quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Memória de Baptista-Bastos


"Contarás de Abril, aos meus filhos, que os meus olhos ardidos, urbanos, ficaram cheios de um ofício de um ofício de dizer coisas singelas, humildes: como amor, liberdade. Contarás de Abril os idos e os que voltaram, os que ficaram e ficam. Contarás de Abril pequenas pilhas de palavras,armazenadas numa necessidade que inventei; e as nossas almas ledas e limpas: e os braços que se estendem a outros abraços; e a cordialidade de anotarmos um nome, um número, umaflor: e os balaios sem reticências de mágoas, cheios de trissos de aves, de pássaros remotos de que ignorávamos a voz ou havíamos esquecido o toque e a fímbria.

Contarás de Abril que na nossa terra já não apodrecem as raízes e que já não adiamos o coração; que já não nos dói a velhice e que os rios são todos nossos e íntimos e que já não perdemos a infância e que nas-cem crianças insubmissas e claras e livres. Contarás de Abril a espessura mágica, o punho reflexo, o dia de água, a lágrima, a vontade de sermos e de estarmos, o lipido grito, a forma inconsútil, o vermelhor e a brisa, o livro das coisas, a maravilha discreta de assear a vida, o caminhar, os restos nesta dócil pausa e neste imenso perdão.

Contarás de Abril as casas de milsóis, a imponderável descoberta dos sussurros, a brancura inadiável da perseverança, o resplandecente varar dos dias, a feira alvoroçada das horas. Contarás de Abril as mãos dadas.Contarás de Abril o renascer da essencial frescura.

Baptista- Bastos, 25 de Abril - Uma aventura literária

(No nascimento de um escritor que nos falou da palavra e a construiu com emoção, entre a ambição do sonho e o cansaço dos dias, sempre na possibilidade de novos encontros).

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