Uma obra de arte por dia -
Interpretar o real, reconstruir o mundo!
O enigma de um olhar, o
tempo suspenso e um instante em representação, algumas das vertentes com que a
História de Arte costuma designar o século de ouro da pintura holandesa. Dessa
iconografia do quotidiano, de um amor vivo nas tarefas diárias, de um espaço de
intimidade, chegamos também às figuras solitárias dessa pintura.
Nesta pintura as
figuras, as pessoas estão sós e definem-se pelas suas tarefas, pelas suas
atitudes nos espaços e apenas por si. Não existe necessidade de cada uma das
figuras se preencher num outro. Nesta pintura cada figura constrói-se
inteiramente pelo que realiza sozinha, com a sua postura física. Nela vemos as
emoções desvendadas em pequenos gestos, os cabelos em caracóis pendentes sobre
o peito, as linhas do vestuário envolvendo corpos, definindo atmosferas, ou a
guitarra que em precisos movimentos parece evidenciar um som. Como nos
surpreendemos, com a elegância das formas de um corpo que se expande num
espelho, ou os gestos de uma pequena boca semi-aberta, ou um sorriso que se
estende num cumprimento.
A pintura holandesa do
século XVII é feita da apresentação de figuras, de fisionomias que adivinham
formas de enredos familiares e sociais. A carta que se escreve, o olhar fixo
num sentimento, um pequeno drama que se apresenta, como uma saudade, ou uma
inquietação. E depois, sobretudo com Vermeer é a luz que nos
chama, que nos encanta, como forma de comunicação a uma representação.
Vermeer pintou um conjunto de quadros onde notamos nenhum artificialismo da
luz. Esta apresenta-se precisa e muito idêntica como a vemos na natureza, tal
"como um físico escrupuloso a poderia desejar" (1). Há uma
apresentação de raios de luz que se expandem de uma ponta à outra do quadro,
pois a luz parece emergir da própria pintura. O espetador surge neste olhar
como uma testemunha de um momento, de uma vontade e de um tempo
quotidiano.
(1) Theóphile Thoré Alias W. Bürger, "Van der Meer
Delft", in Gazette des Beaux Artes, XXI, 1866.
imagem - Detalhe de A
Carta, 1670, National Gallery of Ireland, Dublin.

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