Será possível estar e
não estar ao mesmo tempo presente no mundo? Acho que sim.
Para mim, os breves momentos em que me
deixo estar no horizonte ou me encanto com tudo o que me rodeia, ou quando não
faço mais nada senão observar uma rocha coberta de musgo verde e me sinto
incapaz de desviar o olhar dela ou, então, quando simplesmente tenho uma
criança ao colo, são os mais preciosos.
O tempo, de súbito, pára e sinto-me
interiormente presente e, ao mesmo tempo, completamente distante. De súbito, um
breve momento pode parecer uma eternidade.
É como se o momento e a eternidade se
tornassem um só. Naturalmente, aprendi que são coisas opostas. Cada um deles
está num dos pratos da balança. Mas, por vezes, tal como o poeta William Blake,
sinto-me incapaz de distinguir entre a eternidade e aquela breve partícula de
tempo:
“Para ver um Mundo num Grão de Areia
E um Céu numa Flor Silvestre,
Segura o Infinito na palma da tua mão
E a Eternidade numa só hora.”
Vivo para sentir momentos como este.
Sinto-me como um pescador de pérolas que, ao abrir uma concha, de repente,
encontra a pérola perfeita.
A eternidade, o momento ou a experiência
de ter encontrado a pérola “não existe de todo no tempo”, escreve o filósofo
Søren Kierkegaard. De modo geral, o tempo é uma “Sucessão interminável” em que
a um segundo segue outro. Porém, de repente, a experiência do tempo altera-se,
dado que a sucessão, ao fim e ao acabo, não é interminável. Um segundo não leva
ao seguinte. O tempo fica suspenso e o presente deixa de estar em oposição
tanto em relação ao passado como ao futuro nessa “Sucessão anulada”, como lhe
chamava Kierkegaard. Experimenta-se então a plenitude do tempo no momento.
O prazer que sinto ao ler, sentir e pensar
nesses momentos, reside no faco de eles reflectirem as experiências que tive na
natureza, na cama, e quando leio, experiências que eu considerava muito mais
raras quando era mais novo. No entanto, ao fim e ao cabo, não eram assim tão
invulgares. O mundo fica suspenso durante um momento, e a paz e o silêncio
interiores prevalecem. Trata-se de sentimentos que creio que todos temos em
graus diferentes e de vários modos, e que julgo que vale a pena alimentar. De
vez em quando, trago da montanha uma pedra coberta de musgo e ponho-a na
bancada da cozinha ou deixo-a a na sala, para me recordar dessas experiências.
E tenho-as oferecido, várias destas pedras, dotadas de uma beleza particular.
Silêncio na Era do
Ruído: Erling Kagge; tradu. Miguel de Castro Henriques. 1ª ed. – Lisboa:
Quetzal, 2017. – 156, [3] p. ; 20 cm. – ISBN 978-989-722-385-3

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