terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Do amor e do esquecimento


«O amor ao próximo é o maior prazer do ser humano.» (1)

Somos aparentemente, no imenso universo, a única espécie a habitar esta poeira cósmica de matéria e sonhos. Sem compreendermos os mecanismos do seu funcionamento, oscilamos entre um sentimento de abandono e de esperança, neste cosmos que flutua no espaço. Seria pois nas relações humanas, nas mais diversas situações, que a humanidade poderia encontrar um sentido para a sua existência. Justifica-se que valores como a amabilidade e a generosidade estejam no centro das relações humanas. 

Não sendo o que acontece, que justificação e que preço para a sociedade humana? Adam Philips e Barbara Taylor (2) defendem que o amor ao próximo é hoje «o nosso prazer proibido». Porque temos esta incapacidade de nos identificar com os outros, com as suas dificuldades, angústias, receios e sucessos? Tendo o Ocidente dois mil anos de cristianismo, onde o amor ao próximo organizou o pensamento para tantos milhões, porque é que assistimos à valorização do individual como única forma de sobreviver num mundo dominado pelo egocentrismo, onde tantos parecem estar em guerra por qualquer coisa que não entendem? Afinal demonstrar generosidade publicamente ainda é considerado um ato de inferioridade psicológica ou de sentimentalismo de valor duvidoso. 

A amabilidade não é ainda vista pela sociedade como algo natural. Com graves limitações à afetividade, a sociedade contemporânea elegeu o individualismo e a sua independência singular como critérios de sucesso. A solidariedade como fator de existência humana é ainda vista como uma fraqueza. Quantos projetos de grandes empresas estão ligados a causas de igualdade social? 

Nos últimos anos, as ideias de um liberalismo feroz tem remetido a afetividade natural do homem à esfera do privado. No espaço público, os valores dominantes são outros: competição, domínio da estatística, realidade virtual onde se compete sem valores espirituais, onde a função vale mais que a pessoa. Nesta época, vale pois muito considerar a importância da fraternidade e da solidariedade que o Natal nos devolve como mensagem essencial para estes tempos.

(1) Marco Aurélio, imperador Romano, in Courrier Internacional, março de 2009. 
(2) Adams Philips, Barbara Taylor, The Guardian, 03/01/2016

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018



SESSÃO DE LEITURA


De modo a promover a leitura num contexto distinto do da sala de aula, a  Professora Ester Salgueiro respondeu ao repto da Biblioteca e convidou  a turma B, do 9º ano, a  apresentar as suas leituras  à comunidade. 
Ao princípo, os alunos manifestaram alguma falta de à vontade, mas rapidamente perceberam os objetivos da atividade e aderiram com empenhamento. 






Declaração Universal dos Direitos Humanos


The Declaration of The Human Rights

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

A vida humana (II)



Pensar o Humano é verificar aquilo que o pode definir. As hipóteses são diversas. O que esse ser constrói, o que fabrica, o que pode sentir, o que compreende no Universo onde existe são formas de o definir, ou será apenas necessário identificá-lo numa categoria, numa substância material do tempo? 

A vida humana define-se por uma biologia que desconhece os valores da nossa imaginação, ou contempla-se para esse prazer essencial que conduz-se mais para a ela própria? E assim quando falamos em liberdade não estaremos a falar evidentemente de procura de felicidade? Para esta questão longa e difícil muitos recursos se podem encontrar. A arte, como construção temporal do homem, a Filosofia como interrogação permanente da palavra, do nome das coisas. Façamos essa viagem para colocar perguntas, raras vezes encontrar respostas definitivas.

Por muito acreditou-se, que o ser humano que era chamado Homo Sapiens, isto é, o homem racional, e o Homo Faber, o homem que fabrica ferramentas. Bem... de fato, somos Homo Faber. Todos o somos, pelas canetas que utilizamos, pelos computadores que utilizamos. 
Homo Sapiens, a racionalidade, é excelente. Só que também sabemos que a racionalidade apenas abstrata deixa ser racional. Sabemos que não há pensamento racional sem emoção. Até mesmo o matemático, tem a paixão da Matemática. Ou seja, não podemos pensar apenas pela razão fria. Realmente os computadores estão apenas no domínio da razão fria. Não tem sentimentos, nem vida. Se os deixássemos governar a Humanidade estaríamos em grande perigo. 

Somos, pois indivíduos capazes de emoções e de loucuras também. E, no fundo a dificuldade da vida é realmente navegar. Numa viagem, de nunca perder a racionalidade, mas também, de nunca perder o sentimento e sobretudo, o amor.
É verdade que ouvimos muitas vezes que somos homens de economia. Naturalmente, pois temos interesses económicos, mas somos Homo Ludens também. Gostamos do jogo. Não só as crianças, mas também os adultos. Há muitos exemplos disso. O jogo faz parte da vida. Do mesmo modo, a prosa. 

De facto, ela faz parte da vida porque são as coisas necessárias e obrigatórias que fazemos, mesmo as que não nos interessam. Mas o importante, já o tenho dito, a prosa serve só para sobreviver. Mas a poesia é viver, é o próprio desabrochar. É a comunicação, é a comunhão. Se tivermos essa definição aberta do que significa o que é um ser humano, então teremos em conta toda a dimensão humana. Mas se ela for fechada e económica, iremos perdê-la."

Edgar Morin, "Roda Viva". 2000 - Entrevistas dadas no Brasil
Imagem - © Carla DLM

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

No episódio de um rosto - na memória de Herberto Helder

Levanto à vista
o que foi a terra magnífica
e as estações mais bêbedas
E estou tão leve
porque não tenho nenhum segredo
e tão oculto
porque daqui a nada 
já posso dizer tudo.

Daqui a uma pouca ciência
saberei pensar que daqui a um pouco depois
estarei morto
e só de pensar
já nem respiro
já quase
em nada toco
Já vejo no fundo das mãos
daquilo que fica escrito
Que escrevi coisa nenhuma do mundo
até ao esquecimento e movendo-me com as unhas
movo-me nos nomes inúmeros
para dizer que mal nasci
logo me deram por morto.

E não fui tido nem havido
na razão do episódio de um rosto
ter passado por um espelho e ter desaparecido.
Portanto não me venha ninguém falar de nada
sei bastante do que sabem todos
Vejo a água a mover-se contra si mesma
tão marítima e acho até que é bonito
cada qual morre do que alcança e não alcança
e ninguém compreende
a água que toca os dedos que escreveram até às pontas
e passa a água fácil
sem retorno
porque nada tem retorno e tudo é dificílimo
não só o máximo, mas também o mínimo. 

Herberto Helder, "7º poema", in Servidões

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

A palavra e o mundo - Silêncio na era do ruído (II)


O silêncio que vive na rocha
Na parte interior de cada folha
E no espaço azul entre as pedras.

Temos como civilização uma clara dificuldade em suspender o barulho, em permanecer em silêncio num determinado espaço que habitamos. Pascal disse-o em primeiro lugar quando enunciou no século XVII, uma verdade civilizacional, nessa expressão, "todos os problemas da humanidade decorrem da incapacidade de o homem ficar tranquilamente sozinho no seu quarto". A consequência desta incapacidade é a construção de meios, objectivos, formas que captem a nossa atenção. Isso desloca-nos para longe de nós, para o nosso exterior e é uma das razões por que tantos temem esse espaço do sagrado, o silêncio. Não aquele que nos rodeia, mas aquele  em que estamos fundados, o interior.

O silêncio pode ter em si uma construção visível, algo tão substantivo, "como um oceano, ou uma interminável extensão de neve", e essa "majestade", uma companhia viva ou a atmosfera de um temor. É na sua companhia que podemos aprender muito sobre nós próprios. Para o construir em nós o primeiro passo passa por falar com um dos seus elementos primordiais, a natureza. Se há espaços que melhor conduzem esta sinfonia de encanto primordial, ele pode também manifestar-se nos espaços cívicos de cada um. Isso significa conduzir um processo mental, uma escolha, a realização de actividades manuais, um regresso a algo básico e fundador da essência da vida.

Estas escolhas e estas experiências, como o regresso à natureza e a prática de actividades no interior de uma procura conduz o cérebro a desenvolver um processo, implica um esforço pela concretização de uma ideia, de uma experiência. O movimento no interior dessas escolhas e desses espaços conduz a mente, implica um movimento do corpo, constrói uma possibilidade de encontrar o silêncio em nós. Esse é o silêncio tangível, criado por nós no interior das coisas. Essa construção dar-nos-á não só uma atmosfera interior, como um espaço que nos acompanha.

Erling Kagge, homem de grandes viagens aos espaços mais distantes e mais inabitados do planeta, justamente os pólos faz parte de um tipo de aventureiros que viram no movimento uma das formas de contornar a melancolia das sociedades. Em Silêncio na era do ruído, Erling Kagge reflecte sobre o silêncio, o seu valor para cada um de nós, o espaço de vitalidade que ele pode fornecer para essa dimensão de verdade que cada um procura. No fundo na construção do silêncio somos nós os mestres desse templo à beira de cada desafio colocado. Um pequeno livro. Um grande livro, desses muito raros que falam com o leitor, como se em cada um de nós seja possível chegar a um pólo de extremidade e nele renascer com um sentido próprio, o do silêncio. 

Silêncio na Era do Ruído: Erling Kagge; tradu. Miguel de Castro Henriques. 1ª ed. – Lisboa: Quetzal, 2017. – 156, [3] p. ; 20 cm. – ISBN 978-989-722-385-3

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

A vida Humana


Uma ideia para os próximos meses com a regularidade possível. A da imaginação, e a de pensar os outros, de estabelecer essa relação com o outro, a fonte da cidadania, o que Hannah Arendt sublinhou como a ponte para a existência humana, o pensamento.  
O que pensamos e o que sentimos sobre o que somos, a Humanidade que nos compõe e os outros, o que sentimos com eles numa viagem feita num espaço único, o universo que nos foi oferecido?
Com esta etiqueta (Direitos Humanos) falaremos no fundo de nós. Que textos, que ideias, que imagens, que palavras possíveis para esta dimensão da vida?  Aquelas que o pensamento nos permitir construir, a dos alunos e a de todos os que quiserem colaborar.
A arte tem ao longo dos séculos dado respostas, possibilidades para a definir numa aproximação real do que somos em cada época. É um bom lugar para começar.



DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS




segunda-feira, 19 de novembro de 2018

A palavra e o mundo - Silêncio na era do ruído (I)


   Será possível estar e não estar ao mesmo tempo presente no mundo? Acho que sim.
  Para mim, os breves momentos em que me deixo estar no horizonte ou me encanto com tudo o que me rodeia, ou quando não faço mais nada senão observar uma rocha coberta de musgo verde e me sinto incapaz de desviar o olhar dela ou, então, quando simplesmente tenho uma criança ao colo, são os mais preciosos.
   O tempo, de súbito, pára e sinto-me interiormente presente e, ao mesmo tempo, completamente distante. De súbito, um breve momento pode parecer uma eternidade.
  É como se o momento e a eternidade se tornassem um só. Naturalmente, aprendi que são coisas opostas. Cada um deles está num dos pratos da balança. Mas, por vezes, tal como o poeta William Blake, sinto-me incapaz de distinguir entre a eternidade e aquela breve partícula de tempo:



     “Para ver um Mundo num Grão de Areia
      E um Céu numa Flor Silvestre,
      Segura o Infinito na palma da tua mão
      E a Eternidade numa só hora.”

    Vivo para sentir momentos como este. Sinto-me como um pescador de pérolas que, ao abrir uma concha, de repente, encontra a pérola perfeita.
     A eternidade, o momento ou a experiência de ter encontrado a pérola “não existe de todo no tempo”, escreve o filósofo Søren Kierkegaard. De modo geral, o tempo é uma “Sucessão interminável” em que a um segundo segue outro. Porém, de repente, a experiência do tempo altera-se, dado que a sucessão, ao fim e ao acabo, não é interminável. Um segundo não leva ao seguinte. O tempo fica suspenso e o presente deixa de estar em oposição tanto em relação ao passado como ao futuro nessa “Sucessão anulada”, como lhe chamava Kierkegaard. Experimenta-se então a plenitude do tempo no momento.

     O prazer que sinto ao ler, sentir e pensar nesses momentos, reside no faco de eles reflectirem as experiências que tive na natureza, na cama, e quando leio, experiências que eu considerava muito mais raras quando era mais novo. No entanto, ao fim e ao cabo, não eram assim tão invulgares. O mundo fica suspenso durante um momento, e a paz e o silêncio interiores prevalecem. Trata-se de sentimentos que creio que todos temos em graus diferentes e de vários modos, e que julgo que vale a pena alimentar. De vez em quando, trago da montanha uma pedra coberta de musgo e ponho-a na bancada da cozinha ou deixo-a a na sala, para me recordar dessas experiências. E tenho-as oferecido, várias destas pedras, dotadas de uma beleza particular.

Silêncio na Era do Ruído: Erling Kagge; tradu. Miguel de Castro Henriques. 1ª ed. – Lisboa: Quetzal, 2017. – 156, [3] p. ; 20 cm. – ISBN 978-989-722-385-3

A biblioteca convida a comunidade escolar para assistir a uma palestra  sobre as ameaças aos oceanos. 



quarta-feira, 31 de outubro de 2018

O HALLOWEEN NA BIBLIOTECA


O 7º C, sob a orientação da professora Anabela Barbosa, produziu e apresentou a peça de teatro Um conto de Halloween...assustador...





Peça de teatro





Testemunho dos alunos que participaram na peça de teatro



Feito com Padlet

terça-feira, 23 de outubro de 2018

HORA DO CONTO NA BIBLIOTECA

No âmbito da comemoração do Mês Internacional das Bibliotecas Escolares, convidamos  a comunidade escolar a assistir à peça de teatro "Um conto de Halloween assustador". 
Dia 31 de Outubro by on Scribd

segunda-feira, 17 de setembro de 2018


Com as  palavras de  Audrey Azoulay, Diretora-Geral da UNESCO, por ocasião do Dia Internacional da Alfabetização, desejamos a todos um bom ano letivo. 

“Quando aprenderes a ler, serás livre para sempre”, escreveu Frederick Douglass, no século XIX, um escravo negro americano liberto, campeão da causa abolicionista e autor de várias obras. Este apelo à emancipação através da leitura e, de um modo mais geral, do domínio dos conhecimentos fundamentais - ler, escrever e contar - tem um alcance universal.

A alfabetização é o primeiro passo para a liberdade, para a libertação das condicionantes sociais e económicas. É o pré-requisito para o desenvolvimento, individual e coletivo. Reduz a pobreza e as desigualdades, cria riqueza e ajuda a erradicar problemas de nutrição e de saúde pública.

Desde a época de Frederick Douglass, e particularmente nas últimas décadas, foram alcançados progressos consideráveis em todas as regiões do mundo, e milhões de homens e mulheres foram resgatados da ignorância e da dependência através de um amplo movimento de alfabetização e de democratização do acesso à educação. No entanto, a perspetiva de um mundo em que cada indivíduo seja detentor de conhecimentos fundamentais permanece um ideal.

Hoje em dia, em todo o mundo, mais de 360 milhões de crianças e adolescentes não estão matriculados na escola; seis em cada 10 crianças e adolescentes – ou seja, 617 milhões - não adquirem as competências mínimas em literacia e numeracia; 750 milhões de jovens e adultos ainda não sabem ler e escrever - e destes, dois terços são mulheres. Estas lacunas, que são extremamente incapacitantes, levam à exclusão de fato da sociedade e perpetuam a espiral de desigualdades sociais e desigualdades de género.

A tudo isto se soma agora um novo desafio: um mundo em plena mutação, onde o ritmo das inovações tecnológicas está continuamente a acelerar-se. Para poder encontrar um lugar na sociedade, conseguir um emprego e responder aos desafios sociais, económicos e ambientais, as competências tradicionais em literacia e numeracia já não são suficientes; novas competências, inclusive em tecnologias da informação e comunicação, estão a tornar-se cada vez mais necessárias.

É um desafio preparar os jovens e os adultos para empregos que na sua maioria ainda não foram inventados. É por isso indispensável ter acesso a uma aprendizagem durante toda a vida, tirar proveito de caminhos e pontes entre as diferentes modalidades de formação e beneficiar de grandes oportunidades de mobilidade.


quarta-feira, 13 de junho de 2018

Memória de Pessoa


"Ainda assim sou alguém. /Sou o Descobridor da Natureza (...)
Trago ao Universo um novo Universo / Porque trago ao Universo ele-próprio."

(Alberto Caeiro, "XLVI", Poesias - Heterónimos)

O apelido de Pessoa remete-nos para o teatro grego, as máscaras com que cada um pode enfrentar as dificuldades, os perigos, os desastres que envolvem a sociedade humana e que persistem acima de nós. Pessoa transporta-nos para essa noção de diversidade, de multiplicidade do individual. O poeta de que aqui falamos é uma figura marcante da cultura europeia e mundial. Representa a procura para num mundo colectivo, exprimir a voz do indivíduo, do seu olhar e das suas possibilidades. Pessoa foi influenciado por um conjunto de circunstâncias, as suas, a do seu tempo, que lhe criou um ambiente histórico onde já se determinavam as dificuldades do Portugal Contemporâneo.

A saber, O Ultimatum inglês, a decadência da monarquia, as dificuldades de afirmação da República, a instabilidade política e social, os acontecimentos trágicos à volta de Sidónio Pais. A confirmação de um regime onde a dignidade do ser não existia assegurou-lhe um Portugal cinzento, sem visão, nem futuro. Pessoa soube criar uma poética que respondia à multiplicidade individual, oferendo-nos a dimensão moderna, universal do homem como medida de realização de um todo. Afinal o que pode ser a vida? Neste caminho em contínua aprendizagem que dimensão nos pode transportar para uma felicidade mais próxima da respiração de cada um? Um trajecto baseado em sensações, nas percepções que por si nos dão a materialidade do mundo, como em Alberto Caeiro, ou o modernismo tecnológico do mundo de Álvaro Campos, ou os constantes valores culturais da memória de Ricardo Reis?

Afinal não são os heterónimos diferentes possibilidades de olhar para a afirmação do género humano nessa aventura que é viver? Em todo este complexo modo de ser, Pessoa afirmou-nos que é pela força das ideias que o País poderá ter a sua única possibilidade de se afirmar no mundo desenvolvido. A Mensagem, mais do que um relato de feitos do passado transporta-nos para essa ideia de um Quinto Império em que Portugal para ser autónomo, diferente, melhor, só o pode concretizar se for autêntico, se souber assumir a sua verdadeira dimensão. Pessoa afirmou-se modernista pela sua tentativa de transformar o futuro do País pelas ideias, pela arte, pela cultura, no sentido de cada indivíduo poder participar na construção de uma comunidade. Quantos que governaram este País, inclusive no presente, se esqueceram deste simples princípio?

Pessoa é um criador universal, porque soube criar as diversas possibilidades do indivíduo, a sua multiplicidade onde se encontram inscritos, os valores humanos. Afinal o que poderemos ser em cada dia, reconstruindo o futuro quotidianamente, é uma das suas grandes ideias. Partindo de uma experiência individual, as suas palavras reforçam a nossa humanidade, como valor universal. Só os homens geniais conseguem acima da espuma dos dias, verificar o movimento mais profundo e compreender como poderemos ser mais dignos como País, nas palavras de Almada. Existir é pouco para uma dimensão mais consciente da vida. A genialidade de Pessoa é essa. A de revelar a necessidade de quebrar a incerteza que reina nestas praias em sucessivas gerações. Mariano Deida afirmou há alguns anos, que o poeta de autopsicografia inventou a própria literatura, no sentido não de ter criado palavras novas, mas de nos revelar dimensões novas ao sentido humano.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Dia mundial da criança


Em louvor das crianças

Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados - a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie mítica é habitada por seres de uma tão grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso.

A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais . a sua relação com o mundo não é da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint-Exupéry, o dinheiro e a vaidade. Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis - elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, não diminui nem se extingue.

O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos. O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam de fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão de lutar um dia pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus.

Eugénio de Andrade, in Rosto Precário

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Bioética - os seus campos de decisão



A civilização moderna encontra-se numa posição difícil, porque embora edificada para nós, não está ajustada à nossa medida. A nossa ideia de homem ainda não encontrou o seu lugar estranho e complexo, ela oscila entre a visão filosófica, que o erige no único sujeito num mundo de objetos, e a visão científica que tende a ignorar o espírito humano. Ainda não ajustámos a nossa visão do Homem ao Homem e do mundo ao mundo.

Recordamos aqui a célebre alegoria da caverna. As sombras projetadas no fundo da caverna são o mundo natural, aquele que percecionamos. Esses prisioneiros agrilhoados no seu lugar e aos quais uma gargantilha impede de voltar a cabeça “é connosco que se assemelham”. A fascinação que o jogo irrisório das silhuetas imprecisas exerce sobre esses infelizes revela o nosso estado, sentimo-nos perdidos: o meio elaborado pelo Homem não se ajusta à nossa estatura, nem à nossa natureza. Assim poder-nos-emos questionar se o Prometeu revestido pelo poder, desagrilhoado, na opinião de alguns, ou seja com o poder de intervir, de praticar o possível e mesmo o impossível, não o vai voltar a agrilhoar, se ele não olhar ao conveniente.

Vivemos num presente esmagado pelo peso do futuro. A nossa relação com o tempo é, antes do mais, uma relação extremamente dura e violenta com o futuro. Fala-se do futuro mas, paradoxalmente, nunca fomos tão responsabilizados pelo futuro que devemos deixar às gerações seguintes. Deveríamos, portanto, mudar radicalmente de atitude e romper com todo o tipo de utopismo. Quer o aceitemos ou não, estamos investidos de uma responsabilidade desconhecida, a de deixarmos às gerações futuras uma terra habitável e um mundo sustentável. Sem isto, os nossos descendentes não serão capazes de progredir, nem exercer as suas responsabilidades.

Necessitamos de uma reabilitação do ethos, dos valores morais que fundamentam as atitudes humanas; precisamos da ética, de teorias filosóficas sobre os valores e normas que devem nortear as nossas decisões e comportamentos. A atual crise deve ser entendida como uma oportunidade; importa encontrar uma resposta para os desafios do presente. Se o futuro não está escrito, é múltiplo. Assim todas as possibilidades, mesmo o impossível, são imagináveis. A questão da escolha é portanto essencial.

A Bioética, ética aplicada às ciências da vida, surge na interseção de uma crise de valores e de normas coletivas com o desenvolvimento do individualismo das pessoas e do pluralismo das sociedades. Estimula o debate público sobre as escolhas para o nosso futuro, promovendo uma alteração de consciência, incentivando a participação informada e responsável dos cidadãos. Como ciência transdisciplinar, começa a ser reconhecida como a componente indispensável da formação do cidadão empenhado na vida coletiva, tornando-se numa ética do cidadão, numa ética cívica, enquanto reflexão sobre a ação que se desencadeia, desenrola e se repercute na comunidade global. Tal como defende Victoria Camps (1998), a participação cívica deve ser encarada como a estrutura moral da democracia, onde a ética contribui de um modo determinante para a formação de uma consciência de deveres inerente à formação de direitos, o que faz com que funcione como um elemento de ponderação na educação para a cidadania.

É justamente pela sua especificidade que a Bioética, quando considerada sob o ponto de vista da educação para a deliberação, constitui uma oportunidade excecional para o desenvolvimento de competências reflexivas, críticas, de base plural e democrática. Ao mesmo tempo, permite desenvolver a consciência da responsabilidade e da necessidade da deliberação para a decisão, reconhecendo a posição do outro sem (pré)-conceitos, pressuposto indispensável para um qualquer debate ético.

Ana Sofia Carvalho, "A Bioética e a responsabilidade de deliberar para decidir", Observatório da Cultura, nº 21, in http://www.snpcultura.org/

terça-feira, 29 de maio de 2018

O livro e o leitor (X)


Um leitor por dia - celebrar os momentos íntimos da leitura!
Um livro, o que pensa de nós, os leitores? Que emoção terá nesse processo que é uma suporte e uma experiência contínuas?

Não é fácil ser um livro. (...)

Poderia dizer, com toda a justificação, que somos uma espécie ameaçada - à beira da extinção, na verdade. E, se tal acontecesse, seria uma perda incalculável porque não somos uma espécie comum. A destruição de um qualquer género e, claro está lamentável, mesmo que não passe de um raminho absolutamente irrelevante do tronco maciço da evolução um qualquer beco sem saída. Mas quando uma das únicas formas de vida inteligente que alguma vez pisaram este mundo se vê confrontada com o desaparecimento, trata-se de uma verdadeira catástrofe evolutiva.

Ninguém com um mínimo de inteligência pode negar que, além da humanidade, nós os livros, somos os únicos seres inteligentes à face da terra. De facto, uma análise imparcial concluiria certamente que, de uma maneira geral, a nossa reivindicação é a mais correcta. Para começar, embora estejamos simbioticamente unidos aos humanos, poderíamos, em última instância, viver sem eles. Para que é precisamos deles, exactamente? 

Para nos lerem? Trata-se de uma atividade recreativa que os beneficia apenas a eles, não a nós, de todo. Enquanto atividade física só nos causa danos - vários tipos de danos.
E poderiam eles passar sem nós? Deus nos livre! Sem livros, qual seria a condição da raça humana? Continuariam a arrastar-se no mesmo estado, primitivo e miserável, em que os encontrámos quando aparecemos, há cinco mil anos: uma espécie conhecida pela sua capacidade de esquecer mais rapidamente as coisas do que as memorizar. Não estivéssemos nós à mão para oferecer a nossa abnegada ajuda na tarefa de memorização, não tivéssemos nós memorizado em seu nome, estes pobres seres não teriam qualquer história.

Teriam esquecido praticamente tudo. E como poderia alguém apresentar-se como um indivíduo inteligente, se não recordasse o seu próprio passado, incluindo o passado recente? Ao contrário dos seres humanos, contudo, nunca esquecemos nada. Quando aprendemos algo, esse algo permanece connosco para sempre, inexpugnável. (...) Então quem é superior? O atirador de paus e pedras, talvez?

 Mas isso não é tudo. Os humanos não são apenas esquecidos, são também pessoas de breve e fraca concentração. Em suma: as suas mentes dispersam-se. Na maior parte das situações não pensam, de todo; quando o fazem, teria sido melhor se não o houvessem feito. Para a maioria das pessoas, a vida passa sem que uma ideia brilhante - ou mesmo inteligente - lhes atravesse a mente.  
No caso dos raros indivíduos que são capazes de encarrilar, mais ou menos, as suas ideias, os seus preciosos pensamentos depressa ganhariam asas e voariam para longe, se não no-los confiassem para que os guardássemos.

Somos, agora, o repositório de que tudo o que o seu circo de cem mil milhões de palhaços - que é mais ou menos o número que por aqui passou desde que desceram das árvores - conseguiu alinhavar com grande custo, tanto em trabalho como em dor. Se alguma vez decidíssemos negar-lhes acesso a esse armazém de conhecimento, teriam de começar tudo do zero. (...) Torna-se, assim, claro que é do interesse das pessoas não colocar os livros em perigo. Pelo contrário, deveriam cuidar de nós; deveriam proteger-nos e defender-nos, pois nunca lhes fizemos outra coisa a não ser o bem. Somos o seu parceiro simbiótico: damos prodigamente e quase nada pedimos em troca.

Zoran Živković. (2016). O Livro. Lisboa: Cavalo de Ferro.

Uma obra de arte por semana (X)


                                    Uma obra de arte por dia - Interpretar o real, reconstruir o mundo!

O enigma de um olhar, o tempo suspenso e um instante em representação, algumas das vertentes com que a História de Arte costuma designar o século de ouro da pintura holandesa. Dessa iconografia do quotidiano, de um amor vivo nas tarefas diárias, de um espaço de intimidade, chegamos também às figuras solitárias dessa pintura.

Nesta pintura as figuras, as pessoas estão sós e definem-se pelas suas tarefas, pelas suas atitudes nos espaços e apenas por si. Não existe necessidade de cada uma das figuras se preencher num outro. Nesta pintura cada figura constrói-se inteiramente pelo que realiza sozinha, com a sua postura física. Nela vemos as emoções desvendadas em pequenos gestos, os cabelos em caracóis pendentes sobre o peito, as linhas do vestuário envolvendo corpos, definindo atmosferas, ou a guitarra que em precisos movimentos parece evidenciar um som. Como nos surpreendemos, com a elegância das formas de um corpo que se expande num espelho, ou os gestos de uma pequena boca semi-aberta, ou um sorriso que se estende num cumprimento.

A pintura holandesa do século XVII é feita da apresentação de figuras, de fisionomias que adivinham formas de enredos familiares e sociais. A carta que se escreve, o olhar fixo num sentimento, um pequeno drama que se apresenta, como uma saudade, ou uma inquietação. E depois, sobretudo com Vermeer é a luz que nos chama, que nos encanta, como forma de comunicação  a uma representação.

Vermeer pintou um conjunto de quadros onde notamos nenhum artificialismo da luz. Esta apresenta-se precisa e muito idêntica como a vemos na natureza, tal "como um físico escrupuloso a poderia desejar" (1). Há uma apresentação de raios de luz que se expandem de uma ponta à outra do quadro, pois a luz parece emergir da própria pintura. O espetador surge neste olhar como uma testemunha de um momento, de uma  vontade e de um tempo quotidiano.

(1) Theóphile Thoré Alias W. Bürger, "Van der Meer Delft", in Gazette des Beaux Artes, XXI, 1866.
imagem - Detalhe de A Carta, 1670, National Gallery of Ireland, Dublin.

Um poema por semana (X)

     
 Um poema por dia - a imaginação para iluminar ou compreender o real!

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.


A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nos queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós - próprios. 


Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Imagem, © – Monica Elise Vestre, Art by Nature.


Odes escolhidas de Ricardo Reis / Fernando Pessoa ; ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith. - 1ª ed. - Porto : Assírio & Alvim, 2013. - 149, [2] p. ; 20 cm. - (Pessoa breve). - Bibliografia, p. 139-144. - ISBN 978-972-37-1693-1

sexta-feira, 25 de maio de 2018

A palavra e o mundo - Fantasmagorias (II)

Ela foi e é uma das grandes escritoras do século XX com a atribuição que isso tem de relativo, pois a sua escrita congelou comportamentos e formas de humano que ultrapassam muito o seu tempo. A sua vida foi um contraste de emoções, angústias e momentos de clarividência que deixou em livros como As Ondas, Mrs Dallowway ou Orlando.

Londres foi matéria-prima da sua escrita e neste pequeno livro agora editado, a propósito de comprar um lápis é feita uma viagem pela cidade. Faz-se a descrição sobre o que a viagem nos pode trazer, mesmo em espaços próximos do local onde se habita. Recuperar as memórias de espaços com multidões, onde muitas histórias se perdem é a linha condutora deste pequeno livro de 1927, publicado agora através de uma nova editora, A Feitoria dos Livros. Livro ricamente ilustrado com fotografias do quotidiano de Virginia Woolf e dos espaços citadinos de Londres no final da década de vinte do século passado.
Nunca aconteceu, talvez, alguém sentir-se apaixonadamente distraído por um simples lápis. Mas há circunstâncias nas quais o desejo de possuir um se pode tornar absolutamente avassalador; momentos em que, sob pretexto de possuir um objecto, estamos a inventar uma desculpa para calcorrear metade de Londres entre a hora do chá e a hora do jantar. (...)

protegidos por este argumento nos pudéssemos entregar, em segurança, ao mar dos prazeres com que a vida citadina nos alicia durante o Inverno - deambular pelas ruas de Londres. Convém que a hora seja ao cair da tarde, e a estação o Inverno, pois no Inverno o brilho esfuziante do ar e a sociabilidade das ruas são compensadoras. Não nos sentimentos atormentados, como no Verão, pelo desejo de sombra, de isolamento e do ar suave dos campos de feno. E também porque o cair da tarde nos permite sentir a irresponsabilidade que a escuridão e a luz dos candeeiros concedem. Já não somos exactamente os mesmos.
Assim que pomos um pé fora de casa, entre as quatro e as seis horas de uma bela tarde, largamos o eu pelo qual os amigos nos conhecem, e tornamo-nos parte daquele vasto exército republicano de vagabundos anónimos cuja companhia é tão agradável, depois de termos estado no retiro daquele quarto só nosso. Porque neste permanecemos rodeados de objectos que expressam, de modo eterno, a singularidade dos nossos temperamentos e reforçam as memórias da nossa experiência.

             Virgina Woolf. (2016). Fantasmagorias. Lisboa: Feitoria dos Livros, pág. 29 e 31 

terça-feira, 22 de maio de 2018

maio de 68 - um olhar


“A minha geração dos anos 60, com todos os seus grandes ideais, destruiu o liberalismo devido aos nossos excessos”. (1)

Passam cinquenta anos sobre o Maio de 68 e não sendo ainda um tempo muito longo, já é possível ver esse movimento e a evolução que produziu na sociedade nos anos seguintes. O Maio de 68 foi o maior movimento social do século passado, embora tivesse em si impossibilidades maiores que os seus próprios ideais.

Herdeira de uma geração reformista, a que saiu dos escombros da segunda grande guerra, os jovens dessa década tinham conhecido um mundo melhor, quer em serviços de saúde, quer no acesso ao ensino superior, quer nas possibilidades de mobilidade social. O reformismo a seguir à guerra foi considerado ineficaz e toda a ação deveria virar-se para uma expressão individual da liberdade de cada um. 
A revolta iniciada pelos jovens e que culminaria com a eleição dos elementos que mantinham o regime nas suas linhas conservadoras, De Gaulle em França e Nixon nos Estados Unidos reduzia-se a espaços urbanos. A televisão e a rádio difundiram uma iconografia que se reproduzia na linguagem, no vestuário e nos comportamentos. No final da década a distância dos jovens aos seus pais talvez fosse maior do que em qualquer outro momento da sociedade contemporânea. Na geração anterior a correspondência socialismo – trabalhadores e pobreza - Estado interventivo parecia ser aceitável.

O que uniu a revolta de trabalhadores e estudantes nas ruas de Paris, ou nas avenidas de Washington era a tentativa para diminuir controlos que pareciam ser muito intrusivos na vida de cada um. A justiça social era uma afirmação individual de liberdade. No final dos anos sessenta não é o interesse geral que move a revolta, mas sim a liberdade individual, o desejo de autonomia de cada um na vida. E isso foi a curto prazo uma das divisas da esquerda. O que saiu dos anos sessenta foi o brilho de uma possibilidade, mas também um conjunto de “reivindicações individuais”. O que estas reivindicações iriam provocar foi a decadência de uma atitude partilhada de sociedade. O que significa que nasceu um individualismo que já não trabalhava sobre o interesse coletivo, nem sobre os valores da autoridade, como ela era vista em décadas anteriores. 

A sociedade europeia no início dos anos setenta vivia uma admiração pelos movimentos maoistas e lutava pelo individualismo privado de cada um. Os anos seguintes provariam amargamente que o marxismo era um ilusório território de união, onde os valores da esquerda naufragaram e deixaram de ser comuns. Os protestos contra a guerra do Vietname era mais uma expressão do desconforto individual, de uma doença de sociedade industrial e não era a expressão de um sentir coletivo. A direita que emergiu nas décadas seguintes já não nos falaria de como superar o que no sistema não funcionava, mas sim proponha outro sistema. A indústria “de serviços financeiros” criaria os novos santos, os banqueiros e a sua admiração pelo poder político. Os fossos sociais cresceram, a especulação de negócios entre público e privado deram origem a uma nova sociedade, aquela em que vivemos. O seu sucesso deriva de uma amnésia de participação cívica, do esgotamento do valor da cidadania por diferentes instituições que eram o seu suporte e nela encontramos a velha preocupação de Keynes, “os homens práticos, que se acreditam livres de quaisquer influências intelectuais, são geralmente escravos de algum economista defunto.” 

O Maio de 68 tendo tido uma ideia de libertação conduziu a alguns progressos no campo da emancipação da mulher e dos direitos individuais, mas não teve no Portugal da época qualquer relevância. Seria no após 25 de Abril que algumas das suas questões seriam levantadas. O estado de felicidade do País é como facilmente se percebe a imitação de um modo de sociedade, onde estão esquecidas as abordagens éticas ou a simples consideração de objetivos sociais e culturais mais vivos. Isso diz muito de como a revolta dos estudantes acabou por conduzir a uma sociedade de silêncio nos seus valores sociais e de profunda desigualdade. A instável democracia é o produto de uma divisão profunda das pessoas, separadas pelo dinheiro, pela religião, pelo jogo social. A regressão como valor de Humanidade é evidente todos os dias.

(1) Tony Judt. (2010). Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos. Lx: Quetzal.