quarta-feira, 30 de maio de 2018

Bioética - os seus campos de decisão



A civilização moderna encontra-se numa posição difícil, porque embora edificada para nós, não está ajustada à nossa medida. A nossa ideia de homem ainda não encontrou o seu lugar estranho e complexo, ela oscila entre a visão filosófica, que o erige no único sujeito num mundo de objetos, e a visão científica que tende a ignorar o espírito humano. Ainda não ajustámos a nossa visão do Homem ao Homem e do mundo ao mundo.

Recordamos aqui a célebre alegoria da caverna. As sombras projetadas no fundo da caverna são o mundo natural, aquele que percecionamos. Esses prisioneiros agrilhoados no seu lugar e aos quais uma gargantilha impede de voltar a cabeça “é connosco que se assemelham”. A fascinação que o jogo irrisório das silhuetas imprecisas exerce sobre esses infelizes revela o nosso estado, sentimo-nos perdidos: o meio elaborado pelo Homem não se ajusta à nossa estatura, nem à nossa natureza. Assim poder-nos-emos questionar se o Prometeu revestido pelo poder, desagrilhoado, na opinião de alguns, ou seja com o poder de intervir, de praticar o possível e mesmo o impossível, não o vai voltar a agrilhoar, se ele não olhar ao conveniente.

Vivemos num presente esmagado pelo peso do futuro. A nossa relação com o tempo é, antes do mais, uma relação extremamente dura e violenta com o futuro. Fala-se do futuro mas, paradoxalmente, nunca fomos tão responsabilizados pelo futuro que devemos deixar às gerações seguintes. Deveríamos, portanto, mudar radicalmente de atitude e romper com todo o tipo de utopismo. Quer o aceitemos ou não, estamos investidos de uma responsabilidade desconhecida, a de deixarmos às gerações futuras uma terra habitável e um mundo sustentável. Sem isto, os nossos descendentes não serão capazes de progredir, nem exercer as suas responsabilidades.

Necessitamos de uma reabilitação do ethos, dos valores morais que fundamentam as atitudes humanas; precisamos da ética, de teorias filosóficas sobre os valores e normas que devem nortear as nossas decisões e comportamentos. A atual crise deve ser entendida como uma oportunidade; importa encontrar uma resposta para os desafios do presente. Se o futuro não está escrito, é múltiplo. Assim todas as possibilidades, mesmo o impossível, são imagináveis. A questão da escolha é portanto essencial.

A Bioética, ética aplicada às ciências da vida, surge na interseção de uma crise de valores e de normas coletivas com o desenvolvimento do individualismo das pessoas e do pluralismo das sociedades. Estimula o debate público sobre as escolhas para o nosso futuro, promovendo uma alteração de consciência, incentivando a participação informada e responsável dos cidadãos. Como ciência transdisciplinar, começa a ser reconhecida como a componente indispensável da formação do cidadão empenhado na vida coletiva, tornando-se numa ética do cidadão, numa ética cívica, enquanto reflexão sobre a ação que se desencadeia, desenrola e se repercute na comunidade global. Tal como defende Victoria Camps (1998), a participação cívica deve ser encarada como a estrutura moral da democracia, onde a ética contribui de um modo determinante para a formação de uma consciência de deveres inerente à formação de direitos, o que faz com que funcione como um elemento de ponderação na educação para a cidadania.

É justamente pela sua especificidade que a Bioética, quando considerada sob o ponto de vista da educação para a deliberação, constitui uma oportunidade excecional para o desenvolvimento de competências reflexivas, críticas, de base plural e democrática. Ao mesmo tempo, permite desenvolver a consciência da responsabilidade e da necessidade da deliberação para a decisão, reconhecendo a posição do outro sem (pré)-conceitos, pressuposto indispensável para um qualquer debate ético.

Ana Sofia Carvalho, "A Bioética e a responsabilidade de deliberar para decidir", Observatório da Cultura, nº 21, in http://www.snpcultura.org/

terça-feira, 29 de maio de 2018

O livro e o leitor (X)


Um leitor por dia - celebrar os momentos íntimos da leitura!
Um livro, o que pensa de nós, os leitores? Que emoção terá nesse processo que é uma suporte e uma experiência contínuas?

Não é fácil ser um livro. (...)

Poderia dizer, com toda a justificação, que somos uma espécie ameaçada - à beira da extinção, na verdade. E, se tal acontecesse, seria uma perda incalculável porque não somos uma espécie comum. A destruição de um qualquer género e, claro está lamentável, mesmo que não passe de um raminho absolutamente irrelevante do tronco maciço da evolução um qualquer beco sem saída. Mas quando uma das únicas formas de vida inteligente que alguma vez pisaram este mundo se vê confrontada com o desaparecimento, trata-se de uma verdadeira catástrofe evolutiva.

Ninguém com um mínimo de inteligência pode negar que, além da humanidade, nós os livros, somos os únicos seres inteligentes à face da terra. De facto, uma análise imparcial concluiria certamente que, de uma maneira geral, a nossa reivindicação é a mais correcta. Para começar, embora estejamos simbioticamente unidos aos humanos, poderíamos, em última instância, viver sem eles. Para que é precisamos deles, exactamente? 

Para nos lerem? Trata-se de uma atividade recreativa que os beneficia apenas a eles, não a nós, de todo. Enquanto atividade física só nos causa danos - vários tipos de danos.
E poderiam eles passar sem nós? Deus nos livre! Sem livros, qual seria a condição da raça humana? Continuariam a arrastar-se no mesmo estado, primitivo e miserável, em que os encontrámos quando aparecemos, há cinco mil anos: uma espécie conhecida pela sua capacidade de esquecer mais rapidamente as coisas do que as memorizar. Não estivéssemos nós à mão para oferecer a nossa abnegada ajuda na tarefa de memorização, não tivéssemos nós memorizado em seu nome, estes pobres seres não teriam qualquer história.

Teriam esquecido praticamente tudo. E como poderia alguém apresentar-se como um indivíduo inteligente, se não recordasse o seu próprio passado, incluindo o passado recente? Ao contrário dos seres humanos, contudo, nunca esquecemos nada. Quando aprendemos algo, esse algo permanece connosco para sempre, inexpugnável. (...) Então quem é superior? O atirador de paus e pedras, talvez?

 Mas isso não é tudo. Os humanos não são apenas esquecidos, são também pessoas de breve e fraca concentração. Em suma: as suas mentes dispersam-se. Na maior parte das situações não pensam, de todo; quando o fazem, teria sido melhor se não o houvessem feito. Para a maioria das pessoas, a vida passa sem que uma ideia brilhante - ou mesmo inteligente - lhes atravesse a mente.  
No caso dos raros indivíduos que são capazes de encarrilar, mais ou menos, as suas ideias, os seus preciosos pensamentos depressa ganhariam asas e voariam para longe, se não no-los confiassem para que os guardássemos.

Somos, agora, o repositório de que tudo o que o seu circo de cem mil milhões de palhaços - que é mais ou menos o número que por aqui passou desde que desceram das árvores - conseguiu alinhavar com grande custo, tanto em trabalho como em dor. Se alguma vez decidíssemos negar-lhes acesso a esse armazém de conhecimento, teriam de começar tudo do zero. (...) Torna-se, assim, claro que é do interesse das pessoas não colocar os livros em perigo. Pelo contrário, deveriam cuidar de nós; deveriam proteger-nos e defender-nos, pois nunca lhes fizemos outra coisa a não ser o bem. Somos o seu parceiro simbiótico: damos prodigamente e quase nada pedimos em troca.

Zoran Živković. (2016). O Livro. Lisboa: Cavalo de Ferro.

Uma obra de arte por semana (X)


                                    Uma obra de arte por dia - Interpretar o real, reconstruir o mundo!

O enigma de um olhar, o tempo suspenso e um instante em representação, algumas das vertentes com que a História de Arte costuma designar o século de ouro da pintura holandesa. Dessa iconografia do quotidiano, de um amor vivo nas tarefas diárias, de um espaço de intimidade, chegamos também às figuras solitárias dessa pintura.

Nesta pintura as figuras, as pessoas estão sós e definem-se pelas suas tarefas, pelas suas atitudes nos espaços e apenas por si. Não existe necessidade de cada uma das figuras se preencher num outro. Nesta pintura cada figura constrói-se inteiramente pelo que realiza sozinha, com a sua postura física. Nela vemos as emoções desvendadas em pequenos gestos, os cabelos em caracóis pendentes sobre o peito, as linhas do vestuário envolvendo corpos, definindo atmosferas, ou a guitarra que em precisos movimentos parece evidenciar um som. Como nos surpreendemos, com a elegância das formas de um corpo que se expande num espelho, ou os gestos de uma pequena boca semi-aberta, ou um sorriso que se estende num cumprimento.

A pintura holandesa do século XVII é feita da apresentação de figuras, de fisionomias que adivinham formas de enredos familiares e sociais. A carta que se escreve, o olhar fixo num sentimento, um pequeno drama que se apresenta, como uma saudade, ou uma inquietação. E depois, sobretudo com Vermeer é a luz que nos chama, que nos encanta, como forma de comunicação  a uma representação.

Vermeer pintou um conjunto de quadros onde notamos nenhum artificialismo da luz. Esta apresenta-se precisa e muito idêntica como a vemos na natureza, tal "como um físico escrupuloso a poderia desejar" (1). Há uma apresentação de raios de luz que se expandem de uma ponta à outra do quadro, pois a luz parece emergir da própria pintura. O espetador surge neste olhar como uma testemunha de um momento, de uma  vontade e de um tempo quotidiano.

(1) Theóphile Thoré Alias W. Bürger, "Van der Meer Delft", in Gazette des Beaux Artes, XXI, 1866.
imagem - Detalhe de A Carta, 1670, National Gallery of Ireland, Dublin.

Um poema por semana (X)

     
 Um poema por dia - a imaginação para iluminar ou compreender o real!

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.


A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nos queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós - próprios. 


Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Imagem, © – Monica Elise Vestre, Art by Nature.


Odes escolhidas de Ricardo Reis / Fernando Pessoa ; ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith. - 1ª ed. - Porto : Assírio & Alvim, 2013. - 149, [2] p. ; 20 cm. - (Pessoa breve). - Bibliografia, p. 139-144. - ISBN 978-972-37-1693-1

sexta-feira, 25 de maio de 2018

A palavra e o mundo - Fantasmagorias (II)

Ela foi e é uma das grandes escritoras do século XX com a atribuição que isso tem de relativo, pois a sua escrita congelou comportamentos e formas de humano que ultrapassam muito o seu tempo. A sua vida foi um contraste de emoções, angústias e momentos de clarividência que deixou em livros como As Ondas, Mrs Dallowway ou Orlando.

Londres foi matéria-prima da sua escrita e neste pequeno livro agora editado, a propósito de comprar um lápis é feita uma viagem pela cidade. Faz-se a descrição sobre o que a viagem nos pode trazer, mesmo em espaços próximos do local onde se habita. Recuperar as memórias de espaços com multidões, onde muitas histórias se perdem é a linha condutora deste pequeno livro de 1927, publicado agora através de uma nova editora, A Feitoria dos Livros. Livro ricamente ilustrado com fotografias do quotidiano de Virginia Woolf e dos espaços citadinos de Londres no final da década de vinte do século passado.
Nunca aconteceu, talvez, alguém sentir-se apaixonadamente distraído por um simples lápis. Mas há circunstâncias nas quais o desejo de possuir um se pode tornar absolutamente avassalador; momentos em que, sob pretexto de possuir um objecto, estamos a inventar uma desculpa para calcorrear metade de Londres entre a hora do chá e a hora do jantar. (...)

protegidos por este argumento nos pudéssemos entregar, em segurança, ao mar dos prazeres com que a vida citadina nos alicia durante o Inverno - deambular pelas ruas de Londres. Convém que a hora seja ao cair da tarde, e a estação o Inverno, pois no Inverno o brilho esfuziante do ar e a sociabilidade das ruas são compensadoras. Não nos sentimentos atormentados, como no Verão, pelo desejo de sombra, de isolamento e do ar suave dos campos de feno. E também porque o cair da tarde nos permite sentir a irresponsabilidade que a escuridão e a luz dos candeeiros concedem. Já não somos exactamente os mesmos.
Assim que pomos um pé fora de casa, entre as quatro e as seis horas de uma bela tarde, largamos o eu pelo qual os amigos nos conhecem, e tornamo-nos parte daquele vasto exército republicano de vagabundos anónimos cuja companhia é tão agradável, depois de termos estado no retiro daquele quarto só nosso. Porque neste permanecemos rodeados de objectos que expressam, de modo eterno, a singularidade dos nossos temperamentos e reforçam as memórias da nossa experiência.

             Virgina Woolf. (2016). Fantasmagorias. Lisboa: Feitoria dos Livros, pág. 29 e 31 

terça-feira, 22 de maio de 2018

maio de 68 - um olhar


“A minha geração dos anos 60, com todos os seus grandes ideais, destruiu o liberalismo devido aos nossos excessos”. (1)

Passam cinquenta anos sobre o Maio de 68 e não sendo ainda um tempo muito longo, já é possível ver esse movimento e a evolução que produziu na sociedade nos anos seguintes. O Maio de 68 foi o maior movimento social do século passado, embora tivesse em si impossibilidades maiores que os seus próprios ideais.

Herdeira de uma geração reformista, a que saiu dos escombros da segunda grande guerra, os jovens dessa década tinham conhecido um mundo melhor, quer em serviços de saúde, quer no acesso ao ensino superior, quer nas possibilidades de mobilidade social. O reformismo a seguir à guerra foi considerado ineficaz e toda a ação deveria virar-se para uma expressão individual da liberdade de cada um. 
A revolta iniciada pelos jovens e que culminaria com a eleição dos elementos que mantinham o regime nas suas linhas conservadoras, De Gaulle em França e Nixon nos Estados Unidos reduzia-se a espaços urbanos. A televisão e a rádio difundiram uma iconografia que se reproduzia na linguagem, no vestuário e nos comportamentos. No final da década a distância dos jovens aos seus pais talvez fosse maior do que em qualquer outro momento da sociedade contemporânea. Na geração anterior a correspondência socialismo – trabalhadores e pobreza - Estado interventivo parecia ser aceitável.

O que uniu a revolta de trabalhadores e estudantes nas ruas de Paris, ou nas avenidas de Washington era a tentativa para diminuir controlos que pareciam ser muito intrusivos na vida de cada um. A justiça social era uma afirmação individual de liberdade. No final dos anos sessenta não é o interesse geral que move a revolta, mas sim a liberdade individual, o desejo de autonomia de cada um na vida. E isso foi a curto prazo uma das divisas da esquerda. O que saiu dos anos sessenta foi o brilho de uma possibilidade, mas também um conjunto de “reivindicações individuais”. O que estas reivindicações iriam provocar foi a decadência de uma atitude partilhada de sociedade. O que significa que nasceu um individualismo que já não trabalhava sobre o interesse coletivo, nem sobre os valores da autoridade, como ela era vista em décadas anteriores. 

A sociedade europeia no início dos anos setenta vivia uma admiração pelos movimentos maoistas e lutava pelo individualismo privado de cada um. Os anos seguintes provariam amargamente que o marxismo era um ilusório território de união, onde os valores da esquerda naufragaram e deixaram de ser comuns. Os protestos contra a guerra do Vietname era mais uma expressão do desconforto individual, de uma doença de sociedade industrial e não era a expressão de um sentir coletivo. A direita que emergiu nas décadas seguintes já não nos falaria de como superar o que no sistema não funcionava, mas sim proponha outro sistema. A indústria “de serviços financeiros” criaria os novos santos, os banqueiros e a sua admiração pelo poder político. Os fossos sociais cresceram, a especulação de negócios entre público e privado deram origem a uma nova sociedade, aquela em que vivemos. O seu sucesso deriva de uma amnésia de participação cívica, do esgotamento do valor da cidadania por diferentes instituições que eram o seu suporte e nela encontramos a velha preocupação de Keynes, “os homens práticos, que se acreditam livres de quaisquer influências intelectuais, são geralmente escravos de algum economista defunto.” 

O Maio de 68 tendo tido uma ideia de libertação conduziu a alguns progressos no campo da emancipação da mulher e dos direitos individuais, mas não teve no Portugal da época qualquer relevância. Seria no após 25 de Abril que algumas das suas questões seriam levantadas. O estado de felicidade do País é como facilmente se percebe a imitação de um modo de sociedade, onde estão esquecidas as abordagens éticas ou a simples consideração de objetivos sociais e culturais mais vivos. Isso diz muito de como a revolta dos estudantes acabou por conduzir a uma sociedade de silêncio nos seus valores sociais e de profunda desigualdade. A instável democracia é o produto de uma divisão profunda das pessoas, separadas pelo dinheiro, pela religião, pelo jogo social. A regressão como valor de Humanidade é evidente todos os dias.

(1) Tony Judt. (2010). Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos. Lx: Quetzal.

O livro e o leitor (IX)

                      Um leitor por dia - celebrar os momentos íntimos da leitura!
Sobre as Bibliotecas - esse espaço de intimidade connosco, com as palavras, com o mundo...
"As bibliotecas são como aeroportos. São lugares de viagem. Entramos numa biblioteca como quem  está a ponto de partir. E nada é pequeno quando tem uma biblioteca. O mundo inteiro pode ser convocado à força dos seus livros. Todas as coisas do mundo podem ser chamadas a comparecer à força das palavras, para existirem diante de nós como matéria da imaginação. As bibliotecas são do tamanho do infinito e sabem toda a maravilha. Os livros são família direta dos aviões, dos tapetes-voadores ou dos pássaros. 

Os livros são da família das nuvens e, como elas, sabem tornar-se invisíveis enquanto pairam, como se  entrassem para dentro do próprio ar, a ver o que existe dentro do ar que não se vê. O leitor entra com o livro para dentro do ar que não se vê. Com um pequeno sopro, o leitor muda para o outro lado do mundo ou para outro mundo, do avesso da realidade até ao avesso do tempo. Fora de tudo, fora da biblioteca. As bibliotecas não se importam que os leitores se sintam fora das bibliotecas. Os livros são toupeiras, são minhocas, eles são troncos caídos, maduros de uma longevidade inteira, os livros escutam e falam ininterruptamente. São estações do ano, dos anos todos, desde o princípio do mundo e já do fim do mundo.

Os livros esticam e tapam furos na cabeça. Eles sabem chover e fazer escuro, casam filhos e coram, choram, imaginam que mais tarde voltam ao início, a serem como crianças. Os livros têm crianças ao dependuro e giram como carrosséis para as ouvir rir. Os livros têm olhos para todos os lados e bisbilhotam o cima e baixo, o esquerda e direita de cada coisa ou coisa nenhuma. Nem pestanejam de tanta curiosidade. Querem ver e contar. Os livros é que contam. As bibliotecas só aparentemente são casas sossegadas. O sossego das bibliotecas é a ingenuidade dos incautos. Porque elas são como festas ou batalhas contínuas e soam trombetas a cada instante e há sempre quem discuta com fervor o futuro, quem exija o futuro e seja destemido, merecedor da nossa confiança e da nossa fé. 

Adianta pouco manter os livros de capas fechadas. Eles têm memória absoluta. Vão saber esperar até que alguém os abra. Até que alguém se encoraje, esfaime, amadureça, reclame direito de seguir maior viagem. E vão oferecer tudo, uma e outra vez, generosos e abundantes. Os livros oferecem o que são, o que sabem, uma e outra vez, sem refilarem, sem se aborrecerem de encontrar infinitamente pessoas novas. Os livros gostam de pessoas que nunca pegaram neles, porque têm surpresas para elas e divertem-se a surpreender. Os livros divertem-se. 

As pessoas que se tornam leitoras ficam logo mais espertas, até andam três centímetros mais altas, que é efeito de um orgulho saudável de estarem a fazer a coisa certa. Ler livros é uma coisa muito certa. As pessoas percebem isso imediatamente. E os livros não têm vertigens. Eles gostam de pessoas baixas e gostam de pessoas que ficam mais altas. Depois da leitura de muitos livros pode ficar-se com uma inteligência admirável e a cabeça acende como se tivesse uma lâmpada dentro. É muito engraçado. 

Às vezes, os leitores são tão obstinados com a leitura que nem acendem a luz. Ficam com o livro perto do nariz a correr as linhas muito lentamente para serem capazes de ler. Os leitores mesmo inteligentes aprendem a ler tudo. Lêem claramente o humor dos outros, a ansiedade, conseguem ler as tempestades e o silêncio, mesmo que seja um silêncio muito baixinho. Os melhores leitores, um dia, até aprendem a escrever. Aprendem a escrever livros. São como pessoas com palavras por fruto, como as árvores que dão maçãs ou laranjas. Dão palavras que fazem sentido e contam coisas às outras pessoas. 

Já vi gente a sair de dentro dos livros. Gente atarefada até com mudar o mundo. Saem das palavras e vestem-se à pressa com roupas diversas e vão porta fora a explicar descobertas importantes. Muita gente que vive dentro dos livros tem assuntos importantes para tratar. Precisamos de estar sempre atentos. Às vezes, compete-nos dar despacho. Sim, compete-nos pôr mãos ao trabalho. Mas sem medo. O trabalho que temos pela escola dos livros é normalmente um modo de ficarmos felizes. 



Valter Hugo Mãe, "As Bibliotecas", In Jornal de Letras, Maio de 2013
Imagem, O orfanato Safe Haven, Ban Tha Song Yang, Tailândia

Uma obra de arte por semana (IX)

                Uma obra de arte por dia - Interpretar o real, reconstruir o mundo!
"O pintor é dono de todas as coisas que podem cair no pensamento humano; porque, se ele desejar ver belezas que o apaixonem, será senhor de gerá-las e, se quiser ver coisas monstruosas que espantem ou que sejam ridículas ou verdadeiramente lastimáveis, ele é seu senhor e criador. E, se quiser gerar sítios desertos, lugares sombrios ou frescos nos tempos quentes, figurá-los-á e também lugares quentes nos tempos frios. Se quiser vales, o mesmo; se quiser dos altos cumes dos montes descobrir uma grande campina e se quiser depois ver o horizonte do mar, será capaz disso; e, assim também se, dos fundos dos vales, quiser ver os altos montes, ou dos altos montes, os fundos vales e as praias. E, com efeito, o que está no universo por essência, presença ou imaginação, ele o tem primeiro na mente e, depois, nas mãos que são de tão grande excelência que ao mesmo tempo criam uma proporcionada harmonia num só olhar como as coisas fazem."

Leonardo da Vinci, Tratado de pintura, VI, 1498
Imagem - Leonardo da Vinci, A viagem dos rochedos, C. 1482, Paris , Museu do Louvre

Um poema por semana (IX)

                 Um poema por dia - a imaginação para iluminar ou compreender o real!
Meu coração bate mais forte
ao ver o arco-íris no céu.
Assim foi
no início da minha vida.
Assim é
metade dela corrida.
Assim seja
quando envelhecer.
Senão a morte, irei preferir.
A criança é o pai do homem.
Queria que os meus dias fossem,
afinal, unidos um a um
por piedade natural.


Poems in two volumes William Wordsworth; London: Longman, Hurst, Rees, and Orms. 1807; Imagem – ©: Delphine Devos

segunda-feira, 21 de maio de 2018

A palavra e o mundo - Fantasmagorias (I)

Como é bela uma rua de Inverno! Ao mesmo tempo explícita e obscura. Aqui, é possível traçar vagamente avenidas direitas e simétricas feitas de portas e janelas; aqui, debaixo dos candeeiros, flutuam ilhas de luz coada, por onde passam, rapidamente iluminados, homens e mulheres que, apesar de toda a sua miséria e desmazelo, transportam qualquer coisa de irreal, um ar de triunfo, como se tivessem fugido da vida, iludida por quem a despojou, erra sem eles. Mas, mesmo assim, ainda estamos apenas a deslizar suavemente pela superfície das coisas. (...)

Como é bela uma rua de Londres, com as suas ilhas de luz, e os longos arvoredos de escuridão, e num dos lados, talvez, um espaço relvado salpicado de árvores, onde a noite se enrosca naturalmente para dormir, e quando se atravessa o gradeamento de ferro se ouvem aqueles pequenos estalidos e a agitação das folhas e dos gravetos, o que pressupõe o silêncio das campos em redor, o piar de uma coruja, e ao longe o ruído de um comboio a passar no vale.

Mas estamos em Londres, lembremo-nos; bem acima das árvores nuas há molduras de luz oblongas, de um amarelo-alaranjado-janelas; existem pontos de luz a brilhar; imóveis, como estrelas baixas - candeeiros; este espaço vazio que contém o campo e o seu sossego, é apenas um bairro de Londres, constituído por escritórios e casas,...

os acenos das chamas nas lareiras, e as incidências de luz projectadas pelos candeeiros sobre a privacidade de uma qualquer sala, as suas poltronas, os papéis, a porcelana, a mesa de embutidos, a figura de uma mulher a contar atentamente o número exacto de colheres de chá que... Olha para a porta, como se estivesse a ouvir tocar, lá em baixo, e alguém a perguntar: "Ela está em casa?

Virginia Woolf. (2016). Fastamagorias, deambulando pelas ruas de Londres. Feitoria dos Livros.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

MAIO DE 68 

A biblioteca assinala a data com uma pequena exposição e convida a comunidade a uma análise das imagens e desejável reflexão.


Manuel António Pina (II)


As coisas melhores são feitas no ar,
Andar nas nuvens, devanear,
Voar, sonhar, falar no ar,
fazer castelos no ar
e ir lá para dentro morar,
ou então estar em qualquer sítio só a estar,
a respiração a respirar,
o coração a pulsar,
o sangue a sangrar,
 a imaginação a imaginar,
os olhos a olhar
          (embora sem ver),
E ficar muito quietinho a ser,
os tecidos a tecer,
os cabelos a crescer,
e isto tudo a saber
que isto tudo está a acontecer!
as coisas melhores são de ar,
só é preciso abrir os olhos e olhar,
basta respirar.

Manuel António Pina. (1993). O pássaro na cabeça. Lisboa: Assírio & Alvim.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Com Manuel António Pina... (I)


"A beleza é o rosto mais jubiloso da verdade. Não da própria verdade, mas do seu rosto". (1)

Os dias são muitas vezes tão sucessivamente rápidos que muitas memórias nos escapam. O tempo torna-se reduzido para inscrever no íntimo tantas vozes que tentaram connosco dar aos dias uma cor própria, um sentido vivido de consistência e beleza. Manuel António Pina desapareceu fisicamente a dezanove de outubro de dois mil e doze. É uma voz que vale a pena recuperar. Pela poesia, pelas crónicas, que nele eram uma arte de desmontar o essencial e pela prosa. Aqui deixaremos neste mês algumas lembranças e memórias.

Manuel António Pina foi um homem que buscou nas palavras uma tentativa de fazer compreender a nossa natureza efémera. Foi daqueles que vindo das terras do Mondego, dos contrafortes da Estrela se fez e se encontrou na cidade do Porto. Aqui encontrou formas de desenhar na natureza e na paisagem o seu caminho de combustão de sonhos, no veludo das encostas de granito.

Manuel António Pina tinha uma paixão pelo Winnie the Pooh. Olhava para a literatura infantil como a possibilidade de reencontrar o olhar inicial, o que está pronto para a linguagem do mundo, ainda sem o conhecer. Revelou uma curiosidade para traçar pela poesia as grandes questões filosóficas de sempre inerentes à natureza humana e descobriu na solidão a possibilidade de erguer sonhos.

Refletiu sobre a sociedade em que viveu com liberdade, com inteligência e com criatividade. Deu-nos no JN um conjunto de crónicas sobre esse real que se sonha e, que não se compreende pela ausência de uma real cidadania. Desse real, em que instituições e media, precariamente percebem o significado do velho ideal grego, "Libertas, Humanitas, Felicitas". 

Foi um cronista que ousou utilizar as palavras para discutir "as verdades" que o establishent político gosta de enumerar como os pilares do universo, por onde interesses privados se alimentam da destruição mais básica dos valores de dignidade de tantos. Manuel António Pina foi um prosador e com as palavras procurou exercer a liberdade que nos falta, a que tem uma dimensão moral.

E foi um poeta. Um poeta que nos descreveu como nos orientamos com os mitos, como respiramos o real, entre os lugares e as suas sombras, por onde tentamos reconhecer os gestos. Nunca nos recompomos da partida dos poetas, pois o timbre da voz é irrecuperável, mesmo que a memória e as palavras queiram colaborar nessa luta à partida perdida, de guardar o sorriso no templo desse "dragão feroz" (2) que é o próprio tempo.

(1) Entrevista a António Manuel Pina, in Jornal i, 18/02/21012 
(2) Ana Maria MatuteParaíso Inabitado 


sexta-feira, 4 de maio de 2018

O livro e o leitor (VIII)

                Um leitor por dia - celebrar os momentos íntimos da leitura!
"Ao longo do tempo, a nossa memória vai formando uma biblioteca díspar, feita de livros, ou de páginas, cuja leitura foi uma felicidade para nós e gostaríamos de partilhar. (…) Que outros se gabem dos livros que lhes foi dado escrever; eu gabo-me daqueles que me foi dado ler, disse eu uma vez. Não sei se sou um bom escritor.Penso ser um excelente leitor ou, em todo o caso, um sensível e agradecido leitor. Desejo que esta biblioteca seja tão diversa como a não saciada curiosidade que me induziu, e continua a induzir-me, à exploração de tantas linguagens e de tantas literaturas. É com eles, com os textos que percorreremos as galerias e os palácios da memória, como escreveu Santo Agostinho".

Jorge Luís Borges. (2016). Biblioteca Pessoal. Lisboa: Quetzal.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Uma obra de arte por semana (VIII)

                  Uma obra de arte por dia - Interpretar o real, reconstruir o mundo!
Carl Vinnen foi um pintor das últimas décadas do século XIX e primeiros anos do século XX. Em 1900 a norte de Bremen, em Worpswede formou-se uma comunidade artística que juntou diversos artistas que se dedicaram à representação da paisagem. 

Rilke participou nessa comunidade refletindo sobre o papel da paisagem como representação do enigma que se apresenta o Homem, na sua vivência entre o tempo e o natural. Esta comunidade procurou apreender os momentos da paisagem, a sua luz que a cada instante mudava. Procuraram integrar o humano na paisagem de modo a construir um todo, um modo de ver o Aberto, essa noção de que Rilke falava, como o enigma a compreender, entre o que se vê e a construção do silêncio, elemento fundamental para encontrar as palavras essenciais da nossa humanidade. Foi no regresso da Rússia e da sua viagem com Lou Andreas-Salomé que encontrou nas paisagens planas e pantanosas do norte da Alemanha os motivos para pensar o mistério das coisas. Os pintores de Worpswede dedicaram-se a uma expressão que abriria os campos da arte em emergência, o Simbolismo e a Arte Nova. Os quadros aí elaborados procuravam uma forma de verosimilhança das coisas e da sua representação. Carl Vinnen foi um dos artistas ligado a essa comunidade artística de Worpswede.

Fonte: Rainer Maria Rilke. (2016). Viagem singular a Worspede. Sintra: Feitoria dos Livros.
Imagem – Carl Vinnen, Caminho para o Pântano, 1900 

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Um poema por semana (VIII)

                  Um poema por dia - a imaginação para iluminar ou compreender o real!
Um poema por dia - a imaginação para iluminar ou compreender o real!:
O homem é uma realidade religiosa. O problema é que essa referência possa aparecer como objeto, como se Deus fosse manipulador ou manipulável. Uma espécie de ser mágico de que todas as coisas dependem. Outra coisa é ser algo de que o homem se serve para dominar. A maioria das religiões são máscaras dessa vontade de poder, de dominar os outros, de os subordinar, de os humilhar. Aquilo que é o seu impulso mais puro, libertador, transforma-se no seu contrário. O que o cristianismo trouxe foi que Deus não é poder. É o não-poder. Mas não foi assim que a coisa foi traduzida.
Eduardo Lourenço, Expresso, 23.12.2011
Imagem: copyright – Marco Tagliarino

terça-feira, 1 de maio de 2018

No mês de maio...

No mês de maio que é o mês da liberdade
no mês de maio que é o mês dos namorados


Amanhã não estaremos já neste lugar
amanhã a cidade já não terá o teu rosto
e a canção não virá cheia de ti
escrever em cada árvore o teu nome verde.

Amanhã outros passarão onde passámos
farão os mesmos gestos dirão as mesmas palavras
dirão um nome baixo um nome loucamente
como quem sobre a morte é por instantes eterno.

Amanhã a cidade terá outro rosto.
Nós não estaremos cá. Mas a cidade
já não será contra o amor amanhã quando
os amantes passarem na cidade livre.

Nós não estaremos cá. Voltaremos em Maio
quando a cidade se vestir de namorados
e a liberdade for o rosto da cidade nós
que também fomos jovens e por ela e por eles

amámos e lutámos e morremos
nós voltaremos meu amor nós voltaremos sempre
no mês de Maio que é o mês da liberdade
no mês de Maio que é o mês dos namorados. 

 Manuel Alegre, "Nós voltaremos sempre em Maio"
Imagem, in http://takaclip.tumblr.com/