terça-feira, 24 de abril de 2018

O livro e o leitor (VII)

Jack Kerouac foi o escritor da Beat Generation. Pela estrada fora deu-nos as formas imperfeitas e contraditórias de um mundo que saía da nossa rua e que se alargava a todo o planeta. Kerouac descobriu-o em viagens sucessivas, nessa ideia antes de todas as revoluções de algibeira, o caminho do caminho. Refugiou-se nas montanhas e nelas viu organismos vivos como os humanos e nelas encontrou uma espécie de eternidade dourada.

Descobriu que o mundo é um filme de imagens residuais de quem nunca viu senão sombras, uma caverna presa em imagens mentais, dogmas sem substância viva. O mistério, a beleza do mais simples, o silêncio que se alarga sobre a ilusão do mundo, eis o que importa encontrar e desfrutar. Kerouac mostrou-nos o prazer proibido das sociedades contemporâneas, “o amor ao próximo”, que ele traduziu como a gentileza, no encontro do estudo com o budismo. 

A gentileza como uma revolução interior, “o céu” que cada um pode realizar na Terra. Kerouac descobriu-o perante a contradição de uma religião de dois mil anos, onde o individualismo fez uma guerra por essa qualquer coisa que poucos sabem explicitar. A generosidade como demonstração de inferioridade, ou a amabilidade como comportamento pouco natural elegeu uma sociedade de escravos, com pouca valorização das causas sociais e da humanidade de cada um. The Portable Jack Kerouac (um excerto abaixo) é uma introdução a uma visão de sociedade e de humanidade centrada na delicadeza. Palavras dos velhos anos sessenta, desse pretérito-quase-perfeito. Ler é também isto, a criação das imagens , o silêncio mo interior da ilusão do próprio mundo.

The world you see is just a movie in your mind.
Rocks dont see it.
Bless and sit down.
Forgive and forget.
Practice kindness all day to everybody
and you will realize you’re already
in heaven now.
That’s the story.
That’s the message.
Nobody understands it,
nobody listens, they’re
all running around like chickens with heads cut
off. I will try to teach it but it will
be in vain, s’why I’ll
end up in a shack
praying and being
cool and singing
by my woodstove
making pancakes.

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