quarta-feira, 21 de março de 2018


DIA INTERNACIONAL DA FRANCOFONIA

De acordo com dados do Ministério francês dos Negócios Estrangeiros, o francês é a quinta Língua mais falada no mundo. Com cerca de 274 milhões de locutores, o francês é ainda segundo governo francês a segunda língua mais ensinada no mundo, a quarta língua da internet, a terceira língua do mundo dos negócios e a segunda língua da informação internacional nos meios de comunicação social.
A Organização Internacional da Francofonia é um dos vectores da influência do universo cultural francófono no mundo. Desta organização são membros países francófonos mas igualmente países como Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, Moçambique tendo por seu turno o estatuto de país observador.
A nossa escola assinalou o dia com a presença de uma das autoras dos manuais adotados na escola, Dra. Luísa Pacheco,  que dinamizou uma sessão sobre a franconia. 


terça-feira, 20 de março de 2018


PLASTICOLOGIA MARINHA 


O Oceanário de Lisboa pretende contribuir para elevação da literacia dos oceanos, em Portugal, promovendo o  seu conhecimento, assim como a vontade de contribuir para a sua conservação, tendo como base os valores da sustentabilidade e da necessidade de proteger a biodiversidade marinha.

Assim, a nossa escola contou com 6 ações de educação ambiental , destinadas aos 5º e 6º anos, dinamizadas  pela formadora Daniela Teixeira, que abordou a problemática do plástico nos oceanos e forneceu ferramentas para conseguirmos  minimizar o seu impacto  através da alteração de comportamentos. 

O entusiasmo e interesse dos alunos foram muito gratificantes, o que  permite concluir que os objetivos da iniciativa foram atingidos.  


"Miúdos a votos, quais os livros fixes?"

A leitura pode ser promovida de diferentes modos. Chamar à atenção para o valor civilizacional da leitura é algo que pode ser feito num ambiente mais formal ou de um modo lúdico. 

A revista Visão e a Rede de Bibliotecas Escolares promovem uma campanha “Miúdos a votos, quais os livros mais fixes?”, em que se pretende que os alunos dêem conta de um livro em que possam defender como um objecto com o qual se identificaram ou dele retiraram um simples prazer de ler.

Os alunos podem fazer uma campanha eleitoral por um livro fixe e apelar aos colegas que participem numa votação nacional. 
Votar por um livro, por um conjunto de ideias é sem dúvida uma forma lúdica e divertida de promover o livro e a leitura. 
Existe um conjunto de livros para fazer a escolha e participar nessa campanha e que se encontram no link abaixo. 

quinta-feira, 15 de março de 2018

O livro e o leitor (IV)

                  O livro e a leitura - celebrar os momentos íntimos da leitura!


“Um livro é uma coisa entre as coisas, um volume perdido entre os volumes que povoam o indiferente Universo, até que encontra o seu leitor, o homem destinado aos seus símbolos. Acontece então a emoção singular chamada beleza, esse mistério belo que nem a psicologia nem a retórica definem. “A rosa é sem porquê”, disse Angelus Silesius; séculos depois Whistler declararia! A arte acontece”. 

Biblioteca Pessoal / Jorge Luís Borges. Lisboa: Quetzal.
Imagem: Henri Lebasque, Girl Reading.

Uma obra de arte por semana (IV)

Uma obra de arte por dia - Interpretar o real, reconstruir o mundo!

“Uma mulher inconsolável
está à janela,
um baloiço de criança
enferruja ao vento, um espião
solitário está sentado na sua autocaravana,
nas dunas, recetor de rádio
no ouvido. Não, aqui não podemos
escrever postais,
nem se pode sair do carro. Diz-me, filha,
o teu coração oprime-te, como
o meu, praia de seixos batida
ano após ano pelas ondas
do mar para norte,
cada pedra uma alma morta,
e este céu tão cinzento,
tão uniformemente cinzento,
e tão baixo
nunca assim vi um céu
em parte alguma."


Do natural / W. G. Sebald. "VI", in Do natural. Lisboa: Quetzal. 2012.
Imagem – Copyright: Sheboygan County's 

Um poema por semana (IV)

                      Um poema por dia - a imaginação para iluminar ou compreender o real!


Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes
e calma

Poesia / Sophia de Mello Breyner Andresen. 1ª ed., Lisboa: Caminho, 2009.

quarta-feira, 14 de março de 2018




SEMANA DA LEITURA 

Na nossa escola, a Semana da Leitura, este ano subordinada ao mote Liberta o leitor que há em ti, pretendeu homenagear as mulheres com várias atividades. 

Ao longo da semana , foram dinamizadas Leituras Surpresa, em sala de aula, de poemas  e textos alusivos à condição feminina. Foram lidos e comentados poemas de António Gedeão, Cesário Verde, Florbela Espanca, Maria Velho da Costa, Lídia Falcon,  Sophia Andresen, Natalia Correia, Ana Luísa Amaral,entre outros. Também ao longo da semana, os alunos realizaram trabalhos sobre as  mulheres feministas portuguesas que viveram durante os primeiros vinte anos da República e que criaram as primeiras  organizações  partidárias  feministas e femininas.  
No dia 8, foi realizada uma exposição temática alusiva à condição feminina no Douro Litoral em meados do século passado, com base na incontornável obra de Maria Lamas, Mulheres do meu país. 
Finalmente, no dia 9, foi realizado um encontro com alunas de 8º e 9º anos, durante o qual foram lidos e discutidos extratos  do livro Sapiens, de Yuval Noah Harari, nos quais se questiona a origem da distinção ancestral entre homens e mulheres. 

Embora o tema seja sedutor pelo estímulo à expansão dos direitos e preocupações com justiça social, assim como pelo apelo às traumáticas repercussões de uma cultura que insiste em acreditar que a anatomia providencia a dicotomia sexual  que os estudos atuais demonstram que mais não são do que construções culturais,  a professora bibliotecária lamenta o desinteresse e fraca adesão da comunidade escolar às iniciativas propostas.

                                                                                                                     Fernanda Silva



segunda-feira, 12 de março de 2018

Na memória de Raul Brandão

A outra coisa que exerce uma verdadeira fascinação é o Pico - tão longe que a luz o trespassa, tão perto que quer entrar por todas as portas dentro. Na verdade, parece um efeito mágico de luz, um fantasma posto aí de propósito para nos iludir e mais nada.  Toma todas as cores: agora está violeta logo está rubro. Tarde, e a Lua enorme a nascer por trás daquele paredão imenso que chega ao céu. 
É majestoso e magnético. Está ali presente como um vagalhão que vai desabar sobre o Faial. Esta noite é um sonho: o cone muito nítido emerge de nuvens brancas que o rodeiam e parecem elevá-lo num triunfo ao céu. Às vezes, de Inverno, a neve brilha lá no alto com reflexos de jóias, outras são as nuvens que lhe dão formas extraordinárias. Se eu vivesse aqui, queria uma casa e uma cama onde só visse o Pico. Ele enchia-me de vida. 

O homem que teve a ideia de bordar as estradas com estas plantas [hortenses] devia ter uma estátua na ilha. Em nenhum outro lugar elas prosperam melhor: querem luz velada, humidade e calor - estão no seu meio. O seu azul é o azul esmaltado dos Açores nos dias límpidos. Nos dias turvos substituem a cor do céu: são o azul desta terra enevoada e uma das suas maiores belezas. Imaginem o cinzento que se derrete e alastra e torna o céu mais escuro, a atmosfera mais húmida, e sob isto ao azul cada vez mais azul, as molhadas de flores duma cor cada vez mais intensa e mais fresca. 

A volta na luz da tarde é um assombro. Vejo o Salão e Pedro Miguel, todos azuis de hidrângeas; sigo extasiado pela estrada azul, com o Pico ao fundo e S. Jorge à esquerda formando uma enorme baía. É o horizonte de Nápoles mais escuro, a esta hora iluminado por uma luz rica de efeitos. Em baixo colinas, sempre colinas - não como as montanhas solenes das Flores em picos aguçados pelo raio, mas arredondados e mansos. Borbotões de azul despenham-se por todos os lados. O faial adormece em azul sob o céu de cinzento e com o Pico todo violeta ao lado. 

À noite não posso dormir; estou encharcado de azul. Vou a pé pela estrada fora sob o luar derretido. Diante de mim abre-se o abismo do mar cheio de estrelas. Nasceu, subiu a Lua numa paz extraordinária, apagando o brilho dos diamantes, mas entre os últimos reflexos vibram os fios das vagas quebrando na costa e desaparecendo logo no boqueirão todo negro. Mais luar e o silêncio que espera de nós qualquer comunicação sobrenatural. Olho. todas as hortenses se puseram brancas, dum branco perfeito, todas as hortenses não desfitam  os olhos de mim, quietas e brancas, imóveis e brancas.1

Raul Brandão. (2011). As ilhas desconhecidas. Lisboa: Quetzal, páginas 81, 82, 83 e 90.
Imagens - Na estrada da Horta para Flamengos. Ilha da Horta. Açores; Copyright - Júlio Machado

sexta-feira, 9 de março de 2018

A palavra e o mundo - Cidade Aberta (II)

"Eu esperava ser tocado pela elegânica, não pela imortalidade. (...) É uma prova daquilo em que acredito; as pessoas podem viver juntas, mantendo intactos os seus próprios valores. Ver aqui esta quantidade  enorme de gente de vários países toca o meu lado humano, o meu lado intelectual."

A cidade como um território de conhecimento, o espaço físico, social e cultural onde cada um estabelece relações de proximidade e de quotidiano. A cidade como espaço individual, de conquista de sonhos, da ternura escondida nos olhos, na luz das estrelas que nos visitam entre a dança das nuvens.
A cidade como construção, entre a solidão dos passos conquistados ao tempo. Num território com tantos olhares, o que podemos concretizar de descoberta, de encontro em avenidas de luzes, onde cada solidão tenta respirar uma possibilidade. A cidade, os nossos passos no desejo de conhecimento e conquista dos sorrisos e abraços que nos envolvam nas esquinas que percorremos entre as luzes e a solidão.  

Cidade Aberta, no sentido de um espaço social e cultural que se deixa conhecer, onde uma multidão de pessoas de diferentes origens convivem, onde experimentam a vida, a sua continuidade entre os dias novos e os espaços da memória. Cidade Aberta reflecte sobre esse encontro, sobre a nossa presença no quotidiano, sobre o multiculturalismo e o que significa ser estrangeiro numa cultura, o que significa a individualidade numa sociedade de écrans. 
Cidade Aberta é sobre esse espaço cultural e humano intrigante que é Nova Iorque, como a poderíamos habitar, como a vemos, como a poderemos viver com a insegurança, o medo, a perda que significou ali estar após o onze de Setembro. Teju Cole, pela voz de um médico nigeriano, Julius tenta fazer esse caminho. Um caminho onde o sofrimento e a solidão se realiza entre as dúvidas e a esperança de descoberta em cada esquina, em cada rua. 

Cidade Aberta procura ver, mais que olhar e tentar encontrar-se na Big Apple com o outro, com a sua descoberta para a construção de uma identidade, embora saibamos que assim sendo cidade aberta não deveria ser esse território de solidão e tantas vezes abandono. A fragilidade de tantos indivíduos e o modo como num espaço de consumo material as diferenças podem ser questionados, dará à individualidade possibilidades de ser aceite? 
Pode a igualdade ser diluída num mar de ideias vazias para com a respiração de cada um? Um livro imenso sobre a cidade, e a incessante luta da liberdade para configurar as possibilidades humanas que uma solidão numa cidade pode esvaziar e limitar o discernimento para se encontrar com os outros. É neles, nos habitantes da cidade aberta que a sociedade como um cosmos se desenvolve e onde o valor individual se inscreve.

quinta-feira, 8 de março de 2018

O livro e o leitor (II)


O livro e a leitura - celebrar os momentos íntimos da leitura!

Através do livro, todos aprendemos a ler e a contar, a escrever e a pensar; através do livro, aprendemos a conhecer os grandes pensadores e os escritores clássicos; através do livro, aprendemos a conhecer os grandes textos sagrados; através do livro, aprendemos as lições da história e os avanços da ciência; através do livro, aprendemos os grandes valores que regem as sociedades modernas; através do livro, aprendemos a sonhar outros mundos e pensar utopias; através do livro, aprendemos a rir e a chorar, a rezar ou a amar; através do livro aprendemos descobrir o que nos cerca e a descobrimo-nos a nós próprios. O livro e a leitura são instrumentos essenciais de exercício de inteligência e de ginástica mental, de comunicação e de informação. Afinal, o livro e a leitura moldaram definitivamente a nossa memória e identidade individuais e colectivas, bem como a nossa visão do mundo. Opostamente, quem não lê, atrofia-se do ponto de vista linguístico, estético e cultural; quem não lê, regride na sua capacidade de pensar o que o rodeia; quem não lê, está condenado a viver à margem do seu tempo; quem não lê, vive e morre seguramente mais pobre. Deste modo, ler não é um luxo, é um dever, uma necessidade básica, um direito elementar, um hábito imprescindível. Ler não é apenas um mero passatempo; é antes um alimento intelectual – Aristóteles afirmou: “Um livro é um animal vivo”; Santo Agostinho chamou-lhe “alimento do espírito”; e João de Barros, “mercadoria espiritual”. Os livros são objectos pequenos, mas cheios de mundo (Romano Guardini).” 

Cândido Oliveira Martins, “Elogio do livro e da leitura”; Imagem: Kristina Vart

Uma obra de arte por semana (III)

Uma obra de arte por dia - Interpretar o real, reconstruir o mundo!


Para que servem poetas se não podem
Nem delirar, se os textos do delírio
serão tomados pelo seu contrário?
A bela rapariga dos cabelos
cor de violeta, Atenas, onde está?
Quem escavará o monte até aos ossos
Para que dele ressurjam esses que
Nos deixaram sozinhos?


Hélia Correia (2012). "17", in A Terceira Miséria. Lisboa: Relógio D’ Água, pág. 17.
Imagem – © Interior do Templo de Bel – Palmira. Jornal Público.

Um poema por semana (III)

Um poema por dia - a imaginação para iluminar ou compreender o real!


_______de um lado, está o enigma e, de outro,
está a prece
é então que este pede a Teresa que seja esse coração
decidido
que fale com o seu amado
lhe fale na música
lhe fale na felicidade de nascer da alegria
lhe fale no lápis
lhe fale nos traços
lhe diga que é bom que nada se perca
lhe diga que é vital
e a oração emerge do mais íntimo do pó
eu 
glorifiquei-vos sobre a terra
realizei a obra que me pediste que fizesse
dei a conhecer o teu nome aos que me deste a conhecer,
e agora sabem que tudo o que lhes dei vem de ti
porque eu comuniquei-lhes as palavras que me tinhas
comunicado
eles receberam-nas e acreditam que é de ti que eu venho
neste momento
é deles
que te falo e por eles é a minha prece
a matéria não é vã
a matéria é luminosa
diz-lhe que o denso é passagem
diz-lhe que estão destinados à alegria
preserva-os do mal
é tudo quanto, finalmente, te peço
Maria Gabriel Llansol. (1998). Ardente Texto Joshua. Lisboa: Relógio d’Água.Imagem, Espaço Llansol, casa da escritora. Sintra

Dia internacional da mulher

«Diz homem, diz criança, diz estrela./Repete as sílabas/onde a luz é feliz e se demora.
Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova». (Eugénio de Andrade)

Os chamados dias efemérides são sempre um pouco limitados, quase lamentáveis, porque são uma expressão pobre de destacar alguma ideia, facto ou pessoa. Neste caso, pela sua dimensão, campo de sedução e beleza ainda o é mais. Historicamente o Dia Internacional da Mulher está ligado aos acontecimentos de 1857 com as operárias têxteis de Nova Iorque que reclamavam um horário de trabalho mais digno, mais humano. A partir de 1910 ficou estabelecido que se faria uma homenagem a essas mulheres, celebrando o 8 de Março como o Dia Internacional da Mulher.

Hoje a forma contemporânea deste dia é a sensiblização para o papel da mulher na sociedade, o seu valor, a sua dignidade como pessoa evitando preconceitos. Na História social e das mentalidades, a Mulher apareceu sempre como um fenómeno em que individualmente pela sua coragem, inteligência e saber soube lutar por uma humanidade melhor. Nesse sentido o Dia da Mulher deveria ser, deve ser antes de mais, a confirmação, não por uma igualdade entre sexos, mas antes entre pessoas.


Neste sentido mais do que tolerância, que sempre sugere uma aprovação forçada, o que deveria importar é o respeito mútuo. O que mais importa é construir vectores de diálogo construído sobre os valores vividos. Mesmo hoje, sabemos como esta convivência é em diferentes geografias e cartografias do ser uma miragem. Os exemplos são imensos. Basta escolher.

Continuamos com uma humanidade incompleta, atenta às necessidades básicas, mas sem chegar ao que alguém chamou o Homem completo. Isto é à ideia de consciência e liberdade que deveria estar acima da própria vida. Num dia destes, além do voto de felicitações a todas as mulheres, importa destacar as que na Arte, na Literatura, no Cinema, nas Ciências têm contribuído para a universalidade da Humanidade.

Abaixo umas palavras de uma mulher, uma escritora e essa necessidade de construir o mundo pelas palavras e com as possibilidades e inspiração que temos todos, homens e mulheres de deixar no mundo e em todos nós. De Agustina:

«A mulher está a adaptar-se a um mundo diferente, mas ainda não está estabilizada. Quando tem êxito tende a parecer-se com o homem. Agora tem outra maneira de se manifestar e criar as condições para exercer esse poder, mas está disposta a sacrificar outros atributos que tinha. Como a doçura, que vai perdendo. A ternura autêntica está a desaparecer. (...)

A escrita é para divulgar, não aquilo que é autêntico e profundo, mas aquilo que fica por uma certa superfície. A escrita é sempre superficial em relação à verdade profunda de cada um. Quando falamos em comunicação, devemos pôr isso na ordem das leviandades humanas e não na dos encontros profundos. Os encontros profundos são profundamente perigosos. Ainda acho que é possível mudar o mundo e acredito naquelas pessoas que querem mudar o mundo através de coisas que se consideram impossíveis. (...)

Valorizo aquilo que aprendi e era essencial na vida humana, como a relação com tudo o que nos cerca. Tudo o que nós aprendemos e de que nos servimos tem de fazer parte ao mesmo tempo daquilo que nos rodeia, porque senão já não é cultura, é pedantismo. (...) Verdadeiramente, não recebemos nada dos outros e muito dificilmente ensinamos. Quando muito divertimos, distraímos, acompanhamos. Nunca sabemos tanto como a vida nos pode ensinar.» (1)

terça-feira, 6 de março de 2018

Miguel Ângelo ou o eterno tempo do belo

Desenho imagens, faço o entalhamento da pedra para desenhar sonhos, os meus instantes de eternidade. Quando me conheci apenas os encontrei e nada mais tinha. Mais tarde conheci uma família e uns tantos amigos, onde encontrei formas de beleza que nem sempre compreendi. Amei uma vez, mas perdi esses meus amados. A vida e a morte conquistaram-nos e nem nos meus desenhos de pedra conheci o seu coração, os seus segredos por revelar. 
Tenho deixado em estátuas e abóbadas o que sinto pelo mundo, pois este é assombroso, inexplicável e amargo. Fiquei com o meu espírito, é ele que me permite voar, acima de qualquer figura mundana. Só no mundo, desenhei-me em sonhos e nem sempre eles me libertaram desse sentimento de abandono. Penso às vezes no amor. No que tive, no que me fascinou de beleza, no que se perdeu quando o desejo nasceu como um fantasma e não permitiu que se realizasse o essencial. Neste jogo de dúvidas, há os que nos acusam e os que nos desculpam. Em nenhum caso compreendem a nossa renúncia, o nosso espírito voando sobre a matéria, a nossa fuga à solidão, fruto desse medo da vida e da morte, onde imaginamos o amor, como suporte da nossa dimensão humana. 
Os altares onde imagino a vida, a pintura de uma abóbada, uma escultura de bronze, um poema perdem o sentido da sua criação. Quem compreenderá o espírito que a forjou, a dedicatória de vida nela inscrita? Desenho esculturas porque quero parar o tempo, fotografar instantes de vida, anunciar ao futuro na pedra que outros verão, os jogos de luz, ou as sombras que quis amar. O criador compreenderá e amará esta metamorfose do Universo com que as minhas estátuas se movem no tempo. As minhas estátuas foram esculpidas com o sopro do corpo perfeito, a beleza que me suspendia dos momentos, como que a própria perfeição, aquela que se basta a si própria e que é imutável.
Olho muitas vezes algumas das minhas criações e vejo-me como o homem que ajudou a esburacar a Terra, desfazendo montanhas para construir as formas de renúncia da natureza, aos pequenos deuses do Homem, aos instantes materiais do Universo. Nesses instantes por onde cada um colecciona uma montra de mortos, graves e impassíveis, como o vento, reparo na beleza dos meus modelos e lembro-me de Cecchino dei Bracchi. O sorriso que deixei nas minhas estátuas foi o sopro da criação de um corpo, os gestos e pensamentos que em silêncio permitiram derrotar a morte, pois é o seu instante anterior e esclarecido. São testemunhos de vida, isso que na galeria de mortos que conheci, as minhas estátuas cumprem a vida, pois a morte apenas se anula a si própria, não as pálpebras e os rostos que iluminei de cor e pátina.
A morte é apenas o seu esquecimento, a espiral de destruição de si própria. Os que desenhei construíram-se num espírito que soube desenhar-se acima das leis conhecidas do Universo. Saberão eles na sua irrealidade que foram a matéria viva e definitiva da pedra, elemento universal do Cosmos? Mesmo que o não o saibam, eles são no seu sono, a matéria da vida que se condensou, o sinal visível das noites estreladas em terraços que amaram como a brisa lustral de todas as manhãs.

A partir das leituras:
Marguerite Yourcenar, “CECCHINO DEI BRACCHI”; “FEBO DEL POGGIO”, in “Sixtine”, Revue bleue, nº 22, 21 de Novembro de 1931, págs. 684-687.
Imagem – Estátua de David (1504) – Miguel Ângelo, Galleria dell’Accademia, Florença.

Memória de Gabriel Garcia Marquez


"Se por um instante Deus se esquecesse de que sou uma marionete de trapo e me presenteasse um fragmento de vida, possivelmente não diria tudo o que penso mas em definitivo pensaria tudo o que digo. Daria valor as coisas, não pelo que valem, senão pelo que significam. Dormiria pouco, sonharia mais, entendo que por cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz.
Andaria quando os demais se detêm, despertaria quando os demais dormem. Escutaria quando os demais falam, e como desfrutaria um bom sorvete de chocolate! Se Deus me obsequiasse um fragmento de vida, vestiria simples, me atiraria de bruços ao sol, deixando descoberto, não somente meu corpo senão minha alma.Deus meu, se eu tivesse um coração, escreveria meu ódio sobre o gelo, esperaria que saísse o sol. Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre as estrelas um poema de Benedetti, e uma canção de Serrat seria a serenata que lhes ofereceria à lua. Regaria com minhas lágrimas as rosas, para sentir a dor de seus espinhos, e o encarnado beijo de suas pétalas...
Deus meu, se eu tivesse um fragmento de vida... Não deixaria passar um só dia sem dizer as pessoas que quero, que as quero. Convenceria a cada mulher ou homem de que são meus favoritos e viveria enamorado do amor. Aos homens lhes provaria quão equivocados estão ao pensar que deixam de enamorar-se quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de enamorar-se! A criança lhe daria asas, porém lhe deixaria que sozinho aprendesse a voar.
Aos velhos lhes ensinaria que a morte não chega com a velhice senão com o esquecimento. Tantas coisas tenho aprendido de vocês, os homens... Tenho aprendido que todo o mundo quer viver no topo da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a escarpa. Tenho aprendido que quando um recém nascido aperta com seu pequeno punho, pela primeira vez, o dedo do pai, o tem apanhado para sempre. Tenho aprendido que um homem só tem o direito de olhar a outro com o olhar baixo quando há de ajudar-lhe a levantar-se. São tantas coisas as que tenho podido aprender de vocês, porém realmente de muito não haverão de servir, porque quando me guardarem dentro dessa mala, infelizmente estarei morrendo"

Gabriel Garcia Marquez, Carta aos meus amigos.

segunda-feira, 5 de março de 2018

A palavra e o mundo - Cidade Aberta (I)

Nunca imaginei que fosse possível vê-las, com a poluição de luz a envolver perpetuamente a cidade e numa noite em que estivera a chover. Mas a chuva tinha parado enquanto eu descia as escadas e tornara o ar límpido. (...) Estrelas maravilhosas, numa nuvem de pirilampos ao longe: mas eu sentia no meu corpo o que os meus olhos não podiam alcançar, ou seja, que a sua verdadeira natureza era o persistente eco visual de algo que pertencia já ao passado. (...) nos espaços escuros entre as estrelas mortas, a brilhar, havia outras estrelas que eu não podia ver, estrelas que ainda existiam e emitiam uma luz que ainda não tinha chegado até mim, estrelas vivas e a emitir luz, mas para mim apenas presentes enquanto interstícios vazios. A sua luz acabaria por chegar à Terra, muito depois de eu e a minha geração e a geração seguinte nos encontrarmos fora do tempo (...). Olhar para esses espaços escuros era como ter uma perspetiva direta do futuro.

Teju Cole. (2012). Cidade Aberta. Lisboa, Quetzal.

sexta-feira, 2 de março de 2018

O livro e o leitor (II)

Um leitor por dia - celebrar os momentos íntimos da leitura!

A leitura criou possibilidades de esperança e de “utopia”, esta como processo em muitos séculos de universos quotidianos, onde em especial a mulher pôde fundir novas ideias para a sua realidade diária. 
Desse universo de leitura, importa abordar, ainda que ligeiramente (pelas limitações deste suporte) como a escrita pôde libertar processos culturais que organizavam o essencial da vida social. E quem diz a escrita diz ainda num valor mais abrangente e social, a leitura, nos seus espaços de conquista ao mundo.
Se a leitura no feminino teve uma possibilidade de evolução ao longo dos séculos, sobretudo a partir do século XVIII, a escrita viveu nesse género, grandes dificuldades de se concretizar.
Mesmo uma figura como Viriginia Woolf, já no século XX se interrogava como era difícil superar a imagem tradicional da mulher e avançar com uma escrita que revelasse a sua integridade. “O discurso livre das mulheres”, disse Virginia Woolf faria depender o futuro da arte do romance e conceder uma vida de liberdade aos dois. Desse longo caminho vejamos em pequenas imagens posteriores, como a arte da representação pictórica e da palavra as definiram, nessa difícil atividade da leitura e da escrita.

Imagem: Copyright - Marguerite Yourcenar

Uma obra de arte por semana (II)

Uma obra de arte por dia - Interpretar o real, reconstruir o mundo!

Uma obra de arte por dia - Interpretar o real, reconstruir o mundo!
A cartografia também é uma obra de arte. Georg Wilhelm Steller fez essa aventura em costas desconhecidas à procura da fauna e da flora ainda não reconhecida.
“Ao romper do dia seguinte,
Dia de Santo Elias,
Steller foi a terra. Dez horas,
lhe concedeu Bering, já com o medo
escrito na fronte, para uma excursão científica.
De um azul profundo estava então a água e também
as florestas que cresciam mesmo até à costa
marítima."
W. G. Sebald. (2012). “XIV”. Do natural. Lisboa: Quetzal.


Um poema por semana (II)

Um poema por dia - a imaginação para iluminar ou compreender o real!

“Azul, o azul rouco
o azul sem cor
luz gémea da sede
Acerca deste rigor tenho uma
palavra a dizer
uma sílaba a salvar desta
aridez
Asa ferida, o olhar arrastado
pela pedra calcinada
húmido ainda de ter pousado à
sombra
de um nome o teu:
amor do mundo,
amor de nada.

Eugénio de Andrade, “Azul”, in Poesia Completa

quinta-feira, 1 de março de 2018

Março

Lá vai Março de mansinho
- para ser ele o primeiro -
a percorrer o caminho
que vai de Castelo Frio
- o lugar de onde partiu -
ao Palácio Florentino:
o jardim à beira rio
onde nasce a Primavera.
Mas quando chega, uns casais
já montaram casa e esperam
que lhes nasçam uns meninos.
E Março, que é educado,
cumprimenta os maiorais,
tira o chapéu e lá diz:
- Bom dia, senhores pardais.
Mas logo sente uma chama,
como se em dia de festa:
abre os braços e proclama:
- Já chegou a Primavera!
Da Floresta é este o Dia
e, já agora, da Poesia! 

João Pedro Mésseder. Livro dos Meses

SEMANA DA LEITURA

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