quarta-feira, 18 de abril de 2018

O livro e o leitor (VI)

                         O livro e a leitura - celebrar os momentos íntimos da leitura!

Na cultura medieval as representações da Anunciação eram pouco comuns. Foi durante o Renascimento, quando a sua representação já não era uma raridade que surgiu uma das mais emblemáticas. Trata-se da Anunciação pintada por Simone Martini, de 1333. 

A figura de Maria aparece numa imagem sobressaltada, quase a recusar o encontro com o anjo, aconchegando o manto ao peito e mantendo o livro aberto, no sítio onde a leitura tinha sido interrompida. Estamos perante um livro de Horas. 

Estes livros eram utilizados como objectos pessoais de devoção e também serviam para ensinar as crianças a ler. O quadro de Simone Martini é muito importante porque introduz algo novo - a ideia e o conceito que marcará o ambiente das mulheres culturas no fim da Idade Média.
Justamente, a leitura em silêncio, a procura de palavras que sirvam um estudo que é solitário, mas que permite construir ideias próprias. O sobressalto de Maria é o sobressalto de interrupção da leitura. Nesse sentido é um quadro sobre a leitura e sobre uma nova forma de construir momentos de intimidade e assim também pensamentos.

Simone Martini, A Anunciação (1333) - Uffizi - Florença -

Uma obra de arte por semana (VI)

Uma obra de arte por dia - Interpretar o real!

Edgar Degas é em certo sentido um dos representantes do movimento Impressionista. Desenvolveu a sua atividade na segunda metade do século XVIII e primeiros anos do século XIX. Com Monet, Cézanne e Renoir, Degas e outros pintores procuraram apresentar as suas obras a público nascendo uma forma de representação que marcaria a pintura no século XIX. 

Embora o Impressionismo tenha cultivado a arte de pintar ao ar livre, a vida real observada Degas procurou mais a ficção nas suas representações pictóricas e a sua pintura foge às características tradicionais do Impressionismo. Participou em exposições do grupo, mas as suas cores e temáticas fugiam um pouco ao que os restantes elementos faziam e procurou desenvolver um sentido de vanguarda. 

Na sua pintura as personagens desenvolvem-se em atmosferas muito expressivas, de um realismo notável e com uma capacidade de nos comunicar emoções de forma brilhante.

Edgar Degas, Bailarina no palco, 1878, Musée d'Orsay, Paris

Um poema por semana (VI)

Um poema por dia - a imaginação para iluminar ou compreender o real!

You tell me that silence
is nearer to peace than poems
but if for my gift
I brought you silence
(for I know silence)
you would say
This is not silence
this is another poem
and you would hand it back to me
.


Leonard Cohen, "Gift", in Pocket Poems

terça-feira, 17 de abril de 2018

Escritor do mês - Eça de Queirós

José Maria de Eça de Queiroz nasceu na Póvoa do Varzim em 1845. Estudou entre o colégio da Lapa, na cidade do Porto, e a Universidade de Coimbra, onde entrou no primeiro ano, em 1861. Aqui, ligou-se a uma geração académica, admiradora das ideias de Proudhon e de Comte. Travou conhecimento com Antero de Quental e iniciou a sua carreira literária, com a publicação de folhetins que mais tarde seriam agrupados nas Prosas Bárbaras (1905).

Em 1866, formou-se em Direito e passou a viver em Lisboa, onde exerceu a profissão de advogado. Cimentou a sua ligação a Antero de Quental e ao grupo do Cenáculo (1868), após ter dirigido o Distrito de Évora (1867). Em 1869, viajou até ao Egito, para fazer a reportagem sobre a inauguração do Canal do Suez, de que resultará O Egipto, publicado apenas em 1926.

Em 1871, participou nas Conferências do Casino Lisbonense. Entre 1869 e 1870, publicou diferentes obras, tais como Os Versos de Fradique Mendes,O Mistério da Estrada de Sintra, em parceria com Ramalho Ortigão e iniciou a publicação das Farpas. Em 1871, foi nomeado 1.º Cônsul nas Antilhas espanholas, transitando depois para Cuba, onde permaneceu dois anos. Entre 1883 e 1887, refez algumas das suas obras e publicou o Conde D’Abranhos e Alves & Companhia. Em 1874, passou a desempenhar a sua atividade em Inglaterra, foi em Newcastle que terminou O Crime do Padre Amaro (1875), ali ficando até 1878.
Após esta data, foi para Paris, onde se dedicou à criação literária e onde faleceu em 1900. Em 1888, publicou a sua grande obra Os Maias e foi nomeado Cônsul em Paris. Continuou a escrever diferentes textos e obras, como A Ilustre Casa de Ramires ou a publicação na Revista Moderna, em Paris. 

Eça é um dos maiores escritores de língua portuguesa, sendo em muitos aspetos uma figura que cria um mundo novo que alcança formas novas de exprimir um modernismo na escrita. É um dos escritores mais populares de língua portuguesa. A sua obra evoluiu de uma formulação inicial mais fantástica e influenciada por nomes como Baudelaire ou Heine, presente nos artigos e crónicas, para numa fase posterior se dedicar à crítica das instituições mais tradicionais, preocupando-se com a reforma social, dando-nos belos quadros de “crónicas de costumes.” 

Na última fase, encontramos uma escrita com mais esperança, com o culto da Natureza e de um certo regresso à simplicidade do homem, como se percebe em A Ilustre Casa de Ramires, A Cidade e as Serras ou a Correspondência de Fradique Mendes.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

O livro e o leitor (V)

                O livro e a leitura - celebrar os momentos íntimos da leitura!

Sibila de Cumas de Miguel Ângelo é um dos quadros que no Renascimento procurou dar nova vida às histórias e figuras da mitologia. Miguel Ângelo nos frescos da Capela Sistina juntou figuras do Antigo Testamento (profetas) com Sibilas de natureza pagã.

As Sibilas eram profetisas da Antiguidade Clássica que sabiam prever acontecimentos trágicos. O nome que as acompanhava derivava do sítio onde estavam. Sibila de Cumas referia-se a uma Sibila da região da Campânia. Neste fresco a Sibila é-nos oferecida numa fase ainda não final de vida, pois os braços ainda revelam muito vigor. 

A Sibila de Cumas de Miguel Ângelo aparece no seu conjunto como uma figura meio humana, meio fantástica e o livro surge como algo que saberá ler o futuro. Apesar das páginas do livro estarem em branco ele surge aqui retratado no seu aspeto mais simbólico de conservação de algum conhecimento, os poderes da Sibila no universo mitológico próprio da Antiguidade Clássica que o renascimento reinventou com novos significados.

Miguel Ângelo, A Sibila de Cumas (1510)
Capela Sistina - Roma

Uma obra de arte por semana (V)

            Uma obra de arte por dia - Interpretar o real, reconstruir o mundo!



A Primavera, quadro de 14470/80 de Sandro Botticelli é uma das referências da Arte do Renascimento. Quadro de extrema beleza, onde vemos as Três Graças e Flora com o seu vestido florido. É um quadro de memória da escola de Florença, das atmosferas delicadas. O quadro tem um significado filosófico relacionado com a simbologia da Primavera. Botticelli na fase final da sua vida abandonou este tipo de pintura, por influência de Savoranola, e embora perdesse popularidade por esses anos finais (início do século XVI) foi recuperado no século XIX como um pintor de grande nível.

Sandro Botticelli, A Primavera (1470/80) 
Galleria degli Uffizi - Florença

Um poema por semana (V)

               Um poema por dia - a imaginação para iluminar ou compreender o real!

Um poema por dia - a imaginação para iluminar ou compreender o real!
E pode
No entanto escutar-se, no entanto
Reler-se, no entanto caminhar

Em direcção diversa, magoar
Novamente os joelhos na jornada?
Como os velozes mensageiros de hoje,
Os que, com Íris e Hermes, esvoaçam
Pelo éter, não há-de reunir-se
Um exército novo, uma razão
Em forma de cenário, aquela estranha
Ardência do improvável
.

Hélia Correia (2012). A Terceira Miséria. Relógio D’ Água, p. 37.
Imagem: © – Hemingway, Colette. “Retrospective Styles in Greek and Roman Sculpture”. In Heilbrunn Timeline of Art History. New York: The Metropolitan Museum of Art, 2000–. http://www.metmuseum.org/toah/hd/grsc/hd_grsc.htm (July 2007)