terça-feira, 22 de maio de 2018

maio de 68 - um olhar


“A minha geração dos anos 60, com todos os seus grandes ideais, destruiu o liberalismo devido aos nossos excessos”. (1)

Passam cinquenta anos sobre o Maio de 68 e não sendo ainda um tempo muito longo, já é possível ver esse movimento e a evolução que produziu na sociedade nos anos seguintes. O Maio de 68 foi o maior movimento social do século passado, embora tivesse em si impossibilidades maiores que os seus próprios ideais.

Herdeira de uma geração reformista, a que saiu dos escombros da segunda grande guerra, os jovens dessa década tinham conhecido um mundo melhor, quer em serviços de saúde, quer no acesso ao ensino superior, quer nas possibilidades de mobilidade social. O reformismo a seguir à guerra foi considerado ineficaz e toda a ação deveria virar-se para uma expressão individual da liberdade de cada um. 
A revolta iniciada pelos jovens e que culminaria com a eleição dos elementos que mantinham o regime nas suas linhas conservadoras, De Gaulle em França e Nixon nos Estados Unidos reduzia-se a espaços urbanos. A televisão e a rádio difundiram uma iconografia que se reproduzia na linguagem, no vestuário e nos comportamentos. No final da década a distância dos jovens aos seus pais talvez fosse maior do que em qualquer outro momento da sociedade contemporânea. Na geração anterior a correspondência socialismo – trabalhadores e pobreza - Estado interventivo parecia ser aceitável.

O que uniu a revolta de trabalhadores e estudantes nas ruas de Paris, ou nas avenidas de Washington era a tentativa para diminuir controlos que pareciam ser muito intrusivos na vida de cada um. A justiça social era uma afirmação individual de liberdade. No final dos anos sessenta não é o interesse geral que move a revolta, mas sim a liberdade individual, o desejo de autonomia de cada um na vida. E isso foi a curto prazo uma das divisas da esquerda. O que saiu dos anos sessenta foi o brilho de uma possibilidade, mas também um conjunto de “reivindicações individuais”. O que estas reivindicações iriam provocar foi a decadência de uma atitude partilhada de sociedade. O que significa que nasceu um individualismo que já não trabalhava sobre o interesse coletivo, nem sobre os valores da autoridade, como ela era vista em décadas anteriores. 

A sociedade europeia no início dos anos setenta vivia uma admiração pelos movimentos maoistas e lutava pelo individualismo privado de cada um. Os anos seguintes provariam amargamente que o marxismo era um ilusório território de união, onde os valores da esquerda naufragaram e deixaram de ser comuns. Os protestos contra a guerra do Vietname era mais uma expressão do desconforto individual, de uma doença de sociedade industrial e não era a expressão de um sentir coletivo. A direita que emergiu nas décadas seguintes já não nos falaria de como superar o que no sistema não funcionava, mas sim proponha outro sistema. A indústria “de serviços financeiros” criaria os novos santos, os banqueiros e a sua admiração pelo poder político. Os fossos sociais cresceram, a especulação de negócios entre público e privado deram origem a uma nova sociedade, aquela em que vivemos. O seu sucesso deriva de uma amnésia de participação cívica, do esgotamento do valor da cidadania por diferentes instituições que eram o seu suporte e nela encontramos a velha preocupação de Keynes, “os homens práticos, que se acreditam livres de quaisquer influências intelectuais, são geralmente escravos de algum economista defunto.” 

O Maio de 68 tendo tido uma ideia de libertação conduziu a alguns progressos no campo da emancipação da mulher e dos direitos individuais, mas não teve no Portugal da época qualquer relevância. Seria no após 25 de Abril que algumas das suas questões seriam levantadas. O estado de felicidade do País é como facilmente se percebe a imitação de um modo de sociedade, onde estão esquecidas as abordagens éticas ou a simples consideração de objetivos sociais e culturais mais vivos. Isso diz muito de como a revolta dos estudantes acabou por conduzir a uma sociedade de silêncio nos seus valores sociais e de profunda desigualdade. A instável democracia é o produto de uma divisão profunda das pessoas, separadas pelo dinheiro, pela religião, pelo jogo social. A regressão como valor de Humanidade é evidente todos os dias.

(1) Tony Judt. (2010). Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos. Lx: Quetzal.

O livro e o leitor (IX)

                      Um leitor por dia - celebrar os momentos íntimos da leitura!
Sobre as Bibliotecas - esse espaço de intimidade connosco, com as palavras, com o mundo...
"As bibliotecas são como aeroportos. São lugares de viagem. Entramos numa biblioteca como quem  está a ponto de partir. E nada é pequeno quando tem uma biblioteca. O mundo inteiro pode ser convocado à força dos seus livros. Todas as coisas do mundo podem ser chamadas a comparecer à força das palavras, para existirem diante de nós como matéria da imaginação. As bibliotecas são do tamanho do infinito e sabem toda a maravilha. Os livros são família direta dos aviões, dos tapetes-voadores ou dos pássaros. 

Os livros são da família das nuvens e, como elas, sabem tornar-se invisíveis enquanto pairam, como se  entrassem para dentro do próprio ar, a ver o que existe dentro do ar que não se vê. O leitor entra com o livro para dentro do ar que não se vê. Com um pequeno sopro, o leitor muda para o outro lado do mundo ou para outro mundo, do avesso da realidade até ao avesso do tempo. Fora de tudo, fora da biblioteca. As bibliotecas não se importam que os leitores se sintam fora das bibliotecas. Os livros são toupeiras, são minhocas, eles são troncos caídos, maduros de uma longevidade inteira, os livros escutam e falam ininterruptamente. São estações do ano, dos anos todos, desde o princípio do mundo e já do fim do mundo.

Os livros esticam e tapam furos na cabeça. Eles sabem chover e fazer escuro, casam filhos e coram, choram, imaginam que mais tarde voltam ao início, a serem como crianças. Os livros têm crianças ao dependuro e giram como carrosséis para as ouvir rir. Os livros têm olhos para todos os lados e bisbilhotam o cima e baixo, o esquerda e direita de cada coisa ou coisa nenhuma. Nem pestanejam de tanta curiosidade. Querem ver e contar. Os livros é que contam. As bibliotecas só aparentemente são casas sossegadas. O sossego das bibliotecas é a ingenuidade dos incautos. Porque elas são como festas ou batalhas contínuas e soam trombetas a cada instante e há sempre quem discuta com fervor o futuro, quem exija o futuro e seja destemido, merecedor da nossa confiança e da nossa fé. 

Adianta pouco manter os livros de capas fechadas. Eles têm memória absoluta. Vão saber esperar até que alguém os abra. Até que alguém se encoraje, esfaime, amadureça, reclame direito de seguir maior viagem. E vão oferecer tudo, uma e outra vez, generosos e abundantes. Os livros oferecem o que são, o que sabem, uma e outra vez, sem refilarem, sem se aborrecerem de encontrar infinitamente pessoas novas. Os livros gostam de pessoas que nunca pegaram neles, porque têm surpresas para elas e divertem-se a surpreender. Os livros divertem-se. 

As pessoas que se tornam leitoras ficam logo mais espertas, até andam três centímetros mais altas, que é efeito de um orgulho saudável de estarem a fazer a coisa certa. Ler livros é uma coisa muito certa. As pessoas percebem isso imediatamente. E os livros não têm vertigens. Eles gostam de pessoas baixas e gostam de pessoas que ficam mais altas. Depois da leitura de muitos livros pode ficar-se com uma inteligência admirável e a cabeça acende como se tivesse uma lâmpada dentro. É muito engraçado. 

Às vezes, os leitores são tão obstinados com a leitura que nem acendem a luz. Ficam com o livro perto do nariz a correr as linhas muito lentamente para serem capazes de ler. Os leitores mesmo inteligentes aprendem a ler tudo. Lêem claramente o humor dos outros, a ansiedade, conseguem ler as tempestades e o silêncio, mesmo que seja um silêncio muito baixinho. Os melhores leitores, um dia, até aprendem a escrever. Aprendem a escrever livros. São como pessoas com palavras por fruto, como as árvores que dão maçãs ou laranjas. Dão palavras que fazem sentido e contam coisas às outras pessoas. 

Já vi gente a sair de dentro dos livros. Gente atarefada até com mudar o mundo. Saem das palavras e vestem-se à pressa com roupas diversas e vão porta fora a explicar descobertas importantes. Muita gente que vive dentro dos livros tem assuntos importantes para tratar. Precisamos de estar sempre atentos. Às vezes, compete-nos dar despacho. Sim, compete-nos pôr mãos ao trabalho. Mas sem medo. O trabalho que temos pela escola dos livros é normalmente um modo de ficarmos felizes. 



Valter Hugo Mãe, "As Bibliotecas", In Jornal de Letras, Maio de 2013
Imagem, O orfanato Safe Haven, Ban Tha Song Yang, Tailândia

Uma obra de arte por semana (IX)

                Uma obra de arte por dia - Interpretar o real, reconstruir o mundo!
"O pintor é dono de todas as coisas que podem cair no pensamento humano; porque, se ele desejar ver belezas que o apaixonem, será senhor de gerá-las e, se quiser ver coisas monstruosas que espantem ou que sejam ridículas ou verdadeiramente lastimáveis, ele é seu senhor e criador. E, se quiser gerar sítios desertos, lugares sombrios ou frescos nos tempos quentes, figurá-los-á e também lugares quentes nos tempos frios. Se quiser vales, o mesmo; se quiser dos altos cumes dos montes descobrir uma grande campina e se quiser depois ver o horizonte do mar, será capaz disso; e, assim também se, dos fundos dos vales, quiser ver os altos montes, ou dos altos montes, os fundos vales e as praias. E, com efeito, o que está no universo por essência, presença ou imaginação, ele o tem primeiro na mente e, depois, nas mãos que são de tão grande excelência que ao mesmo tempo criam uma proporcionada harmonia num só olhar como as coisas fazem."

Leonardo da Vinci, Tratado de pintura, VI, 1498
Imagem - Leonardo da Vinci, A viagem dos rochedos, C. 1482, Paris , Museu do Louvre

Um poema por semana (IX)

                 Um poema por dia - a imaginação para iluminar ou compreender o real!
Meu coração bate mais forte
ao ver o arco-íris no céu.
Assim foi
no início da minha vida.
Assim é
metade dela corrida.
Assim seja
quando envelhecer.
Senão a morte, irei preferir.
A criança é o pai do homem.
Queria que os meus dias fossem,
afinal, unidos um a um
por piedade natural.


Poems in two volumes William Wordsworth; London: Longman, Hurst, Rees, and Orms. 1807; Imagem – ©: Delphine Devos

quarta-feira, 9 de maio de 2018

MAIO DE 68 

A biblioteca assinala a data com uma pequena exposição e convida a comunidade a uma análise das imagens e desejável reflexão.


Manuel António Pina (II)


As coisas melhores são feitas no ar,
Andar nas nuvens, devanear,
Voar, sonhar, falar no ar,
fazer castelos no ar
e ir lá para dentro morar,
ou então estar em qualquer sítio só a estar,
a respiração a respirar,
o coração a pulsar,
o sangue a sangrar,
 a imaginação a imaginar,
os olhos a olhar
          (embora sem ver),
E ficar muito quietinho a ser,
os tecidos a tecer,
os cabelos a crescer,
e isto tudo a saber
que isto tudo está a acontecer!
as coisas melhores são de ar,
só é preciso abrir os olhos e olhar,
basta respirar.

Manuel António Pina. (1993). O pássaro na cabeça. Lisboa: Assírio & Alvim.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Com Manuel António Pina... (I)


"A beleza é o rosto mais jubiloso da verdade. Não da própria verdade, mas do seu rosto". (1)

Os dias são muitas vezes tão sucessivamente rápidos que muitas memórias nos escapam. O tempo torna-se reduzido para inscrever no íntimo tantas vozes que tentaram connosco dar aos dias uma cor própria, um sentido vivido de consistência e beleza. Manuel António Pina desapareceu fisicamente a dezanove de outubro de dois mil e doze. É uma voz que vale a pena recuperar. Pela poesia, pelas crónicas, que nele eram uma arte de desmontar o essencial e pela prosa. Aqui deixaremos neste mês algumas lembranças e memórias.

Manuel António Pina foi um homem que buscou nas palavras uma tentativa de fazer compreender a nossa natureza efémera. Foi daqueles que vindo das terras do Mondego, dos contrafortes da Estrela se fez e se encontrou na cidade do Porto. Aqui encontrou formas de desenhar na natureza e na paisagem o seu caminho de combustão de sonhos, no veludo das encostas de granito.

Manuel António Pina tinha uma paixão pelo Winnie the Pooh. Olhava para a literatura infantil como a possibilidade de reencontrar o olhar inicial, o que está pronto para a linguagem do mundo, ainda sem o conhecer. Revelou uma curiosidade para traçar pela poesia as grandes questões filosóficas de sempre inerentes à natureza humana e descobriu na solidão a possibilidade de erguer sonhos.

Refletiu sobre a sociedade em que viveu com liberdade, com inteligência e com criatividade. Deu-nos no JN um conjunto de crónicas sobre esse real que se sonha e, que não se compreende pela ausência de uma real cidadania. Desse real, em que instituições e media, precariamente percebem o significado do velho ideal grego, "Libertas, Humanitas, Felicitas". 

Foi um cronista que ousou utilizar as palavras para discutir "as verdades" que o establishent político gosta de enumerar como os pilares do universo, por onde interesses privados se alimentam da destruição mais básica dos valores de dignidade de tantos. Manuel António Pina foi um prosador e com as palavras procurou exercer a liberdade que nos falta, a que tem uma dimensão moral.

E foi um poeta. Um poeta que nos descreveu como nos orientamos com os mitos, como respiramos o real, entre os lugares e as suas sombras, por onde tentamos reconhecer os gestos. Nunca nos recompomos da partida dos poetas, pois o timbre da voz é irrecuperável, mesmo que a memória e as palavras queiram colaborar nessa luta à partida perdida, de guardar o sorriso no templo desse "dragão feroz" (2) que é o próprio tempo.

(1) Entrevista a António Manuel Pina, in Jornal i, 18/02/21012 
(2) Ana Maria MatuteParaíso Inabitado