"Contarás
de Abril, aos meus filhos, que os meus olhos ardidos, urbanos, ficaram cheios
de um ofício de um ofício de dizer coisas singelas, humildes: como amor,
liberdade. Contarás de Abril os idos e os que voltaram, os que ficaram e ficam.
Contarás de Abril pequenas pilhas de palavras,armazenadas numa necessidade que
inventei; e as nossas almas ledas e limpas: e os braços que se estendem a outros
abraços; e a cordialidade de anotarmos um nome, um número, umaflor: e os
balaios sem reticências de mágoas, cheios de trissos de aves, de pássaros
remotos de que ignorávamos a voz ou havíamos esquecido o toque e a fímbria.
Contarás
de Abril que na nossa terra já não apodrecem as raízes e que já não adiamos o
coração; que já não nos dói a velhice e que os rios são todos nossos e íntimos e
que já não perdemos a infância e que nas-cem crianças insubmissas e claras e
livres. Contarás de Abril a espessura mágica, o punho reflexo, o dia de água, a
lágrima, a vontade de sermos e de estarmos, o lipido grito, a forma inconsútil,
o vermelhor e a brisa, o livro das coisas, a maravilha discreta de assear a
vida, o caminhar, os restos nesta dócil pausa e neste imenso perdão.
Contarás
de Abril as casas de milsóis, a imponderável descoberta dos sussurros, a
brancura inadiável da perseverança, o resplandecente varar dos dias, a feira
alvoroçada das horas. Contarás de Abril as mãos dadas.Contarás de Abril o
renascer da essencial frescura.
Baptista-
Bastos, 25 de Abril - Uma aventura literária
(No
nascimento de um escritor que nos falou da palavra e a construiu com emoção, entre a ambição do sonho e o cansaço dos dias, sempre
na possibilidade de novos encontros).

Sem comentários:
Enviar um comentário
Faça o seu comentário