a tocadora e cantadora de histórias Lúcia Barbosa, um projeto que visa  incentivar a leitura estimulando ao mesmo tempo a musicalidade das crianças.







terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Luther King - A memória da Humanidade


A "civilização" americana em muitos dos seus fundamentos deu-nos figuras universais, que modelaram a forma mais sublime da consciência humana. Martin Luther King foi um dos mais elevados exemplos de humanidade, feito de determinação, coragem e visão de um mundo mais justo. 

Luther King, nasceu em Atlanta, na Geórgia, formou-se no Morehouse College, tendo sido ordenado pastor da Igreja Baptista aos dezoito anos. Estudou na Universidade de Boston, onde foi influenciado pelas ideias pacifistas de outro imenso ser humano, Mohandas Gandhi. Martin Luther King conduziu a sua vida pela defesa dos direitos cívicos dos americanos, em especial dos que eram profundamente discriminados. Procurou defender com energia e coragem os direitos das minorias, em especial os negros que eram vítimas de segregação racial. Lutou por estes ideais através de protestos e marchas pacíficas e discursos de grande determinação e inspiração.

Participou na fundação do CLCS (Conferência de Liderança Cristã do Sul) que organizou os protestos não-violentos, especialmente contra a situação de segregação racial dos negros nos Estados do Sul. Situação que limitava o direito de voto, discriminava as pessoas nos seus direitos mais básicos apenas pela cor da sua pele. As manifestações de protesto em Alabany em 1961 e 1962, em Birmingham em 1963, em St Augustine em 1964 e em Selma reafirmaram o seu protesto e a luta pelos direitos cívicos na América.

Em 1964, recebeu o Prémio Nobel da Paz, como reconhecimento da sua luta não violenta contra os preconceitos raciais. Em 1965 conseguiu concretizar a marcha entre o Alabama e Selma e a partir de 1968, ano em que foi assassinado em Memphis, organizou uma campanha de luta contra a pobreza (A Campanha dos Pobres). A partir de 1986, os Estados Unidos celebram na 3ª segunda-feira do mês de Janeiro, um feriado designado - Dia de Martin Luther King.

Martin Luther King representa a consciência da humanidade pela defesa da dignidade humana e dos valores que devem organizar a sociedade - a igualdade de todos perante a Lei. As suas palavras e a sua luta são uma inspiração para continuar a procurar individualmente melhorar a construção de uma Humanidade inacabada e que esteja cada vez mais próxima do valor que cada um tem.

Mais do que estas palavras, o vídeo colocado no post anterior, com o seu inspirado discurso, «I Have a Dream», realizado em 1963 demonstra a grandeza deste homem, que abriu um caminho de esperança. Em momentos da nossa própria contemporaneidade, algumas das suas ideias encaminharam linhas de esperança para uma sociedade mais humana. "Yes we can" do presidente Obama foi beber muito a esta ideia de King, de que sim, é possível com determinação mudar a ferrugem instalada pela ignorância. Nos tempos sombrios que se vivem o seu exemplo deveria inspirar-nos a lutar por tudo aquilo que não contempla em si a dignidade humana.