sexta-feira, 30 de novembro de 2018

A vida humana (II)



Pensar o Humano é verificar aquilo que o pode definir. As hipóteses são diversas. O que esse ser constrói, o que fabrica, o que pode sentir, o que compreende no Universo onde existe são formas de o definir, ou será apenas necessário identificá-lo numa categoria, numa substância material do tempo? 

A vida humana define-se por uma biologia que desconhece os valores da nossa imaginação, ou contempla-se para esse prazer essencial que conduz-se mais para a ela própria? E assim quando falamos em liberdade não estaremos a falar evidentemente de procura de felicidade? Para esta questão longa e difícil muitos recursos se podem encontrar. A arte, como construção temporal do homem, a Filosofia como interrogação permanente da palavra, do nome das coisas. Façamos essa viagem para colocar perguntas, raras vezes encontrar respostas definitivas.

Por muito acreditou-se, que o ser humano que era chamado Homo Sapiens, isto é, o homem racional, e o Homo Faber, o homem que fabrica ferramentas. Bem... de fato, somos Homo Faber. Todos o somos, pelas canetas que utilizamos, pelos computadores que utilizamos. 
Homo Sapiens, a racionalidade, é excelente. Só que também sabemos que a racionalidade apenas abstrata deixa ser racional. Sabemos que não há pensamento racional sem emoção. Até mesmo o matemático, tem a paixão da Matemática. Ou seja, não podemos pensar apenas pela razão fria. Realmente os computadores estão apenas no domínio da razão fria. Não tem sentimentos, nem vida. Se os deixássemos governar a Humanidade estaríamos em grande perigo. 

Somos, pois indivíduos capazes de emoções e de loucuras também. E, no fundo a dificuldade da vida é realmente navegar. Numa viagem, de nunca perder a racionalidade, mas também, de nunca perder o sentimento e sobretudo, o amor.
É verdade que ouvimos muitas vezes que somos homens de economia. Naturalmente, pois temos interesses económicos, mas somos Homo Ludens também. Gostamos do jogo. Não só as crianças, mas também os adultos. Há muitos exemplos disso. O jogo faz parte da vida. Do mesmo modo, a prosa. 

De facto, ela faz parte da vida porque são as coisas necessárias e obrigatórias que fazemos, mesmo as que não nos interessam. Mas o importante, já o tenho dito, a prosa serve só para sobreviver. Mas a poesia é viver, é o próprio desabrochar. É a comunicação, é a comunhão. Se tivermos essa definição aberta do que significa o que é um ser humano, então teremos em conta toda a dimensão humana. Mas se ela for fechada e económica, iremos perdê-la."

Edgar Morin, "Roda Viva". 2000 - Entrevistas dadas no Brasil
Imagem - © Carla DLM

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

No episódio de um rosto - na memória de Herberto Helder

Levanto à vista
o que foi a terra magnífica
e as estações mais bêbedas
E estou tão leve
porque não tenho nenhum segredo
e tão oculto
porque daqui a nada 
já posso dizer tudo.

Daqui a uma pouca ciência
saberei pensar que daqui a um pouco depois
estarei morto
e só de pensar
já nem respiro
já quase
em nada toco
Já vejo no fundo das mãos
daquilo que fica escrito
Que escrevi coisa nenhuma do mundo
até ao esquecimento e movendo-me com as unhas
movo-me nos nomes inúmeros
para dizer que mal nasci
logo me deram por morto.

E não fui tido nem havido
na razão do episódio de um rosto
ter passado por um espelho e ter desaparecido.
Portanto não me venha ninguém falar de nada
sei bastante do que sabem todos
Vejo a água a mover-se contra si mesma
tão marítima e acho até que é bonito
cada qual morre do que alcança e não alcança
e ninguém compreende
a água que toca os dedos que escreveram até às pontas
e passa a água fácil
sem retorno
porque nada tem retorno e tudo é dificílimo
não só o máximo, mas também o mínimo. 

Herberto Helder, "7º poema", in Servidões

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

A palavra e o mundo - Silêncio na era do ruído (II)


O silêncio que vive na rocha
Na parte interior de cada folha
E no espaço azul entre as pedras.

Temos como civilização uma clara dificuldade em suspender o barulho, em permanecer em silêncio num determinado espaço que habitamos. Pascal disse-o em primeiro lugar quando enunciou no século XVII, uma verdade civilizacional, nessa expressão, "todos os problemas da humanidade decorrem da incapacidade de o homem ficar tranquilamente sozinho no seu quarto". A consequência desta incapacidade é a construção de meios, objectivos, formas que captem a nossa atenção. Isso desloca-nos para longe de nós, para o nosso exterior e é uma das razões por que tantos temem esse espaço do sagrado, o silêncio. Não aquele que nos rodeia, mas aquele  em que estamos fundados, o interior.

O silêncio pode ter em si uma construção visível, algo tão substantivo, "como um oceano, ou uma interminável extensão de neve", e essa "majestade", uma companhia viva ou a atmosfera de um temor. É na sua companhia que podemos aprender muito sobre nós próprios. Para o construir em nós o primeiro passo passa por falar com um dos seus elementos primordiais, a natureza. Se há espaços que melhor conduzem esta sinfonia de encanto primordial, ele pode também manifestar-se nos espaços cívicos de cada um. Isso significa conduzir um processo mental, uma escolha, a realização de actividades manuais, um regresso a algo básico e fundador da essência da vida.

Estas escolhas e estas experiências, como o regresso à natureza e a prática de actividades no interior de uma procura conduz o cérebro a desenvolver um processo, implica um esforço pela concretização de uma ideia, de uma experiência. O movimento no interior dessas escolhas e desses espaços conduz a mente, implica um movimento do corpo, constrói uma possibilidade de encontrar o silêncio em nós. Esse é o silêncio tangível, criado por nós no interior das coisas. Essa construção dar-nos-á não só uma atmosfera interior, como um espaço que nos acompanha.

Erling Kagge, homem de grandes viagens aos espaços mais distantes e mais inabitados do planeta, justamente os pólos faz parte de um tipo de aventureiros que viram no movimento uma das formas de contornar a melancolia das sociedades. Em Silêncio na era do ruído, Erling Kagge reflecte sobre o silêncio, o seu valor para cada um de nós, o espaço de vitalidade que ele pode fornecer para essa dimensão de verdade que cada um procura. No fundo na construção do silêncio somos nós os mestres desse templo à beira de cada desafio colocado. Um pequeno livro. Um grande livro, desses muito raros que falam com o leitor, como se em cada um de nós seja possível chegar a um pólo de extremidade e nele renascer com um sentido próprio, o do silêncio. 

Silêncio na Era do Ruído: Erling Kagge; tradu. Miguel de Castro Henriques. 1ª ed. – Lisboa: Quetzal, 2017. – 156, [3] p. ; 20 cm. – ISBN 978-989-722-385-3

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

A vida Humana


Uma ideia para os próximos meses com a regularidade possível. A da imaginação, e a de pensar os outros, de estabelecer essa relação com o outro, a fonte da cidadania, o que Hannah Arendt sublinhou como a ponte para a existência humana, o pensamento.  
O que pensamos e o que sentimos sobre o que somos, a Humanidade que nos compõe e os outros, o que sentimos com eles numa viagem feita num espaço único, o universo que nos foi oferecido?
Com esta etiqueta (Direitos Humanos) falaremos no fundo de nós. Que textos, que ideias, que imagens, que palavras possíveis para esta dimensão da vida?  Aquelas que o pensamento nos permitir construir, a dos alunos e a de todos os que quiserem colaborar.
A arte tem ao longo dos séculos dado respostas, possibilidades para a definir numa aproximação real do que somos em cada época. É um bom lugar para começar.



DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS




segunda-feira, 19 de novembro de 2018

A palavra e o mundo - Silêncio na era do ruído (I)


   Será possível estar e não estar ao mesmo tempo presente no mundo? Acho que sim.
  Para mim, os breves momentos em que me deixo estar no horizonte ou me encanto com tudo o que me rodeia, ou quando não faço mais nada senão observar uma rocha coberta de musgo verde e me sinto incapaz de desviar o olhar dela ou, então, quando simplesmente tenho uma criança ao colo, são os mais preciosos.
   O tempo, de súbito, pára e sinto-me interiormente presente e, ao mesmo tempo, completamente distante. De súbito, um breve momento pode parecer uma eternidade.
  É como se o momento e a eternidade se tornassem um só. Naturalmente, aprendi que são coisas opostas. Cada um deles está num dos pratos da balança. Mas, por vezes, tal como o poeta William Blake, sinto-me incapaz de distinguir entre a eternidade e aquela breve partícula de tempo:



     “Para ver um Mundo num Grão de Areia
      E um Céu numa Flor Silvestre,
      Segura o Infinito na palma da tua mão
      E a Eternidade numa só hora.”

    Vivo para sentir momentos como este. Sinto-me como um pescador de pérolas que, ao abrir uma concha, de repente, encontra a pérola perfeita.
     A eternidade, o momento ou a experiência de ter encontrado a pérola “não existe de todo no tempo”, escreve o filósofo Søren Kierkegaard. De modo geral, o tempo é uma “Sucessão interminável” em que a um segundo segue outro. Porém, de repente, a experiência do tempo altera-se, dado que a sucessão, ao fim e ao acabo, não é interminável. Um segundo não leva ao seguinte. O tempo fica suspenso e o presente deixa de estar em oposição tanto em relação ao passado como ao futuro nessa “Sucessão anulada”, como lhe chamava Kierkegaard. Experimenta-se então a plenitude do tempo no momento.

     O prazer que sinto ao ler, sentir e pensar nesses momentos, reside no faco de eles reflectirem as experiências que tive na natureza, na cama, e quando leio, experiências que eu considerava muito mais raras quando era mais novo. No entanto, ao fim e ao cabo, não eram assim tão invulgares. O mundo fica suspenso durante um momento, e a paz e o silêncio interiores prevalecem. Trata-se de sentimentos que creio que todos temos em graus diferentes e de vários modos, e que julgo que vale a pena alimentar. De vez em quando, trago da montanha uma pedra coberta de musgo e ponho-a na bancada da cozinha ou deixo-a a na sala, para me recordar dessas experiências. E tenho-as oferecido, várias destas pedras, dotadas de uma beleza particular.

Silêncio na Era do Ruído: Erling Kagge; tradu. Miguel de Castro Henriques. 1ª ed. – Lisboa: Quetzal, 2017. – 156, [3] p. ; 20 cm. – ISBN 978-989-722-385-3

A biblioteca convida a comunidade escolar para assistir a uma palestra  sobre as ameaças aos oceanos.