terça-feira, 6 de março de 2018

Miguel Ângelo ou o eterno tempo do belo

Desenho imagens, faço o entalhamento da pedra para desenhar sonhos, os meus instantes de eternidade. Quando me conheci apenas os encontrei e nada mais tinha. Mais tarde conheci uma família e uns tantos amigos, onde encontrei formas de beleza que nem sempre compreendi. Amei uma vez, mas perdi esses meus amados. A vida e a morte conquistaram-nos e nem nos meus desenhos de pedra conheci o seu coração, os seus segredos por revelar. 
Tenho deixado em estátuas e abóbadas o que sinto pelo mundo, pois este é assombroso, inexplicável e amargo. Fiquei com o meu espírito, é ele que me permite voar, acima de qualquer figura mundana. Só no mundo, desenhei-me em sonhos e nem sempre eles me libertaram desse sentimento de abandono. Penso às vezes no amor. No que tive, no que me fascinou de beleza, no que se perdeu quando o desejo nasceu como um fantasma e não permitiu que se realizasse o essencial. Neste jogo de dúvidas, há os que nos acusam e os que nos desculpam. Em nenhum caso compreendem a nossa renúncia, o nosso espírito voando sobre a matéria, a nossa fuga à solidão, fruto desse medo da vida e da morte, onde imaginamos o amor, como suporte da nossa dimensão humana. 
Os altares onde imagino a vida, a pintura de uma abóbada, uma escultura de bronze, um poema perdem o sentido da sua criação. Quem compreenderá o espírito que a forjou, a dedicatória de vida nela inscrita? Desenho esculturas porque quero parar o tempo, fotografar instantes de vida, anunciar ao futuro na pedra que outros verão, os jogos de luz, ou as sombras que quis amar. O criador compreenderá e amará esta metamorfose do Universo com que as minhas estátuas se movem no tempo. As minhas estátuas foram esculpidas com o sopro do corpo perfeito, a beleza que me suspendia dos momentos, como que a própria perfeição, aquela que se basta a si própria e que é imutável.
Olho muitas vezes algumas das minhas criações e vejo-me como o homem que ajudou a esburacar a Terra, desfazendo montanhas para construir as formas de renúncia da natureza, aos pequenos deuses do Homem, aos instantes materiais do Universo. Nesses instantes por onde cada um colecciona uma montra de mortos, graves e impassíveis, como o vento, reparo na beleza dos meus modelos e lembro-me de Cecchino dei Bracchi. O sorriso que deixei nas minhas estátuas foi o sopro da criação de um corpo, os gestos e pensamentos que em silêncio permitiram derrotar a morte, pois é o seu instante anterior e esclarecido. São testemunhos de vida, isso que na galeria de mortos que conheci, as minhas estátuas cumprem a vida, pois a morte apenas se anula a si própria, não as pálpebras e os rostos que iluminei de cor e pátina.
A morte é apenas o seu esquecimento, a espiral de destruição de si própria. Os que desenhei construíram-se num espírito que soube desenhar-se acima das leis conhecidas do Universo. Saberão eles na sua irrealidade que foram a matéria viva e definitiva da pedra, elemento universal do Cosmos? Mesmo que o não o saibam, eles são no seu sono, a matéria da vida que se condensou, o sinal visível das noites estreladas em terraços que amaram como a brisa lustral de todas as manhãs.

A partir das leituras:
Marguerite Yourcenar, “CECCHINO DEI BRACCHI”; “FEBO DEL POGGIO”, in “Sixtine”, Revue bleue, nº 22, 21 de Novembro de 1931, págs. 684-687.
Imagem – Estátua de David (1504) – Miguel Ângelo, Galleria dell’Accademia, Florença.

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